As vestes fundiram-se com o negro da noite e a atmosfera acolheu-nos. O Amplifest não facilita e é contagiante desde o primeiro segundo. Dentro do Cave 45, casa-mãe do primeiro dia da chamada Extended Experience, o ambiente mantém-se. A tinta na parede ganha vida e o burburinho recorrente acerca dos seguintes dias é evidente. Escondido atrás de corpos famintos por amplificadores, o palco aguarda Aluk Todolo com uma grande lâmpada em frente da bateria que sugeria um concerto maioritariamente escuro como os relatos que ouvimos de quem viveu o mesmo festival há três anos.

À entrada dos Aluk Todolo, muitos são aqueles que levam as mãos aos ouvidos para colocar os famosos e justificados tampões. O Cave é uma sala pequena, o som é ressonante e, na música mais pesada, inevitavelmente alto. O krautrock dissonante num registo rasgado do post-metal faz as linhas com se cose a contagiante sonoridade do colectivo francês. O entusiasmo sentido pelo público viu o seu reflexo na atitude da banda, que chegou a apresentar um encore bastante longo. O concerto foi tão fluído que nos pareceu quase uma jam session sem uma palavra proferida e com muito poucas pausas incisivas.

@AmpliFest9

Seguia-se a primeira Listening Session do festival, desta vez para ouvir, em primeira mão, Requiem For Hell dos MONO. O final do concerto de Aluk Todolo levou a uma descompressão geral que causou o abandono e burburinho da grande maioria do público. Uma atitude compreensível, mas que comprometeu este evento tornando impossível perceber como era o aguardado disco. Teremos assim que esperar até Outubro.

No dia seguinte, teve início o Weekend Experience, o primeiro da época regular do Amplifest. O palco do Hard Club recebeu, entre outros, Anna Von Hausswolff, MONO, Minsk, Kowloon Walled City. A nossa jornada começa com Minsk, com 55 minutos de atraso, encarados de forma compreensiva por todos os festivaleiros que desde cedo mostraram uma personalidade e atitude diferentes do habitual. A banda apresentou o seu álbum de retorno The Crash and the Draw de 2015 e de registo evidentemente diferente, o concerto abriu o palco da sala principal. Com as expectativas que guardávamos deste concerto, a responsabilidade depositada foi maior. Os Minsk abriam as portas para o quarto da sua mansão do post-metal, partilhada com Isis ou Neurosis, com uma presença pouco dedicada, um concerto ameno mas extremamente competente, em que, como seria de esperar, se ouviram mais temas do álbum novo.

Passámos directamente, sem grande tempo para pensar, para a Amplitalk The Post-Men que se viu muito curta devido ao atraso. Todo o interesse em 5 ou 10 minutos de conversa que vimos. Debateu-se naquela mesa tudo o que é envolvente à música que gira em torno dos rótulos post-rock e metal. O que faz a música de alguém ser considerada “post” e qual a influência da tecnologia na sua produção e na composição. Falaram “Taka”, dos MONO, Scott Evans, de Kowloon Walled City e Chris Bennett, dos Minsk. Com opiniões distintas, todos chegam a um bonito e esperançoso acordo que se prende na ideia que haverá muito delay e muito espaço para evoluir. Referenciaram-se, frequentemente, Neurosis, e “Taka” chegou ainda a referenciar os The Rolling Stones e ZZ Top de forma comprovar a diversidade desta conversa.

Encontramo-nos mais tarde com Kowloon Walled City que andam em tour com Minsk e proferindo o seu sludge e post-hardcore barulhento, no dialecto da anárquica sobrepovoada vila asiática homónima. Com Grievances, os Kowloon Walled City rugem mais alto, de uma forma mais polida e que lhes deu direito à sua primeira vez com espectáculo assente na Europa. O concerto foi bem mais fervilhaste que o dos Minsk, ali mais cedo. Com uma execução técnica exímia, com crescendos de tenção fortes e com uma enorme força sónica, por esta altura o festival crescia, o ânimo era enorme e atmosfera sensorial cada vez mais imersiva. O ambiente que se respirava era único tanto nas salas, como no mainfloor, como no exterior do Hard Club.

Aguardávamos, em conformidade com muito do público que ali se encontrava, por Anna Von Hausswolff. A sala ia enchendo para assistir ao aguardado concerto da  música sueca. É com ela que o Hard Club vibra como nunca, numa estranha ilusão de plena levitação. Um concerto atmosférico, um ambiente intenso, uma música quase eclesiástica de culto a uma espécie de Deus do Ruído. A voz angelical de Anna é contrabalançada pela construção instrumental perfeita e densa. O volume alto ao ponto de o sentirmos em todo o corpo, fazia trespassar em nós as melodias vocais e a harmonia global. Indubitavelmente, um dos concertos do ano. Apenas de lamentar algum burburinho presente nos temas mais calmos, algo bastante mais notório pelo facto de a sala ser fechada. De resto, o concerto foi perfeito e o regresso já é esperado. A exploração experimental foi constante, tornando o concerto imprevisível até ao último momento e que teve em “Come Wander With Me/ Delieverance” o maior clímax do dia.

MONO é tudo aquilo que a banda não é. O stereo sente-se de forma redobrada, desdobrando o som em dois canais em milhares de frequências transdimensionais. Da nostalgia à esperança, da tensão à descompressão, houve lugar para o universo na música dos japoneses, com a sua setlist completa, com lugar a “Requiem For Hell”, música integrante no álbum que chegará no final deste ano. O concerto teve uma paleta emocional vasta, conferida pelo registo destinto do post-rock dos MONO que conhecemos desde 1999. As guitarras de “Taka” e Yoda funcionam em perfeito equilíbrio e, talvez motivadas pelo ambiente geral do festival, arranhavam boas secções noise de maneira mais frequente do que costumamos ver. Numa performance completamente pura e genuína, onde houve lugar para uns “pregos” que só mostram a prioridade sentimental sobre a parte técnica do grupo, os MONO levaram literalmente às lágrimas inúmeros fãs da banda japonesa.

É raro ver cartazes como este onde os nomes são escolhidos a dedo pela mão da organização. E são estes os cartazes que fazem festivais para quem gosta de música, de toda a música. Vivemos o fascínio de musicólogos clássicos e de “metaleiros” assumidos debaixo do tecto de um edifício histórico. O Amplifest é lindo para se ver e viver. Predomina o civismo, a melomania, o investimento cultural e deixa-se de parte a sede do lucro abusivo, o investimento em música em detrimento de um grande sucesso financeiro. O Amplifest é dos únicos festivais nacionais, feito por quem gosta de música para quem gosta dela.