Com a chegada da Primavera, o barcelense Nuno Rodrigues, mais conhecido por Duquesa, traz o sotaque, a chuva e o granito molhado com ele ao sul litoral. Apesar de S. Pedro não ter ajudado, todos os que não quiseram perder pitada do concerto a ter lugar no Musicbox lisboeta mantiveram-se fiéis e encheram a querida e habitual casa que serviu de agradável abrigo num cosmos frio e invernoso.

Do Norte ao Sul a casa é portuguesa, e como manda a dita tradição, o concerto não poderia começar a horas. Mas ninguém se ralou com isso, é de ânimo leve e boa disposição que se encara a entrada em palco de Nuno. De olhos pintados de azul e de estrutura frágil e franzina, a imagem que ressalta é de um doce cisne que pega na sua guitarra e toca durante uns bons minutos sem proferir palavra. A suavidade e pureza do instrumento e da voz de Nuno – mais grave que o costume –, levam-nos até à beira-mar para um passeio com as ondas, com a lua, e com nós próprios. E é exactamente esse o panorama sentido com a primeira faixa ouvida do espectáculo, “Norte Litoral”.

Está dado o mote para a entrada do resto da realeza em palco, e uma das caras presentes é-nos familiar. É Rafael Ferreira, guitarrista dos Glockenwise que veio dar uma mãozinha – literalmente -, ao seu bandmate. Tanto Rafael como Cláudio (na bateria) são impenetráveis e briosos, concentrados até à última nota e na batida. Já André, e o seu sempre presente cigarro, revelam uma satisfação e tranquilidade imensa que se exprimem num baixo volumoso e bem estudado.

Duquesa apresenta "Norte Litoral" no Musicbox, Lisboa

Duquesa apresenta “Norte Litoral” no Musicbox, Lisboa

Como já era de esperar, a setlist não seria propícia às danças mais hollywoodescas nem a estrondosos möshes. Este foi um concerto marcado pela delicadeza e pela afabilidade de Nuno, que fez questão de interagir sempre com o público entre as canções, criando uma intimidade e conforto muito queridos. Houve espaço e tempo para tudo, desde confissões de nervosismo, puros agradecimentos, apresentações e ainda para a leitura de um ou dois cartazes presentes no público.

“Ice Cream” e “Douchebag”, ainda que tocadas com intervalos de distância consideráveis, serviram para dar um toquezinho de verão e tirar os pés dormentes do chão com as suas melodias pop floreadas de refrões inocentes, capazes de ficar na cabeça de qualquer um para um possível canto no duche. Ainda que sem sintetizador, a atmosfera mac demarquiana fez-se sentir no Musicbox; o toque silly e mellow com os seus característicos acordes escorregam pelos dedos nervosos de Duquesa, mais proeminentemente na pseudo-última faixa do espectáculo – mal ele sabia, mas com certeza calculava que queríamos mais –, “Afinal”. Com um jogo de luzes bem conseguido, um fade away acompanhava a saída dos companheiros bracarenses e a despedida de Nuno.

Para além dos intensos e sentidos aplausos, prolongaram-se os agradecimentos do público da melhor maneira com pedidos de encore não uma, mas duas vezes. Ninguém queria arredar pé e notava-se no rosto e na felicidade de todos, incluindo do nosso bem-amado e carinhoso cisne. Com o novo disco tocado, Nuno foi ao baú desencantar dois temas que marcaram um au revoir alegre e emocionado com a promessa de visitar a capital brevemente. Estava assim fechado o caloroso concerto de estreia do Norte Litoral em Lisboa.