Schuylkill River, Philadelphia. Podia ser Constância, Santarém como podia ser outro lado qualquer. As coordenadas de uma inocência genuína contabilizada nas milhas das rodas das bicicletas em passeios à beira rio com vista para o legado deixado pela revolução industrial, personificada fronteira após fronteira nos fumos das longas chaminés, são irrelevantes quando o sentimento que canta a secura, o pó, os desamores e a vivência campesina e operária se traduz numa arte autêntica, resignada ou feliz, descritiva, distanciada ou emocional, e próxima do coração. E apesar de inequivocamente localizada, a geografia sonora dos The War On Drugs visa quaisquer estados de alma, faz renascer força no desalento, resiliência no derrotismo e é património de pertença universal.

Universal é também a dor, o desencantamento, a confrontação com a queda das peças de um dominó que se construiu com amor e suor, com o desmoronar de uma imagem que pode nunca ter sido real. A “Pain” de Adam Granduciel toca a todos e vai percorrendo as margens de uma vida, agitando as águas e atingindo de forma mais ou menos categórica a alma. E por falar em coisas que realmente afectam e realmente sobrevivem à brevidade do tempo, a sequência de temas revelados pelos The War On Drugs para o disco que será editado no final da semana, não deixa dúvidas quanto ao papel que irá desempenhar no desenrolar do ano: este é para musicar os restantes meses de 2017 e o resto da vida.

O vídeo para “Pain” desenrola-se suavemente a bordo de um barco ocupado pelos membros da banda e seus instrumentos com janela aberta para os olhares, as vivências, e as histórias individuais da classe trabalhadora norte-americana, captadas a preto e branco por Emmett Malloy. A Deeper Understanding contém, para além de “Pain”, as anteriores “Thinking Of A Place“, “Holding On“, “Strangest Thing” e “Up All Night” – esta revelada no final da semana passada. O disco sai dia 25 de agosto pela Atlantic Records.