Nas noites quentes de Verão poder completar o serão com um concerto parece sempre uma óptima ideia. Uma forma diferente de terminar o dia… se for esse o caso. Nesta passada sexta-feira, a proposta estava lançada pelo Theatro Circo: Bombino, o músico do qual temos ouvido regularmente falar e escutado a sua música desde a presença no Vodafone Paredes de Coura de 2013. O preço da entrada, fixado nos 20€, pode ter afastado os mais conservadores; no entanto, houve público para ocupar razoavelmente a sala principal, público esse constituído em grande número, por famílias – o que é sempre bom de se ver.

Disposto o público em lugares sentados na sala principal do espaço, recebemos o nigerino e restante trupe – quatro no total -, alinhados horizontalmente ao longo do palco. Numa primeira fase tocaram-se os instrumentos acústicos – duas guitarras do lado direito e à esquerda a percussão, onde dois músicos se dividiam entre – desculpe-se a inevitável imprecisão -, um possível djambé e algo como uma frigideira invertida a que lhe chamam hang drum. O grande destaque, claro, é Omara Moctar, que conduz a sala ao sabor da guitarra. Na virtuosidade há igual parte criativa e ritmo constante.

Depois de um início muito bem conseguido, esmoreceu algum do imediato apelo exótico da música de Bombino que tão estranha soa a ouvidos habituados ao cânone pop ocidental. Mas atentando às melodias, há muito a explorar. E não esqueçamos as raízes tradicionais que as sustentam, assim como a importância das letras do músico tuareg. Infelizmente, poucos serão aqueles que as entenderão, mas são sobejamente importantes e uma das razões que o levam a ser bastante admirado na terra natal.

Por tudo isso Bombino, limitado ao dialecto natal e ao francês do norte de África, foi comedido mas sincero, nos merci que balbuciava entre canções e o público contribuía chamando o nome do músico. A certa altura, numa pausa mais prolongada, a banda tentou dois dedos de conversa e fez questão de mencionar a recente vitória lusa no Europeu. Assim foi até sensivelmente metade do concerto, quando se deu uma mudança de instrumentos – saem instrumentos acústicos, entram baixo e guitarras eléctricos e uma bateria endiabrada. A soar bem mais perto do epíteto “Jimi Hendrix do deserto”, o grupo apostou num rock mais esclarecido, ainda sobre a matriz de música africana e, até, com algum perfume a jam psicadélica.

Já bem perto do final, e após um sincero pedido de bis, um menos tímido adepto de Bombino abriu os braços e fez levantar a sala inteira, para que se pudesse dançar as últimas músicas – provavelmente, algo que se pedia desde o início. Foi uma óptima forma de fechar o concerto. Enquanto tocou Bombino e a sua banda, transportámo-nos para longas travessias no deserto, e os reencontros com uma cultura de passagem – nómada; mas é, ainda assim, uma dimensão musical, apenas. Há uma outra faceta do músico que nos é intrinsecamente inacessível – o Bombino influente, ícone de um povo – e cuja cultura não poderemos perceber. Para os mais curiosos, recomendamos um documentário de Ron Wyman, Agadez (2010), que incide sem grande pormenor na luta tuaregue.