Os LOT (El Oh Tee) vieram visitar a sala do Cais do Sodré numa ocasião de festa: o grupo vê-se na calha de apresentar Mother Board, o primeiro registo oficial de um caminho que já vem a ser traçado desde os meandros de 2016 numa altura em que a sua ressonância começa a chegar a temperaturas mais quentes. Um ano a percorrer as FNAC’s e as salas de espectáculo em Portugal culminam num início de 2017 que vê o grupo fazer as honras de entrada para os Thievery Corporation no Coliseu, encontrando no magnânimo palco nacional num tamanho bem apropriado para o som atmosférico e épico que criam, fruto também da tal jornada que os levou esta noite ao Sabotage de álbum gravado e pronto a mostrar. O som do grupo vem de um lugar 100% pop: a electrónica moderna e fresca encontra pontos de contacto com a soul ao piano e eleva o ancestral estilo musical a um estratosfera de sabores e ritmos que sensualmente se introduzem nos corpos. A música dos LOT está para nos fazer dançar, para nos introduzir aquela veia de adrenalina que vem com os seus épicos crescendos e para nos colocar certamente num outro sítio e outra vibe. Decididamente diferentes daquilo que a casa habitualmente gasta, os LOT bem compuseram o Sabotage para uma noite de leveza que sem dúvida puxou mudanças.

Pedro Sachetti é o crooner de que se falava, enquanto José Evangelista e Rui Rodrigues são os arquitectos sonoros que o ajudaram a erguer estas músicas dos LOT da sua forma mais carnal e pianesca para o artesanato sónico de elevada produção que se foi ouvindo no Sabotage. Como uma banda de músicos devidamente experientes, os LOT soaram essencialmente a isso: um grupo aprimorado, dono do seu som que acaba por ser bastante extenso em escala. As músicas de Mother Board acabam por encontrar toda a sua essência na voz e trabalho de piano de Pedro Sachetti: gingonas baladas ora mais românticas ora mais fatais, projectadas sobre ambientais acordes de piano cheios de curva e ar entre eles. Esse ar é a zona onde as canções vão para crescer e se tornarem irresistíveis hinos pop de força maior. Armadilhados com uma guitarra textural e dois poderosos sintetizadores Moog, Evangelista e Rodrigues geram magia moderna à nossa frente à medida que esboçam ácidas linhas de teclado e controlam as frentes de pads e emaranhados de frequências que vêm ora mais subtis, ora mais poderosos, juntar-se ao minimalismo de Sachetti. O kick e o hi-hat sintéticos completam esta canção ao se tornarem os protagonistas percurssivos da maior parte das canções que embalam em ritmo lento dominado pela voz ecoante.

LOT @ Sabotage Club

LOT @ Sabotage Club

Embora certamente talentosos e sensíveis para os refrões orelhudos e as mudanças de tom gloriosas, há também um grande poder no experimentalismo que o grupo incorpora e que os leva um pouco para além do estilo um bocado mais concreto que representam. Perto dos fôlegos finais de uma canção, ou simplesmente quando se sentiam mais divertidos, os LOT foram chegando geralmente a lugares de abstracta natureza e poderosa intensidade, com o piano a deixar de ecoar numa sala para se transformar em poeira cósmica que já não vê Manhattan, mas sim Neptuno. Num síntese aquosa e luminosa, de tons azuis e fluorescentes, o trio lisboeta deixa-se ir muitas vezes à medida que a guitarra esboçava drones como chuvas de estrelas e os Moogs orquestravam texturas colossais, algumas de uma velocidade tão vertiginosa e mesclada que lembravam uma sopa de shoegaze. O sample de um discurso soltava-se de repente e aí sim, parecia mesmo uma transmissão lá da Terra. A exaltação acabaria sempre por acalmar em transições límpidas que foram vendo esta espécie de post pop a tomar rédeas outra vez: o piano regressa, mas agora está mais confiante, mais poderoso e mais saboroso.

O grupo foi assim cruzando as aventuras mais experimentais e ambientais com a pop electrónica que os cunha, sendo generosos para a plateia ao aquecê-la para dançar e cantar num leio equilibrado e bem humorado. A música dos LOT tem aquele sweet spot fresco e quente, não como uma praia, mas como aquela noite citadina, onde a música se infiltra e naturalmente vai fazer ondas nos corpos sem soar exigente nem funcional. É groove tanto para a anca como para o cérebro, algo bem vincando no seu mid tempo inspirado nas rotas mais brasileiras como europeias, e um que nos foi carregando nesta noite igualmente agradável no Sabotage. De ar concentrado durante e de sorrisos descomprometidos no fim, os três trabalhadores musicais ergueram uma noite com o mesmo ADN das amostras de Mother Board que apresentaram: um olhar dedicado e divertido sobre a música, sem grandes intelectos e filosofias mas um grande ouvido e um belo rigor à arte de fazer música popular que ressoa e bem trata o coração.

Aqui a galeria de fotos do concerto dos LOT no Sabotage Club pelo olhar do Carlos Mendes.