É com o seu tom supra cerimonial e um rigor intenso que se alarga até à densidade e detalhe das suas composições que Anna von Hausswolff vive na sua música, casando constantemente o poderio cristalino e quase sagrado da sua arte com uma alma de peso e agressividade de proporções quase operáticas. A cantora e multi-instrumentista sueca, filha do artista sonoro Carl Michael von Hausswolff e irmã da artista audiovisual Maria von Hausswolff, remete-se verdadeiramente para um corpo multidisciplinar de arte musical, algo que a coloca num segundo a integrar o elenco de A Midsummer’s Dream por Alexander Ekman, juntamente com o Royal Swedish Ballet e noutro a embarcar numa tour em suporte dos Swans.

Na verdade, tal como a mítica troupe de Michael Gira dos Swans, também Anna von Hausswolff se ocupa em nos fazer ver como é que, na verdade, as sonoridades mais orquestrais e de índole cerimonial se sabem encontrar tão bem com as linguagens da música extrema. No seu caso, evidente pela chama que arde em torno de todo o The Miraculous, aclamado debut, o peso e a ferocidade da sua música alicerçam-se fortemente na mitologia e tradição da sua terra natal, cuja História e longevidade instauram uma aura de respeito tão eficaz no ouvido como na própria imaginação. As histórias contadas quer pelo ancestral órgão acústico de Piteå – com mais de 9000 tubos -, quer pelos mais modernos drones e passagens doom que se casam idealmente com este registo, trazem-nos visões de sonhos, de fissuras na Terra e do fogo que corre por debaixo dela ao som de uma palete densa e progressiva que adapta os ouvidos às suas próprias concepções de tempo.

Ainda assim, todo este peso não tira a evidência nem por um segundo do portento que é a voz de von Hausswolff que carrega tanta ou mais pujança de todo este aparato que comanda, sem dúvida, esta autêntica derrocada sonora quer através da sua entrega vital e ritualesca, quer através do seu silêncio quando nos coloca a escutar à porta, à espera da próxima aparição. “Come Wander With Me” é precisamente isso: uma lenta e destrutiva força da natureza que vem descendo colina abaixo no meio da floresta sueca onde a sua irmã filmou o vídeo para a composição que originalmente actuava como uma versão da homónima canção da série The Twilight Zone e que, ao vivo, acabou por despontar uma truncação com “Deliverence”, uma nova canção que nasceu a partir da anterior.

Assim, acompanhando as pulsantes ondas de orgão e as vertiginosas quedas de martelo que pautam as cinemáticas transições de uma já tão visual entrega em “Come Wander With Me/Deliverance”, surge um críptico conto bucólico onde os elementos da natureza e a violência que pontualmente lhes está associada se relacionam com o íntimo humano e a sua relação com a solidão – como aponta Maria von Hausswolff -, falando do trabalho de 11 minutos. Entretanto, o universo de Anna é uma vastidão de paisagem para percorrer ao longo do trabalhado e extenso The Miraculous, onde a expansão é infinita e a viagem rebenta em mil partículas provenientes da explosão de força bruta e concreta que é a sua música, permanentemente ecoante pelas vibrações aéreas. Som e imagem, terra e psique já não são dualidades, mas sim uma amálgama endeusada nas mãos de von Hausswolff.