O Musicbox está de parabéns pela sua primeira década e, para declarar essa efeméride incrível, tem organizado muitas festas de aniversário para todos nós sem sequer pedir prenda de volta. Neste sentido, com os X Anos Musicbox a decorrer, a sala de concertos tem recebido vários nomes musicais, sempre na linha ecléctica a que nos habituaram. Na sexta-feira, 16 de Setembro, não encontrámos excepção ao tratamento de excelência de um dos clubes mais emblemáticos da capital. Através dos concertos de Cachupa Psicadélica e de Dillon a preencher um serão que se tornou imediatamente mais belo, o Musicbox merece um sofá inteiro no nosso coração.

Para abrir bem a noite, sendo que sentíamos já o clima de festa, Cachupa Psicadélica aparece-nos à frente com o seu espírito descontraído e positivo, de chapéu azul, sorriso na cara e carregado de palavras amigas. O concerto seria a solo mas com a guitarra é difícil assumir que ele esteja, de facto, sozinho. Num dueto em que dificilmente se percebia quem dizia o quê tão unidos que ambos estavam, as melodias ressoavam em nós e aí permaneciam como o sal do mar quando se cola à pele. O estilo musical de Lula e dos Cachupa é bastante ímpar, embora possamos estabelecer, ao de leve, um paralelo com os Dead Combo. Se por um lado faz uso dos pedais de forma mágica, é também com as suas técnicas à guitarra que nos faz levitar. A voz, quente e de traço rouco nascida no Mindelo, busca influências às linhas do rock e, oscilando entre a personalidade de um marinheiro ou de um pirata, com Cachupa Psicadélica ninguém fica indiferente, sobretudo quando Lula nos arrebatava com notas que pareciam saídas de um Tarantino.

Começou por dizer-nos, conforme se instalava no palco, que o espectáculo era para a menina mais bonita que estava na plateia. Pediu-nos para tirarmos os telemóveis e, com eles, fazermos pirilampos. Assim, com as luzes do Musicbox apagadas, apenas teríamos a iluminação dos ecrãs. O cenário estava montado, ainda que com alguns desobedientes na plateia (não nos podemos esquecer que o Musicbox também é um clube nocturno). No fim de 2015 foi lançado Último Caboverdiano Triste, obra maravilhosa que ganhou todas as asas possíveis no Musicbox. Nessa dança alucinada entre o psicadélico e o cancioneiro de Cabo-Verde, Luís Eugénio Gomes, aka Lula juntamente com a banda, encontra agora bases em Portugal. Ele prometeu e cumpriu sempre uma performance artística que nos chegava visivelmente do âmago e foi aí, bem no nosso interior, que mais nos afectou.

Tal como a cachupa, compreendemos que nada é adverso à mistura. Homenagens de crioulo, de português, de letras que transcendem as línguas, que se assomam ao continente africano em todas as direcções com pegadas no planeta inteiro…pudemos encontrar um atlas nessa actuação e o mesmo sucede com as faixas em versão estúdio. Lula, como um querubim rebelde, viajava do agudo para o grave, cheio de soul e com pulmões lindos de morrer, preparando-nos uma cachupa diferente de todas as outras. Com a sua profundidade, em ecos que se agilizavam pelos sabores doces, afirmou e confirmou que, nessa noite, só nos traria felicidade. E foi o que todos receberam.

O álbum, com oito admiráveis faixas, sucede a Águas Mornas de 2014, e dizem que contém música para fazer fotossíntese. Assim sendo… resta-nos cumprir. Destaque imediato para “Eden Park”, “¾ de Bô”, “Amor d’1 Laranjeira” e as “Alternativa Imaginário Caboverdiano” 1 e 2. A alma encheu-nos com toda a força e ficámos com fome de mais como acontece com tudo quanto é bom. Com actuações no Vodafone Mexefest e no NOS Em D’Bandada, só esperamos que esta cachupa venha a actuar muito mais, seja onde for. Nós também esperamos poder provar um bocadinho e matar a fome.

Dillon seria responsável pela segunda actuação da noite, e que bem que nos serviu a sobremesa, a ceia e o digestivo. Estreando-se em absoluto em solo lisboeta, Dillon não nos apresentou um espectáculo low cost, muito pelo contrário. Com o seu órgão, um segundo músico – enorme responsável pelos arranjos mais electrónicos das suas composições -, e o microfone, seu fiel amigo, o serão arrepiou até o tutano.

