Onde se define a linha que separa os conceitos de concerto, de espectáculo conceptual ou de instalação artística só nos corredores mais ou menos vastos da alma de cada um se pode definir. Na de ANOHNI parecem esses corredores serem horizontes abertos e muito pouco definidos. Para o melhor e para o mais estranho. Estamos presentes a um momento claramente de rotura – ainda que a espaços pouco assumida e de análise e contemplação do que foi, é e poderá vir a ser – com um passado pesado e, sem sombra de dúvida, demasiado grandioso para ser ignorado por apenas uma mudança de direcção artística, mudança de nome, de sexo, por uma assumpção de uma nova identidade artística e humana. Que Hegarty é e sempre foi ela mesmo uma obra de arte em si é uma afirmação que se presume aceite pela grande maioria dos seus seguidores. Também será correcto ponderar que a génese do seu talento não reside na sua sexualidade – embora claramente seja um tema basilar – anteriormente ambígua e indefinida e muito menos que a muito recente mudança definitiva de sexo possa ter raízes assim tão profundas na forma como ANOHNI se apresenta ou apresenta os frutos da sua criatividade. Hopelessness é o fruto desta rotura. Hopelessness é o fruto do jardim interior de ANOHNI… e esse queremos manter numa idílica visão que será o mesmo seja qual for o seu género. O que te define são os caminhos floridos desse jardim e não as bombas destruidoras que caiem em tua volta no mundo exterior – embora claramente sejam a grande fonte de inspiração de grande parte das obras de arte. A tua pele é apenas um mundo exterior. TU resides em ti.

Saberes montar um exército pode ser meio caminho andado para venceres uma guerra e, claramente, ao recrutar Dan Lopatin aka Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke, ANOHNI venceu a guerra. Dois dos melhores pintores electrónicos que o mundo tem o privilégio de contemplar na actualidade aliam-se para auxiliar a inglesa a adornar a tela das suas palavras e visões. A estratégia já não é nova. A rainha da pop já o fez ao caçar Matmos ou William Orbit para escreverem com ela. Diva a Diva, a fórmula repete-se e o sucesso também. Hopelessness em disco é a perfeição estéctica e sonora. A evolução de ANOHNI para a electrónica mais complexa deixando para traz as abordagens barrocas e de cabaret das suas emoções é substituída por um activismo politico, pela guerrilha ecológica de beats e noise e melodias em punho. ANOHNI sai de si para o Mundo e para o Planeta de forma brilhante.  Aos palcos portugueses chegou apenas Oneohtrix Point Never, Mohawke é substituído em palco por Christopher Elms, senhor que conta com nomes como os The Irrepressibles ou Bjork no CV. Mais material de luxo de acesso restrito a muito poucos.

Mas a noite…. A noite aqui é o que interessa. E a noite do Coliseu de Lisboa começa lenta. Iluminada, com uma sala cercada de bancadas vazias. O vazio intimidativo estava cheio. O vazio que parecia devastador afinal estava cheio. Cheio de rostos e de almas perdidas invisíveis ao olho humano, apenas perceptíveis pela voz de ANOHNI. As vitimas que caíram tombadas por todo e qualquer ataque do Homem ao que o rodeia. Sejam mulheres ou mares. Sejam mares ou transsexuais. Sejam homens ou crianças ou florestas tropicais no Brasil ou aldeias de terra no Médio Oriente. Uma vitima é uma vitima seja qual for a cor, o sexo, a língua ou a puta da arma que foi usada para aniquilar. E aqui ANOHNI presta a homenagem mais que sentida. Ele é todos eles, ele é um mar, ele é uma arma, ele é um ecossistema, uma aldeia índia.

Mas a noite…. A noite aqui é o que interessa. E a noite do Coliseu começou incómoda. Sabia-se que o esperado seria o inesperado. Cerca de vinte minutos de um pulsar noise digno de um Merzbow mais melódico em pleno crescendo de som em antítese ao gradual eliminar da luz  parecia querer alinhar as mentes para receber uma mensagem. Naomi Campbell, demónio negro vestido de Liberdade estatuesca, dança durante todo esse tempo. O simbolismo de uma América que te tenta, que te manipula a seu belo prazer com prazer fútil, vazio e esvaziante. O mesmo vazio que mais tarde nos devolve Naomi em lágrimas em “Drone Bomb Me”. As luzes apagadas, o som que se esvai no escuro e a voz imensa de ANOHNI chega de lado nenhum. Incorpórea paira por todo o lado. Lopatin e Elms são dois sacerdotes de negro de instrumentos de exorcismo digitais na ponta dos dedos. Um rosto de mulher pintado, borrado, estranho e incómodo projectado na imensa tela que ocupa todo o fundo de palco provam logo à partida que algo se prepara para acontecer de desviante. “Hopelessness” é a música que abre a noite que começou lenta e hipnótica.

Mas a noite… a noite recebe ANOHNI devagar. Para “4 Degrees” a nova diva digressiva entra devagar. Uma silhueta ao longe recortada na tela. Uma efígie semioculta de rosto coberto de negro e um hábito longo branco. ANOHNI é uma estátua de granito roubada aos cemitérios europeus. Os nexos começam a desvanecer. Uma emissária da vida transvestida de simbologia da morte ou uma alma que ainda não definiu qual o seu verdadeiro rosto? Ao fundo, na tela para o mundo um mundo de mulheres, apenas faces todas elas captadas por ANOHNI, retratos de emoções, convulsões, comiserações e revoluções. Uma maioria de mulheres negras ultrapassa as restante etnias mas mulheres caucasianas, índias e orientais todas elas nos perfuraram a íris de emoções intensas. Entre tantas outras mensagens pode isto ser uma aproximação da cantora ao seu lado mais negro, mais soul!? Só ela o pode afirmar. Fica o segundo enigma da noite.

