Numa noite de sexta-feira a antever um verão que definitivamente já se vê a ir embora apesar da tardia permanência, é como habitualmente que a Galeria Zé dos Bois começa a gerar um intrigante burburinho para sempre indicativo que algo se vai começar a passar dentro do afamado espaço. Por entre a azáfama do Bairro Alto, é de forma ordenada que a casa se vai enchendo e uma simpática multidão trespassa as altas portas de madeira para mais um serão de música e cultura. Desta feita, Alek Rein e Filipe Sambado vão unir forças numa ocasião que, ainda assim, se afigura de significativa importância para o primeiro. Mirror Lane, o seu primeiro longa-duração, vai ser apresentado ao vivo e assim se montou o programa que vê mais um passo no namorico artístico entre os dois músicos, para além da colaboração em estúdio que culminou na sua gravação.

Foi nesse jeito de cumplicidade que o experiente mutante pop, que lançou também em 2016 o disco de estreia conhecido como Vida Salgada, se propôs à missão de abrir para o amigo. E assim o fez num espectáculo de índole especial, a ver Sambado numa configuração com banda num registo ligeiramente diferente daquilo que se tem visto. Desta feita, não se viu munido dos seus Acompanhantes de Luxo, mas trouxe antes uma colorida troupe de amigos para compor uma original manta de retalhos humana e sonora alicerçada principalmente na importância da voz. Juntamente com a sua própria irmã, Manuel Lourenço (o sorridente Primeira Dama), percussões de Pedro Morrison e Jasmim (dos Mighty Sands) e a simpática Raquel, Filipe Sambado ergueu um divertido e exótico espectáculo que foi tão urgente de se ver como de se sentir.

As típicas unhas pintadas (desta vez de vermelho e com alto rigor) apenas fizeram vénia ao colar apertado e ao lábio azul a fazer pandã com as confortáveis collants e a sombra para o olhos num glamoroso Filipe, que como guitarrista e principal vocalista, recebeu apoio musical, sobretudo vocal, com quatro segundas vozes e um percursionista que hoje se apresentou com um groove muito africano a criar uma emergente, sensual e nebulosa textura sonora que elevou as suas composições desengonçadas e vividas. A arte de erguer uma banda quase exclusivamente com o poder das guelras assumiu-se como uma deliciosa proposta, com o rebuliço entre as vozes femininas e as masculinas a criar uma sensualidade e perversão que ajudaram a ilustrar ainda mais vivamente toda a libido inerente aos temas do músico. Entre gemidos e sons de orgasmo, bem como em linhas mais convencionais, o grupo encantou uma ZDB onde é sempre verão graças à quente e alaranjada iluminação que decora o palco, com uma hipnotizante pop distorcida a desafiar concepções de género e valores sob uma égide soalheira e caleidoscópica.

A banda soou absolutamente livre à medida que foram cantando o seu caminho por algumas canções que compõem Vida Salgada, bem como outras que já correm na estrada mas ainda não foram editadas. Esteja a rodar a garrafa ou a lançar redes ao mar, Filipe Sambado, tanto pela sua postura colorida como pelo seu output artístico, é uma presença magnetizante capaz de instaurar um clima quente e provocador. Passados 20 minutos de concerto e já Jasmim se despe para revelar o seu elegante body e Manuel Lourenço, a fazer duplo trabalho como hypeman munido de delay vocal e anjo coral, se vê em tronco nu, acrescentando à pop libertadora reminiscente aos 60’s de São Francisco uma vibe punk de Detroit com toda a pujança possível. Na plateia, os espectadores riem dos bitaites de palco e cantam as letras, umas soturnas, outras mais aguerridas, com o ocasional sorriso face às dicas que vão surgindo na forma de infecciosas linhas melódicas.

Absolutamente exótico, transfronteiriço e mestiço, o espectáculo de Filipe Sambado e estes igualmente luxuosos acompanhantes foi feito sob um clima de amizade, surgindo com uma aura espontânea que nem por um segundo se confundiu com a noção de “trabalho”. Mais que um espectáculo, foi uma brincadeira de amigos e colegas que foi um espectáculo de se ver e teve toda a urgência e a frescura que a música pop precisa para prevalecer. Serviu mais como uma especial prenda do que propriamente um aquecimento a música que este colorido grupo nos ofereceu durante este bocado. Soou dinâmica, molhada e por todo o lado, com cada riff, eco e coro a soar como um brilhante peixinho dentro do acolhedor Aquário. Assim se aprende como o bom humor, a ousadia e muitos sorrisos são igualmente poderosos valores de produção que nesta noite fizeram um dos mais originais espectáculos que se tem visto ultimamente. E são dos mais genuínos que se podem arranjar.

Terminada a festarola açucarada que aqueceu a primeira parte, Filipe Sambado e a restante troupe são ligeiros a trocar o palco pela linha da frente na plateia, onde se instalaram rapidamente para antecipar então o anfitrião de honra, amigo e companheiro de gravações, Alek Rein. O pseudónimo de Alexandre Rendeiro edita finalmente o seu primeiro longa-duração pela Galeria Zé dos Bois e toda a gente se vê em disposição de festejar com as místicas ondas sonoras que se espalham verdejantes e bucólicas da sua panóplia de guitarras. Entre seis e doze cordas, conjuntamente com um confiante baixo e uma potente bateria, Mirror Lane foi gravado por Filipe Sambado na Interpress e é com o selo da ZDB que se ergue ao vivo precisamente na sua casa mãe numa sexta-feira à noite de gloriosa psicadelia folk, tão sensível e ancestral, como jovem e aguerrida.

