Hopelessness germinou supremo, veio à superfície e arreliou-nos o coração com lembretes pertinentes sobre os meandros da vida humana que em tanto é tremenda e insuperavelmente mais pérfida que a Natureza, deixando-nos entorpecidos, como quando somos engolidos por ondas grandes.

Hopelessness aproximou-se ainda da superfície da Terra para atingir, com certeiros mísseis, os nossos ouvidos. Podemos encontrar, e certamente encontramos, alguma porção de satisfação nas substâncias desgostosas e algum alento nas letras destroçadas, pois coladas às situações do real. ANOHNI abre então terreno para sentirmos tudo, tão profundamente, nas seis pessoas das formas verbais.

A dificuldade é saber medir o corpo e a alma, ou saber sobreviver depois de nos ter sido entregue uma lista de inclassificáveis verdades, de factos sujos ou panoramas desleais. Se por um lado, em nome da bendita junção de música impetuosa e letra mordaz, depressa viajamos entre a vontade de mexermos os pés e as mãos, em que nos rendemos às evidências de que somos bonecos articulados por forças que nos superam e só temos de deixar o corpo responder por si, por outro, somos atraídos pela decisão de nos enrolarmos, em posição fetal, chorando a miséria dos mundos, agarrados a nós próprios, que é o que sempre soubemos agarrar com ganas. O álbum honra as decisões pessoais de ANOHNI, em tudo colectivas, na sua resposta activista perante vícios, e discretas virtudes, de um planeta em decadência. Não é já Antony Hegarty quem nos fala, quem nos nomeia poemas e poetas, mas antes milhares e milhares de vozes, muitas delas quase sempre mudas, cerradas à força, ou cansadas de gritar. Neste sentido, seria falacioso admitir que, nesta obra, ANOHNI tem vários alter-egos ou múltiplas personalidades. É a sua voz, na canção e na palavra, digno colosso, ao jeito de ex-libris, dos brados mais dissemelhantes e peculiares que já lográmos escutar, permite catalogar um inventário de outros humanos, humanos que, ao ritmo electrónico de Christopher Elms e Oneohtrix Point Never, conseguem, por fim, dizer-nos algo. E o que todos nos dizem arde, magoa, agride, mastiga, deixa-nos feridas abertas na pele, pois não existem lirismos ou eufemismos capazes de camuflar o estado de coisas. Que esperança existe, para todos nós, estando a desgraça nua e a descoberto? I just want to write songs with teeth as sharp as my thoughts, diz-nos. E conseguimos evidenciar essas palavras, entretanto.

22 de Junho, Coliseu dos Recreios, noite quente, 21:30, luzes acesas viradas para o público. A sala não estava nem perto de cheia, embora isso não tenha sido, nunca, fundamental. Sentados nas cadeiras, enquanto, há já alguns minutos, conforme o público entrava, soavam ruídos em toda a atmosfera, ruídos que afligiam, acutilantes, envolvendo-nos num mar revolto, batendo nos rochedos, e enviando-nos para o centro de uma frota de aviões de guerra, sobrevoando uma povoação a abater, surge no palco, à nossa frente, Naomi Campbell. Em cena, um vídeo a preto e branco, com a figura feminina dançando na corrente desses ruídos indecifráveis. Essa representação recorda-nos o registo de “Drone Bomb Me”, um dos singles de Hopelessness, sendo também ela a protagonista. Formas de mulher que são desenhadas pelas tonalidades dos fetiches, dos desejos, das perversidades máximas, para puro deleite de uma sociedade que presta culto ao patriarcado e a outros dissabores. O bailado do desejo pelo exótico, que só aí não é condenado pelas cabeças duras, mas que em tantos outros sistemas é um alvo a abater. Também de salientar a pertinência de chamar uma figura conhecida, para abrir o concerto, ainda que com características e posições que são essenciais para o acolhimento da narrativa de ANOHNI. O cenário obscuro, que se assemelhava a um parque de estacionamento imundo e sombrio, abrigava-a com roupas algo provocantes, dançando de forma lenta, com uma coroa que nos chamava para a emblemática Estátua da Liberdade, monumento aos contrastes e às mentiras dos sonhos.

Podemos sempre rir da ironia ou do desenrolar mordaz daquela proposta ou podemos encostar-nos mais na cadeira, e esperar por uma súbita mudança de planos, que o ar já nos falta. Ainda perto do início, seriamos capazes de receber a sedução, depois, pela exaustão do movimento, que se extinguia em loops desenfreados, extenuava-nos no peito uma insuportabilidade, um enjoo da ondulação tão frenética, com os close-ups de Naomi e a imagem do seu escultural corpo na íntegra, balançando, movendo os braços para cima e para baixo, atingindo-nos com o seu olhar que embriagava. Quem somos senão espectadores ambiciosos de vários circos pela espuma dos dias? ANOHNI preparava-nos para a prova de Hopelessness, sem espaço para ensaios, prova com configuração de maratona ambivalente.

