Olushola Ajose é (literalmente) Afrikan Boy, um MC nascido em Londres mas com raízes nigerianas que se encontra prestes a conquistar os fãs ávidos de rap e hip hop com alguma dose de grime – forma de dance music caracterizada por sons maquinais e vocais de hip-hop da qual Ajose, na senda do também britânico Skepta, é adepto devoto.

Depois do álbum The ABCD de 2014, Ajose tem centrado as suas atenções no segundo trabalho, em parceria com a PledgeMusic, uma espécie de mercado que aproxima artistas e públicos, dando prevalência à independência do intérprete, mas não deixando de parte a acessibilidade e o envolvimento dos fãs nos temas que são produzidos. Deste modo, Afrikan Boy permite a partilha de informação em todo o processo criativo e deixa que terceiros tenham uma participação activa na construção das suas faixas e na forma como as apresenta ao público. O álbum a ser lançado este ano pode, inclusivamente, ser encomendado através dessa plataforma.

“LITW” – que significa life in the west, frase recorrentemente proferida por Afrikan Boy, é o novo tema de Afrikan Boy e aquele que desvenda alguns dos segredos que nublavam o seu próximo trabalho a ser editado pela Yam Records. Este tema sente-se como paradigmático das suas influências, pousadas entre o continente africano e o europeu, e permite um afrobeat muito livre e sem complexos, começando por marcar, firmemente, a sua voz no grime – um género que tem sido desenvolvido desde o início do século -, mas sem omitir uma enorme frontalidade e honestidade de uma nudez ímpares. O tema conta ainda com as teclas de Adio West e a magnífica kora de Diabel Cissokho, especialmente marcante em toda a melodia.

A faixa, extremamente pessoal e instrospectiva, pousada em torno das vivências íntimas de Ajose e a génese das suas dúvidas e questões universais não deixa, todavia, de reconhecer uma sonoridade leve, fresca, doce, até. O contraste é observado quando a letra se sobrepõe à música e há a percepção de um sentimento de saudade e nostalgia perante a deslocação de Afrikan Boy e tudo o que representa a distância geográfica entre a Inglaterra e a Nigéria – ou todo o continente africano -, que, a bem ver, acaba sempre por não ser apenas espacial.

Afrikan Boy não quer, portanto, apagar ou camuflar as suas origens; deseja antes enobrecê-las e honrá-las como justificação primária da sua arte e razão de ser das suas composições. Na categoria de nativo e de estrangeiro, em simultâneo, é inevitável pensar nesta faixa enquanto encaixe perfeito para o contexto actual, que reconhece graves dilemas entre fronteiras nacionais e refugiados. Life in the west assenta na presença de Ajose no mundo, um mundo ora dividido ora pleno de diversidades. Assim, como se se tratasse de um contador de histórias, Afrikan Boy mostra-se sedento por paisagens e experiências novas, e canta a família, a fraternidade, o amor, a guerra, a paz e a vida, condensada numa letra muito densa e numa melodia tão suave que não parece ter peso, para afirmar com energia, que está pronto e tem palavras a dizer.

Afrikan Boy actuou ainda com M.I.A. em Glastonbury, tendo contribuído para “Hussel” do álbum Kala e conta ainda com uma performance em Calais, o campo de refugiados comummente denominado de ‘selva’, que tem feito correr rios de tinta na imprensa, quase sempre por razões infelizes. Ajose foi confirmado como um dos nomes do Meltdown Festival, em Londres no mês de Junho, com curadoria de M.I.A e estará em solo lusitano no Festival de Músicas do Mundo (FMM Sines), onde marcará presença já no final de Julho. O FMM localiza-o algures entre Fela Kuti e Tupac Shakur o que, sem dúvida alguma, é bastante próximo da verdade. O segundo disco deve chegar a tempo do Verão, de acordo com a campanha da PledgeMusic.

Fica ainda “Mr. Kunta Kinte” retirado do anterior The ABCD.