Setembro 8, sede da Trienal de Arquitectura de Lisboa (organização: Zé dos Bois)

Angel Olsen, jovem cantautora norte-americana, veio a Lisboa referenciada como versão feminina de Hank Williams, mas também de Lou Reed, entre outros atributos, como fazer lembrar a voz de Patsy Cline, num modo contemporâneo e mais dramático. Tudo motivos que aumentaram o interesse por sua primeira vinda ao nosso país, em nome próprio – e com banda, que actuou também em Guimarães. E com boa música, muita simpatia e algumas piadas, a menina do Missouri encantou!

Um imenso talento raro

Era um momento que tinha muito para ser memorável: Angel Olsen possui uma das vozes mais emocionantes da pop actual; a lotação foi esgotada muito antes do concerto, por um público ansiosamente desejoso de ver Angel desde o primeiro álbum dela; e o recinto escolhido – um arborizado pátio interior – combina com a ruralidade da música (alt-)country de Olsen, a qual justificou que os assentos tenham sido as próprias pedras da calçada.

“Free”, do primeiro álbum Half Way Home, foi a canção que abriu o concerto, para o público sentado no chão; um poema angustiado pela distância, musicado numa ligeira melodia rock, típica de bailes de finalistas dos filmes de Hollywood, que permitiu apreciar o invulgar ataque de Angel às notas, por vezes gutural, e a coesão da competente banda que a acompanha. Permitiu também confirmar que tudo estava pronto para o primeiro pico musical do espectáculo, a enérgica “Hi-Five”, outra cantiga de baile (em estilo country), que é a canção mais tocada nas rádios e logicamente foi cantada também por grande parte da plateia, tendo o crescendo final com o histérico “I’m stuck with you!” fundido o entusiasmado público e a cantora, para o resto da noite.

O início da actuação foi completado com a muito retro “Drunk And With Dreams” (cuja introdução parece o “Barco Negro” de Amália), uma das melhores criações vocais de Olsen, que numa só canção alternou a abnegação (“I’ll be the one, I do not mind”) e o desespero (“I’m made of fire”) e a tristeza (“I’ll never see his face”), evidenciando que é uma das intérpretes mais excepcionais desta década. Após ter cantado, Angel iniciou o sempre alegre diálogo com a plateia, com uma alusão à Feira da Ladra e um espirituoso pedido para que lhe devolvessem o smartphone roubado, e apresentou a banda com guitarra, bateria e baixo que a tem acompanhado.

Se vives para o autocarro, corre para o autocarro!

O segundo acto do espectáculo incluiu a amargurada “Tiniest Seed”, cantada num modo soturno e resignado, mas ao mesmo tempo saudoso e com desejo (“I wish you were here with me, but you’re too far away, standing beside me now with nothing to say”), tendo prosseguido com “Stars”, cujo excelente poema, sobre a avalanche de pensamentos numa frustrante briga de casal (“And just before I turn to leave, I think I could use the thoughts you’ve given me”), podia ser de Stevie Nicks e com uma melodia pop que destacou muito o açúcar sonoro na voz de Olsen.

Foi após “Stars” que Angel ofereceu a lição existencial da noite. Afirmando surpresa porque o público parecia tão satisfeito e quieto – situação que ela empaticamente atribuiu aos “rabos dormentes por estarem sentados na calçada” -, elogiou não haver pessoas exigindo que ela acelerasse o espectáculo, para não perderem autocarros para casa, e então gritou jocosamente: se vives para o autocarro, corre para o autocarro!

Também existencial é “Lights Out”, a canção que se seguiu e que, além de ter um excelente poema, revela a sensata maturidade de uma quase maternal Olsen – (“The things we need the most, they seem to take a little longer) -, maturidade também artística, ao longo de uma música pontuada pela slide guitar country e pautada pelos compassos blues-rock, recordando a consagrada Bonnie Raith.  A primeira parte do concerto foi concluída com a longa “Acrobat”, belíssima, confessional, deixando apreciar Angel murmurando seu autodesprendimento para um ausente ‘objecto’ humano da afeição dela, sobre a melodia arrastada, de um daydreaming ingénuo como adolescentes.

O rock na country de Angel

A meio do espectáculo, a plateia foi brindada com um pedido para se levantar e aproximar do palco – justificado com – “Os vossos rabos já devem estar mortos!” -, que antecedeu o período musicalmente mais homogéneo do concerto. E com o público finalmente em pé, o rock foi instalado no palco, ao longo da assertiva e musicalmente grungy sequência da ansiosa “High & Wild”, que liricamente culmina no desabafo “I’m neither innocent or wise when you look me in the eyes”, e da desesperadamente apaixonada “Forgiven/Forgotten”, cuja interpretação visceral arrebatou a audiência, para satisfação de Angel, que exclamou um trocista “Agora já estão acordados, como os vossos rabos!”

Após a interpretação de uma nova canção, amarga como as anteriores, que Olsen apresentou só como tendo o seu sexy solo de porcaria, “Sweet Dreams” (ironicamente classificada como lullaby) encerrou a sequência de guitarradas roufenhas, permitindo apreciar o seguro vibrato da voz acentuando a emocionada resignação da letra, expressada no final com (“The time will come for everyone to go and say goodbye). Introduzida por mais uma graçola de Angel, que o público tão junto a ela a põe nervosa, porque ela é uma pessoa muito particular, “Tougher Than The Rest” de Bruce Springsteen foi coberta com uma ternura literalmente feminina e, apesar da juventude da cantora, versos como I’ve been around a time or two não soaram falsamente precoces, por ela transmitir a empatia que faz os melhores intérpretes.

A solitária catarse

Foi sozinha no palco que Angel iniciou a parte final do concerto, com mais uma piada, sobre ser só ela e o público e então poderem-se acariciar mais. Emotiva, balbuciou todos os “if only” da onírica “Iota”, com uma candura que tornou aquele instante magnífico, transcendente, como se “Time would turn our bodies inside out” – e também porque Olsen, a solo com a guitarra, pareceu alterar o estilo vocal, para um retro digno de Brenda Lee e Patsy Cline, revelando uma alma cidadã do tempo. Anunciada como a última canção, a sorumbática “White Fire” conduziu a plateia para uma quinta dimensão espiritual, desde o inicial “Everything is tragic”, tendo instalado o silêncio diante do palco, que respeitou a disposição quase lúgubre da canção, cuja letra parece o velório a um relacionamento; a meio, a banda reentrou no palco e o corpo do alinhamento foi encerrado por aquele instrumental soando como uma marcha fúnebre rock.

O muito aplaudido regresso para o encore foi iniciado com um “Souberam da Über?”, aludindo à atribulada manifestação dos taxistas contra aquela empresa, num tom bairrista como se Angel residisse em Lisboa há muitos anos. E o epílogo do concerto foi “Miranda”, uma tranquilamente desencantada balada de separação, envolta numa réptil melodia country, interpretada a preceito, com a voz de uma decepcionada mulher, traída pelo companheiro, que concluiu que “My friend, it’s hard to see you, it’s easier to leave you alone. There was a time when I needed you more.”

Uma nota final para a recepção de Angel ao público, após o concerto. Porque a acolhedora expressão da artista, que descontraidamente se deixava abraçar, fez recordar a alegada opinião da mãe dela, que afirma que a filha é a pessoa mais inconsolável que ela já conheceu – uma modesta jovem genuinamente deslumbrada, por receber dos seus fans o crescente reconhecimento que também os críticos têm prestado. O momento tinha muito para ser memorável. E foi mesmo um momento memorável, de tão bom.