Dominique Dillon de Byington nasceu no Brasil mas foi em criança para a Alemanha, escolhendo Berlim como a sua cidade quer para viver, quer para criar música. Com o álbum This Silence Kills, lançado em 2011, conheceu a rampa de lançamento para os aplausos da crítica. Seguiu-se The Unknown em 2014, tendo igualmente recebido palavras positivas. Actualmente, Dillon aproveita as suas melodias e letras já existentes, revigora-as, dá-lhes novos arranjos ou opta por criar covers de artistas que segue sem jamais desiludir os ouvintes. Algumas músicas não editadas conhecem também a luz do dia em actuações ao vivo, engrandecendo-se de imediato com a sua inexplicável técnica instrumental com o sintetizador.

Dillon abriu o show no Musicbox com a “Matter Of Time” numa entrada em grande, prometendo uma performance musical bela e ousada, mas sendo destemida na parte visual, também. Mãos, braços, gestos lindos de se acompanhar de perto em que, a cada segundo, mexia no cabelo de forma frenética: Dillon assemelhava-se a uma estátua de ferro que, de repente e sem aviso, ganhava vida. Pudemos reparar que todos aqueles que, até ao momento não a conheciam, passaram adorá-la. É um dos factores mais incríveis e geralmente apenas são oferecidos por actuações ao vivo.

A característica mais gritante de Dillon é, possivelmente, a sua voz. Emblema máximo de um traço único, assume alguns tecidos de Lykke Li, Fever Ray ou CocoRosie, por exemplo. As suas sonoridades tangem na caixa torácica, embatem em todos os nossos ossos e fazem-nos vibrar. É melhor que nos deixemos ir… Outro momento soberbo disse respeito a “Thirteen Thirtyfive”. É, sem dúvida, a música mais conhecida de Dillon, pelo menos foi o que se confirmou no Musicbox, em que todos cantavam a letra praticamente sem enganos: “You’d be thirteen, I’d be thirty-five, Gone to find a place for us to hide, Be together, but alone, As the need for it has grown”. O curioso é que a letra, de teor algo triste que nos fala de uma perda, assumiu-se como um hino romântico, seguramente feliz, na audiência. Esta ironia não pareceu abalar a actuação de Dillon que, impenetrável mas humilde – imaginem este contraste –, não deixava que nada a fizesse vacilar.

Destaque total ainda para uma música cantada a cappella dedicada ao dj que a acompanhava. Nesse instante, a artista pediu a ajuda do público para entoar o refrão de “Tip Tapping”: “Tip tapping, I was tip tapping, In the dark, Tip tapping”, enquanto tentava que a multidão chegasse a um consenso afinado. Um momento muito bonito e a certeza de que, houvesse mais tempo, e o público haveria de acertar bem no tom. Não foi fácil. Houve sempre tempo, dada a proximidade que o Musicbox permite, para algumas selfies e vídeos com membros do público, constantemente inseridos na própria performance e, de facto, Dillon jamais desafinou ou perdeu o equilíbrio. Em termos de apresentação e escolha estética, é inevitável não pensarmos em Björk ou Iamamiwhoami. A bem ver, a sua herança musical e as pisadas que segue, apoiam-se bastante na linha escandinava, em tons que são expressos na criatividade da Europa nórdica, sobretudo a que se prende com a electrónica.

Como um réptil raro, trajada toda de negro, num vestido meio futurista que lhe tombava até o chão, foi também com “Lightning Sparked” e “Nowhere” que a metamorfose entre luz e trevas se tornou bastante perceptível. Com as batidas do músico que a ladeava e os flashes de luzes dos holofotes que, com toda a insanidade, eram lançados para o palco e para o público, parecia que a sala do Musicbox entrava num transe mirabolante. Dillon prepara-se então para apresentar uma terceira obra que expresse a combinação dos seus dois álbuns lançados, embora num formato de assinatura musical com alcance mais alargado: o álbum, ao vivo, foi gravado directamente na sua actuação no festival Haus der Berliner Festspiele, ocorrido no último verão na capital alemã. O mais incrível é que, para além da sua marcante voz, Dillon fez-se acompanhar de um coro lírico. Para todos os efeitos, e para a artista, os dois álbuns existiam como um só, e esta forma mais ‘clássica’ de os unir só seria possível através de uma performance desta envergadura, com mais músicos, com mais membros a assistir na plateia. É esperado que tudo isto esteja prestes a ser lançado este mês ainda. A ver vamos.

Dillon despediu-se sem palavras, mas visivelmente emocionada. Saiu e, segundos mais tarde, voltou a entrar. Chegou de novo para nos tocar uma versão sua de “Wicked Games”, de The Weeknd. E que estrondo foi. O que fazer a seguir a isto? O que ouvir a seguir a isto? Tendo essa dúvida, a maioria das pessoas presentes no Musicbox dirigiu-se logo para o bar.