Correm nas veias de Gyða Valtýsdóttir o encanto e a magnificência da mística Islândia. De tão visceral que é a sua música, este fascinante conjunto de paisagens frias de sons paradisíacos que aquecem a alma é libertado em cada palavra que canta, em cada tecla que prime ou corda que solta. Balançando os seus estudos clássicos intensivos com a sua experiência com os múm, Gyda consegue criar estruturas complexas que são acessíveis e incisivas no que toca à manifestação expressiva da música.

É com o seu calor, em jeito maternal, que Gyða aquece o mundo da música, o torna mais aconchegante e confortável. A artista islandesa, depois de todas as maravilhas que nos ofereceu dando temporariamente voz a múm, prepara-se para editar mundialmente o seu álbum de estreia a solo e que vai levar o título de Epicycle. Tendo o carimbo da Figureight Records, o disco vai ser editado em CD e LP 12” e do qual é agora retirado o tema de apresentação “Seikilos Epitaph”.

Este “Epitáfio de Sícilo” é o registo completo de anotação musical mais antigo de sempre, datado de cerca de 100 a 200 anos antes de Cristo. O carácter e aura fortes desta música não se cingem só aos anos que carrega, mas também ao facto de ter sido encontrada num túmulo, como dedicatória e registo imortal a alguém que se desconhece.

Enquanto viveres, brilha.
De todo não te aflijas,
Pois curta é a vida
E o tempo cobra seu tributo.

A letra reflete não só a ideologia civilizacional grega como também parece expressar em palavras a música de Gyða em termos gerais e no seu arrepiante arranjo para este tema. O prolongar da duração da música confere-lhe um certo hipnotismo por repetição, tornando-a ainda mais etérea e transcendente, enquanto a melodia base, que já se mostra expressiva o bastante, assenta numa instrumentalização completa e densa desta versão que a situam num território entre o comovente e o reconfortante.

Esta sensação de estranheza, e a subsequente facilidade em lidar com ela, é já recorrente no trabalho de Gyða, mesmo nas suas aventuras sónicas nos Múm e é fascinante a forma como transmite força com abstracções tão frágeis e cristalinas como são as suas músicas e as suas abordagens aos instrumentos que toca – violoncelo, zither e piano.