A noite… a noite segue maquinalmente sensível. Mulher a mulher, emoção a emoção, canção a canção. ANOHNI assume o seu papel e pouco se movimenta. Umas investidas à boca de palco, umas ameaças de dança expressa nos braços e mão. ANOHNI é uma emissária sem palavras faladas. Nem uma palavra a noite toda. A música e a mensagem e os rostos e a falta deles. Hopelessness não precisa de conversar mas a esperança é muda e de voz divina. Mudam-se os nomes, a voz permanece inalterada.

O alinhamento do concerto segue quase à letra o alinhamento do disco. Apenas “Hopelessness” e “Drone Bomb Me” saem da sua ordem primária. Pelo meio alguns inéditos. Se músicas que ANOHNI deixou de fora do disco ou se trabalhos posteriores também permanece a questão por responder. “Paradise”, “Ricochet”, “Jesus Will Kill You”, “In My Dreams” e “Indian Girls”, um dos momentos maiores. As batidas dos índios norte-americanos, a cadencia xamanica, um trance imponente e macabro. As palavras “I cut the throat of an Indian Girl” deixam pouco espaço à imaginação. Tivesse sido colado à sequência de “I Don’t Love You Anymore”, “Obama” e “Violent Men” e a perfeição era isto quase remetendo todo o restante da noite – passe o exagero – para segundo plano.

As questões que se levantam com o cair do pano e depois da projecção de um discurso da artista plástica aborígene Ngalangka Nola Taylor que faz parte de Collisions, um filme de realidade virtual estreado na cimeira de Davos, é onde reside a linha que separa os conceitos de concerto, de espectáculo conceptual ou de instalação artística. Enquanto concerto ANOHNI deu um espectáculo consistente mas distante e demasiado ensaiado. Poderia e deveria, dado a intensidade nuclear das palavras e das composições de Hopelessness, ser um momento de partilha e comunhão e não de distancia e despersonalização da artista anteriormente conhecida como Antony Hegarty. Se o que nos foi oferecido foi um espectáculo conceptual/instalação fica a questão se o conceito estaria na matéria prima esculpida no disco ou numa necessidade de ANOHNI se questionar, de se colocar definitivamente entre mulheres ou de glorificar facilmente as expressões, tragédias e emoções do sexo feminino. Colocando como ponto fulcral a apresentação de Hopelessness e da sua mensagem – não desvalorizando o trabalho videográfico da compositora ou o papel da mulher no mundo – o resultado coloca-se um pouco em questão. As temáticas brutalissimas não mereciam um maior espectro de análise de imagem? Onde está a conexão entre os rostos das mulheres e o clima, a pedófilia, a ditadura do patriarcado, a extinção em massa e todos os outros pontos essenciais da reflexão pretendida com o seu novo trabalho? Onde fica o mundo? Confinado a expressões de tristeza, fúria, raiva ou serenidade nas mulheres globais? Colocando sob o ponto de vista da mulher ser a fonte de todo o nascimento poderá querer ANOHNI afirmar que a única esperança está depositada no sexo feminino? Será o renascimento planetário uma tarefa exclusivamente das mulheres? Tudo demasiado redutor. Muito pouca mensagem passada de forma concreta e eficaz. Podemos por outro lado observar este espectáculo como uma necessidade de ANOHNI. Um canal de análise e até de psicanálise para se saber, se observar de fora, se anular para de redefinir. Apenas por duas vezes o seu rosto surge durante a noite e sempre e somente na tela. A primeira vez ela deita-se no chão, sentando-se de seguida e afirmando para os seus olhos gigantes na tela “I Don’t Love You Anymore”. Novamente o seu rosto surge, agora na totalidade, em “In My Dreams”, um dos inéditos. Dois momentos de auto-contemplação? De falar com o seu EU? Se sim não será também demasiado um exercício de ego público e em desnecessária escala, mesmo que para a reconfortar de forma a tolerar as mudanças, alterações e incertezas que parece querer transmitir.

Podíamos ficar a analisar facto a facto, momento a momento. ANOHNI ou Hegarty não é nem nunca será um espaço confinado a nenhumas paredes. O que por sua vez alarga a um nível cósmico todas as possibilidades de análise do que se passou no palco do Coliseu e aparentemente de toda a tour, dado que o espectáculo está previamente definido e programado. Ficaram turvas as fronteiras. De qualquer uma das hipóteses a sensação de que falta consistência à ideia por trás da digressão de Hopelessness é nítida. Nunca por demais e de forma alguma querendo reduzir o trabalho dos três músicos, o concerto de quarta feira trouxe-nos um ANOHNI confuso e com barreiras interiores por destruir ou com alguma necessidade de apurar alguns conceitos de reprodução de ideias para palco. Conflitos internos todos os temos, uns têm é a arte de os transformar em algo maior e isto que ANOHNI continua a fazer seja qual for o seu nome e com mais ou menos neblinas nos conceitos, é tão maior que ele mesmo que nem de rosto precisa… ou será que precisa e ainda o procura? A equação seria interminável.