Por entre o pizzicato, o arco e a voz, a poeta do violoncelo é Joana Guerra. Um dos nomes mais badalados dos últimos tempos, Joana tem-se destacado na conjectura musical com o seu grande espírito e composições originais que, por sua vez, têm vindo a conquistar o coração do público português.

De origem alfacinha, a violoncelista partilhava, desde criança, a música que ia conhecendo com os seus irmãos mais velhos que escoltavam a década de 90 e seus frutos com sonoridades salpicadas por pitadas de jazz, blues, grunge e o rock. Ficaram, então, cristalizadas algumas referências, assim como influências de nomes internacionalmente eruditos como Lisa Gerrard dos Dead Can Dance e Joanna Newsom. É neste ambiente envolto por música que Joana opta por enveredar pela formação clássica e pelo mundo das claves de sol, elegendo o violoncelo das “Seis Suites de Bach” como o seu melhor amigo de mágoas e alegrias. Foi integrando e participando em variado formações, todas elas num espectro bastante alargado e com múltiplos registos. Em 2011, o tema “Heartcrash” que, mais tarde, viria a integrar o seu primeiro álbum intitulado Gralha, foi exibido em vídeo pelo impulsionador Tiago Pereira do projecto “A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”. O trabalho a solo de Joana ganha assim fôlego, aquando de um convite de Tiago, nesse mesmo ano, para realizar um concerto em Évora, no qual a violoncelista revelou o seu reportório e algumas outras músicas que tinha guardado na sua gaveta.

Joana faz também parte de um duo juntamente com o violinista Gil Dionísio e de um trio de improvisações de nome Bande à Part, e já aqui podíamos observar a sua singularidade e aptidão. Tendo colaborado já entretanto com variadíssimos nomes da música erudita como Helena Espvall, Yaw Tembe, Maria Radich e João Alegria Pécurto, é em 2013 que Gralha é editado pela Discos Monstro de Gila, marcando o início de uma busca bonita pelos mares da música experimental, com o violoncelo derretido nas mãos de Joana a ferver pelas notas doces e um tanto ou quanto errantes. Em Gralha, Joana foi auxiliada pelos amigos Ricardo Ribeiro e João Alegria Pécurto, nos papéis de clarinete baixo e produção respectivamente. Canta não só em português, mas também em francês e inglês, canções que mais parecem poemas que escorrem arte e beleza. Joana Guerra, apoiando-se apenas do seu violoncelo, das suas cordas vocais e da loop-station, abre alas para um taciturno e terno ímpeto para os ouvidos.

Desde acordes minimalistas a um folk experimental dos anos 60, delineados pela sua ténue voz e triste violoncelo, a erudita e sombria compositora narra várias histórias. Com um registo por vezes definido, outras indefinido, Joana soltou recentemente o seu Cavalo Vapor. Este segundo álbum, editado pela Revolve, explora os meandros por explorar da música de violoncelo e uma poesia imaculada e suja. Cavalos Vapor é um mapa por onde nos podemos perder, seja a trote ou a galope. O segundo trabalho de Joana é um álbum que se enquadra numa selvática dança ou um tango de dois pés. Com as colaborações pontuais de Gil Dionísio no violino e Alix Sarrouy na percussão, o passo faz-se de imediato com “O Cavalo Que Penteia A Crina”, um hino suave e doce cujo vídeo foi realizado por Carlos Godinho que dá o mote em pequenos suspiros para “Duelo”, segunda faixa do álbum. São oito os cavalos de Joana que falam, gritam, e dançam de formas de difícil contenção. Joana arrisca-se a associar a sua voz à de Lisa Gerrard na sua faceta solista e  ao som do choro do seu violoncelo, que não habita sozinho no disco: há espaço também para a utilização da kalimba e do kazoo.

O sucessor de Gralha é um álbum obrigatório para este Inverno e para esta vida. Assim começam a galopar os magníficos Cavalos Vapor de Joana Guerra.