Andrea Schroeder - Where The Wild Oceans End
90%Overall Score

Berlim 1987. Wim Wenders e o anjo Damiel passeiam-se pelas ruas de uma cidade embriagada pela guerra. Humanidades insondáveis aos olhos dos seres sensitivos. O gelo e a devastação nas paredes e ruas da cidade espelham-se nas peles dos berlinenses que se passeiam, tão gelados e devastados como as ruas e as paredes da sua cidade, aos olhos de um anjo do alto da Siegesäule. A abnegação da forma etérea superior para sentir a pele e o sentimento humano pode ser uma entidade híbrida de dor e prazer. Quem corre o risco de deixar de ser um anjo para ser mais um berlinense no mundo?

Andrea Schroeder deve ter habitado em tempos, as esferas divinas. Se seria anjo ou demónio é difícil saber, mas percebemos que um dia se sentou à mesa a beber com Marlene Dietrich e Nico num cabaret da capital que a viu nascer. No palco deveria estar Carla Togerson e os The Walkabouts a derrubar Jack Daniels enquanto tocavam “Men From Reno” de Scott Walker. Ao canto, num sofá em tempos vermelho, agora negro e queimado dos cigarros de Lou Reed, está sentado David Bowie a debater Bukowski com Stuart Staples. Andrea nunca mais voltou às esferas divinas.

Where The Wild Oceans End é, com certeza, um dos mais intensos discos do início do ano de 2014. Um oceano de miséria, em ponto nenhum luminosa. Aqui não entra luz por qualquer espécie de buraco no caixão de “Dead Man’s Eyes”. Morreu sem ar, mas não pára de nos fixar um fantasma asfixiado pelo frio. Um dos “Ghosts Of Berlin” que caminham sem som pela ruas da cidade. “Until The End” é uma noite de neve, a mais solitária noite de neve de sempre, mas é também uma declaração de amor eterno que se sabe que não dura nem uma vida, quanto mais uma eternidade. Mas não faz mal, porque todos somos heróis, cada um de nós, e Andrea canta David Bowie em alemão e “Heroes” ganha quase uma nova essência, como se o clássico de Bowie sempre tivesse feito parte do cancioneiro alemão.

A resposta à pergunta das origens divinas de Andrea chega em formato canção chamada “Fireland”. Nasceu cá em baixo e apaixonou-se por um anjo caído de asas quebradas e incapaz de voltar aos céus. Perderam-se ambos num beco sujo de sexo e drogas e na guitarra de “The Spider”. Berlim, Nova Iorque, Lisboa e uma linha de guitarra que te arranca o coração de uma forma viciosa e dorida. Directa para a lista das guitarras mais angustiantes de sempre!

Onde acaba o oceano e começa um sítio mágico com baloiços nas árvores? O tema que dá nome ao disco podia ser Nick Cave e as cordas de Blixa, tal como “The Rattlesnakes” podiam ser os Bad Seeds num viagem xamânica pelos desertos da experimentação dos 16 Horsepower. Viagem que termina depois no tal baloiço mágico num final de tarde onde já começa a escurecer mais cedo. “Summer Came To Say Godbye” são 4 minutos de quase luz. Não fosse a voz de Andrea e um violoncelo atroz, e alguma luz poderia ter entrado neste disco. Sol de pouca dura e o disco acaba com “Walk Into The Silence”. “And then we walk into the silence, into the streets without a home”.

Berlim sem luz, sem lar e sem esperança. Mas vou sentar-me ali em Potsdamer Platz a ler Kafka e esperar que a voz de Andrea Schroeder faça a neve parar… em repeat até a neve parar.