A arte tem destas coisas. Pelo menos tudo o que encaixa na vertente performativa. A imprevisibilidade e impermanência evanescente, condições fundamentalmente justificativas de uma apresentação ao vivo, não se limitam a ser o chamamento primitivo que magnetiza o potencial público, mas também o elemento de “perigo” que o enfeitiça numa espécie de atracção platónica que, infelizmente, nem sempre é totalmente correspondida.

Donos de uma discografia impressionante não só em número, mas também pela variedade, na qual deu entrada no ano passado a brilhante interpretação da banda sonora original de Twin Peaks (menção obrigatória neste contexto), os Xiu Xiu sempre foram fortemente influenciados pelo mundo cinematográfico – desde títulos de álbuns até ao próprio nome da banda), assim como pela cultura oriental. Este facto que torna perfeitamente compreensível a vontade de dar música ao filme Under the Blossoming Cherry Trees. Após o lançamento em 1975, a obra prima do realizador Shinoda Masahiro, baseada no romance de Ango Sakaguchi, tornou-se num objecto altamente influente, apesar da natureza caricata e invulgarmente grotesca do mesmo. No entanto, e por detrás de toda a “violência” visual, Sakura No Mori No Mankai No Shita (no japonês original) esconde uma bonita narrativa cuja pedra basilar é o poder quase inconscientemente persuasivo do amor.

Quase como alienígenas, os Xiu Xiu – Jamie Stewart hoje apenas acompanhado pela multi-instrumentista Shayna Dunkelman –, aterraram no palco da ZdB sob aplausos tímidos e imediatamente se dedicaram a cobrir os ouvidos presentes num manto de drones esquizofrénicos enquanto ainda se viam os créditos de abertura da película. Era promissor, mas desde cedo se percebeu algum desconforto na plateia. Parte da culpa pode ser atribuída à maleita das expectativas: da audiência que enchia a sala do Bairro Alto, boa parte não sabia bem para o que vinha – as várias conversas e comentários ouvidos antes denunciavam-no. Tudo bem, afinal é um filme, mas para apreciar a experiência completa seria necessário conseguir vê-lo.

Xiu Xiu @ Galeria Zé dos Bois

E assim chegamos à segunda questão problemática, quiçá o maior motivador de descontentamento. Para além da terceira ou quarta fila, as restrições físicas que num concerto “normal” são pouco relevantes (ver pés a carregar em pedais não é assim tão bom), aqui ganham contornos totalmente impeditivos – raro foi o momento em que se conseguiu vislumbrar mais que metade da tela. Íamos já a três quartos de filme quando ouvimos alguém menos abonado em altura a exclamar “ah, afinal isto tem legendas!”

Apesar de tudo isso – e reparem que aqui se trata de uma GRANDE concessão –, não se pode falar de falhanço total, até porque tal não aconteceu. Nos melhores momentos, e quase sempre coincidentes com os picos de tensão dramática do filme, os Xiu Xiu abriam uma nova dimensão no que pode ser a experiência filme-concerto, contrastando instrumentos tradicionais que iam surgindo ao longo da sessão com a electrónica abrasiva dos vários aparelhos tocados por Jamie. O resultado era por vezes até intrusivo, mas o carácter não essencial dos diálogos permite esse domínio expansivo da música sobre tudo o resto. Ainda bem que assim foi, caso contrário a experiência tinha sido bem mais pobre.

Por não ser um filme “para todos”, Under the Blossoming Cherry Trees partilha algum terreno comum com os Xiu Xiu – que não são propriamente a banda mais acessível da actualidade -, numa junção que tem tudo para ser bem-sucedida. A truncação do potencial tremendo deste espectáculo, seja por motivos técnicos ou de falha de comunicação entre a sala e a banda, apenas incrementa a mistura de sentimentos com que deixamos a Rua da Barroca. Num plano mais positivo, observamos que o alto valor artístico desta experiência não saiu prejudicado, no entanto, e certamente, ficará na memória de quem lá esteve, mais que não seja pela diferença. Bem executado seria alimento de histórias para os netos. Sem ressentimentos – fica para a próxima.