Alt-J - This Is All Yours
90%Overall Score

De uma vez por todas, andar a exibir orgulhosamente o iPhone, o iPad ou o iPod aos amigos (deve haver mais disso no mundo que televisores) e depois chamar “A Banda do Triângulo” ou “Triângulo” aos Alt-J é desrespeitar a “nerdice” Macintosh dos próprios. Nunca os moços esperaram que os seus fãs fizessem downloads ilegais com extenção .rar ou .zip a partir de um PC. Não porque o acto de fazer um download ilegal seja condenável, já que é esse que leva cada vez mais gente a concertos e festivais, onde as bandas (e não as editoras) realmente ganham dinheiro. Mas porque o fazem de um PC. É que se o fizessem de um Macintosh, saberiam que premindo a tecla “Alt” e depois o “J” obtêm um DELTA (e não um “Triângulo”).

Agora que está feita a intro com o patrocínio da PC Guia (se a revista não for extinta entre o tempo em que este texto está a ser escrito e a sua publicação), podemos prosseguir. Com um aviso simples: nada, mas mesmo nada, poderia preparar ninguém para o advento que é o novo disco dos Alt-J. Nem mesmo os Alt-J, quando nos prometeram mundos e fundos com o An Awesome Wave. Daí ao aqui, foi uma agenda de concertos tão cheia (incluindo duas passagens por Portugal) que qualquer processo criativo com vista à produção de mais material ao mesmo nível criativo estaria, à partida, minado. A não ser que esta moçada seja realmente talentosa! Esta é a única conclusão que se pode tirar de This Is All Yours (Este É Todo Nosso, Hallelujah, Bovay, Alabama). Não vamos entrar pelo caminho “Álbum do Ano”, que seria subvalorizar Damon Albarn, Owen Pallett e mais um ou dois. Mas não há como contornar a genialidade quando Tudo Isto, que é All Yours, só tem um sentido. O único sentido que faz.

A “Intro” (longuíssima, para intro) levanta um pouco o véu. No sentido em que nos permite saber que este disco será, ainda mais que An Awesome Wave (essa Fantástica Onda formada pela Pedra no Charco que foram os Alt-J), feita de exploração da voz, esse primordial e incrível instrumento. Estes meninos são de coro. E é tão bom. Mas haverá mais, intuímos. Pelo que, a cada minuto desta introdução, é adicionado. Até à apoteose. Na sua essência, será mais ou menos assim esta viagem de 13 faixas. Uma viagem, um poema com muito mais que se lhe diga, como os poemas épicos gregos, lusos, mas adaptada à Odisseia dos dias de hoje. A temática é delicada, pelo que convém estar velada. Mas percebe-se, com alguma atenção. Por agora, chegamos a Nara, essa cidade do Japão, a Capital Imperial da Nação e conhecida por ter alguns milhares de veados à solta convivendo com os humanos. Sim, estão a chegar lá. Depois de “Arrival In Nara”, vem a terceira faixa, “Nara”, com o ouvinte mais atento confortavelmente instalado para as revelações que se seguem. “Follow, let him go, let him lead me be / Love is a pharaoh, and in front of me / I thought let him be where he want to be / Love is a pharaoh and he’s boning me”, pois. Em Nara, ninguém tem de esconder nada de ninguém e os Alt-J não estão para omitir emoções mais fortes. “I’ve discovered a man like no other man / I’ve found a love to love like no other can / He’s found me, my Aslan / Hallelujah, Bovay, Alabama / I’ll bury my hands deep / Into the mane of my lover”, ou seja, para quem não se recorda, Aslan, o leão (personagem principal, guardião e salvador) d’As Crónicas de Narnia de C. S. Lewis, é o detentor da juba onde alguém afundará as mãos. Sim, este é o tema que determina o disco. O Grand Finale é de cortar a respiração.

Mas há-que querer mais e tudo, “Every Other Freckle”, de sonoridade mais similar a An Awesome Wave, não sei se para matarmos saudades, se para percebemos que já passámos avante e queremos o aqui e agora. “Left Hand Free” é, convenhamos, o tema mais inóquo do disco. Compreende-se que seja necessário contextualizar o ouvinte de uma forma mais óbvia, ok, já sabemos que a mão esquerda do parceiro sexual do letrista tem a mão esquerda livre porque a direita segura a grande e admirável pistola, a tal “Colt single-action army”, tudo bem, mas este rockinho-de-bar-de-verão-com-música-ao-vivo está deslocado, muito longe do seu meio, é um despropósito que fica mal aos Alt-J. Felizmente, é pouco depois que chega “Garden Of England”, uma composição clássica de uma Inglaterra Perdida, pastoral, sem precisar do canto das aves que, no entanto, está lá, por trás das flautas. Um lembrete de onde estamos e para onde vamos, o interlúdio perfeito para chegar a “Choice Kingdom”, O Momento. Não é minimalismo. É um strip. Dispamos os Alt-J e fiquemos só com aquilo que eles são na sua génese: talentosos, mesmo quando não recorrem à electrónica e ao refinamento até ao ínfimo detalhe. As vozes, as vozes. Por volta dos 2m50s, caminhamos para a perfeição. E termina quando mais disto esperamos, cumprindo a velha tradição do “soube-me a pouco” que os The Smiths terão iniciado, na pop, com “Girlfriend In A Coma”.

“Hunger of The Pine” é conhecida de todos. Assim como o vídeo. Esperamos nós. Talvez ainda haja uma ou duas pessoas que não saibam que a voz que canta “I’m a female rebel” é da Miley Cyrus ou que no portento de vocalizações que se segue, “Warm Foothills”, cantam Conor Oberst, Sivu e Lianne La Havas. “The Gospel of John Hurt” é aquela pop rara, com mais elementos do que o habitual neste disco, como se fosse uma piscadela de olho: “Ainda aqui estamos, somos nós, os bons e velhos”, antes de chegarmos ao introspectivo “Pusher”, o 11º tema: “Se estás disposto a esperar pelo amor da tua vida, é favor ir para a bicha” e não, não aceitamos a piadola de português do Brasil, porque aqui uma bicha é o que sempre foi. Em “Bloodflood pt.II” (sim, o Tomo II do “Bloodflood” do primeiro disco), achamos que aquele piano do início seria o bastante, mas eis que os Alt-J se espraiam numa deliciosa amálgama de electrónicas e orquestrações apoteóticas, coros inqualificáveis, puro prazer e tudo, para dizer o que faltou em “Bloodflood”: “Eh pá se calhar somos os maiores, não?”. Sim. “Leaving Nara”, o derradeiro tema, é um adeus que não o permite. É urgente voltar ao início. Loop tem um novo significado com This Is All Yours. O único. Este disco não é dos Alt-J. É Todo Nosso. E o Mundo agradece.