Rein apresentou-se bem disposto, exclamando imediatamente a satisfação genuína de ver a sala cheia com um sorriso cativante à medida que a sua banda se compunha nos seus postos que, entre a bateria de Luís Barros e o baixo de Alexandre Fernandes dos Sun Blossoms, encontrava nas suas fileiras mais um membro dos Mighty Sands, depois do próprio Sambado ter pedido ajuda a Jasmim e Pedro Morrison (a guitarra Teresa Castro). Seguia tudo a postos para cerca de uma hora de um show de rock confiante, exímio no tempero e fortíssimo quer nas malhas, quer no espectáculo. Mirror Lane é uma excelente peça de material gravado, certamente um ponto alto das edições discográficas neste ano e foi na companhia de uma excelente banda ao vivo que melhor se encontraram todas as suas propriedades. Para além da óbvia perícia técnica e de uma alma e textura que fazem do disco um grande conjunto de viajantes composições, há um forte cunho de autor que dá personalidade a estas canções e instaura uma identidade e e uma aura única ao folk de Alek Rein, capaz de produzir momentos genuinamente feel good como a brilhante (e já clássica) “Magic Fiddle”. A canção, na grande noite da sua apresentação, ecoou anasalada e festiva, com o seu carisma e inegavelmente confortante conteúdo lírico a revelar exemplarmente aquilo que há de especial no cantor/guitarrista.

Não é um banho de distorção nem tão pouco um tecelar sensível de divagações líricas: a música de Alek Rein carrega consigo uma unicidade e um estilo suficientemente vincados para fazer estas canções viverem sozinhas e criarem o seu próprio espectáculo e universo à medida que se vão desenrolando sob as habilidosas mãos deste quarteto. Rendeiro dá-lhe com força e tem uma atitude rockeira aguerrida que, certamente, confere um dinamismo voador à forma como desencanta os seus dedilhares e os seus riffs, mas há uma calma sublime e um omnipresente sorriso (que está lá, mesmo quando não se mostra nos lábios) que dão uma textura muito terrena e sóbria às suas canções. Estas não deslizam como água, mas movem-se, antes, como os ramos finos sob o efeito de uma breve rajada de vento no Verão. Há uma ambiência muito bucólica que não se faz só de contemplação e abre espaço quer para a imaginação, quer para uma certa adrenalina que colocam Mirror Lane a meio passo entre a vida real passada na pradaria e os mais aguerridos sonhos rock, cheios de cabelos despenteados e virtuosas técnicas de dedos.

Alek Rein

Aliada a toda a aura de cool guy de Alek Rein, uma bateria decididamente rock n’roll a dar tudo quanto tem para se certificar que as suas relaxadas composições recebem a musculatura que é preciso para instaurar uma viagem sónica que arranhe. Numa fortíssima prestação, Luís Barros carregou os temas para velocidades e ferocidades de poderoso nível, ao mesmo tempo que trabalhou com o baixo e as guitarras para juntos criarem uma unidade de rock a produzir uma das melhores doses de electricidade que por aqui temos visto nos últimos tempos. Para além da qualidade artesanal que se apresenta na sua música, a banda de Alek Rein, aqui ficou visto, é conjunto que toca rock a sério. Que o diga uma ZDB cheia e entusiasmada, já com muitas das orelhudas letras na mão para as devolver para o palco entre uivos de apoio e energético e bem ondulante headbanging ao som de música que carrega em si um peso natural de uma antiguidade histórica herdada e a releitura actual que a só a geração do agora consegue fazer.

Nesta nota, surge então um dos momentos mais cândidos e preciosos que ocorreu já no caminho que se fazia para o fim. Em jeito de intermissão como quem recupera algum fôlego antes do banho eléctrico em que consistiu o último quarto de hora do concerto (e onde Rein mais puxou pela distorção e uma vibe mais fuzz que trouxe entusiasmadas levas de mosh e crowdsurfing), a banda desceu do palco para deixar o seu líder sozinho sob o foco de luz, empunhando a sua fiel guitarra. Seguiu-se uma rendição da velhinha “Ligia” que em todo o seu encanto frágil e airoso constituiu um momento clássico de cantautor repleto com a névoa e e elegância que bela cantiga exigia e se fez acompanhar de um cândido silêncio atento por parte de quem assistia (que mesmo que a cantasse, cantava-a baixinho e de sussurro).

A banda volta, as luzes acendem todas e a prometida descarga final cai sobre nós para encerrar um concerto que se fez à medida daquilo que tinha de ser: uma noite especial, de cariz irrepetível e sobriamente cerimonial. Celebrou-se mais uma edição discográfica com um grande espectáculo e uma performance aprimorada a fazer jus a um ambiente de comunhão. Seguindo a sua plateia de perto, Alek Rein e a sua banda deram um concerto em perfeita harmonia com o espaço, fazendo-nos desejar estar em mais nenhum sítio sem ser aquele e incorporando o verdadeiro significado da missão que é tocar para pessoas num concerto que em toda a sua intimidade foi expansivo e vívido. No fim, uma invasão de palco tremenda viu os membros da troupe da Maternidade e da Spring Toast a pintar o caneco à medida que já se ficavam sem cordas para martelar e bombos para bater. As melhores noites têm sempre um “lugarzito no coração”, parafraseando o triunfante músico. Para nós, esta foi uma dessas.