Tudo é uma cópia de uma cópia de uma cópia…até o infinito, se o infinito existir. 20 largos minutos de uma Naomi dançante, ao som da gravação de algo que se assemelhava ao mar agreste e ao vento a uivar nos escombros. A condição humana estava prestes a beneficiar de um espectáculo assumidamente impróprio para reaccionários. Estamos, finalmente, bastante desconfortáveis. É abandonar agora o barco ou naufragar, mergulhando até às profundezas.

Surgem luzes no palco, estonteantes como todo o carrossel programado para o serão, e, ainda sem ANOHNI, mas com os seus dois acompanhantes, Elms e Oneohtrix Point Never, a sustentar Hopelessness, a faixa que também dá nome ao álbum, estão abertas as portas para, mais do que uma performance, um ritual, como me disse uma amiga que também assistia. A maior parte das pessoas presentes na sala, provavelmente, e sem procurar condescendência da minha parte, não esperava tamanho impacto. Um concerto, em que o prazer e o lazer imperam, supera-se ou costuma superar-se, ainda que a ressaca emocional pulse e coordene os músculos por alguns tempos. Mas a experiência permitida por ANOHNI foi muito além disso, deixou raízes dolorosas e deixou pegadas de peso, se nos tivermos permitido a deixar entrar toda esta torrente de um só trago.

Hopelessness foi tocado na íntegra mas o espectáculo reuniu mais cinco faixas que não faziam parte do álbum, ainda que igualmente coerentes com a proposta do mesmo. It’s an album tooled entirely to provoke a reaction. E isso foi abundantemente visível. Alguma porção do público estava, de facto, com arritmias, com falta de ar. Outra, batendo palmas incansáveis a cada transição musical, procurava um esboço de sorriso de ANOHNI, um ‘obrigada, Lisboa’, ou algo do género. Era essa a expectativa. Um grilo falante que, para além de cantar para nos embalar com mãos quentes, também soltava versos diversos, com a timidez habitual de grandes figuras que escolhem a arte como caminho de sobrevivência.

A noite seria medida através dos rostos de várias mulheres, uma ou duas por música, de várias idades, origens, vontades, crenças, que iam aparecendo a cada faixa, na tela enorme, bem central. Espero que não seja necessário explicar o porquê de ANOHNI ter exibido somente mulheres. E espero também que não seja necessário explicar o porquê de nenhuma delas ter traços caucasianos óbvios, senão aquando da música de abertura, Hopelessness, em que a frase How did I become a virus? soava como agulhas, e uma mulher, com a cara pintada de vermelho e castanho, ia mexendo os lábios ao ritmo das palavras.

Continuámos a navegar por mares amotinados. Na verdade, o álbum já descortinara poesias realistas, das que causam indigestões e já nos dera a provar deste xarope agridoce, mas quando, perante os cinco sentidos directos que temos, ANOHNI surge com uma indumentária em tudo semelhante a uma espécie de burqa embrenhada no típico vestuário dos Klux Klux Klan, constamente encapuçado ou com algo que podia ser utilizado pelo clero mais ortodoxo, damos por nós desnorteados, inquietos. O véu não é retirado da sua cabeça e ANOHNI reivindica-se como ser anónimo, não escondido, mas sem presença identitária exclusiva ou relevante para o que quer construir.

A “4 DEGREES” escalda no Coliseu e arranha-nos em todos os poros. ANOHNI não dá a cara por si, pelo seu corpo e alma, mas pelo corpo e almas de todas as mulheres que se apresentam na tela atrás de si. Eis aqui uma outra face possível para a campanha da Benetton, por exemplo, descodificando as diferenças não só como motivo de celebração, mas as diferenças como motivo de discórdia, de dor, de guerra, sinal claro do defeito de se ser humano.

O único momento em que descodificamos a sua face, pois parece que a maior parte de nós se inquieta com a pele coberta, é aquando da música “I Don’t Love You Anymore. Quiçá uma despedida à sua identidade mais conhecida, a de Antony, ANOHNI surge a azul.

Nada resiste por acaso. A sensação de culpa que nos aperta, quando, com sonoridades absolutamente inebriantes escutamos sentenças de morte, sentados, meio quietos na multidão, enche-nos de incoerências. A metamorfose de ANOHNI vai ficando completa à nossa frente, sem nunca falar directamente para o público, pois, novamente, isso era acessório. O nosso delito desagua em nome do constante movimento, do constante consumo, repetido até se morrer de fome tendo a barriga cheia. A noção de tempo tem de se desmaterializar do que, até então, conhecíamos. Reconhece-se, ali, que a humanidade deu erro. A evolução humana, com todo o seu séquito de mecanismos, deu erro. A dúvida persiste sobre se vamos a tempo, ou não, de domar as feras por nós criadas. O mundo é de todos os que nele respiram, e isto não é um lugar-comum. Também não procuramos a fatalidade definitiva de um beco sem saída, ainda que tal decisão fosse mais fácil de seguir.

As múltiplas faces, de mulheres tão distintas quanto só a humanidade pode tracejar, sobrepõem-se, riem, choram, têm maquilhagem ou não, têm manchas, cicatrizes, rugas, uma imensidão de características, mas o nosso olhar remete, com urgência, para as várias bocas, numa linguagem de lábios que, com a voz de ANOHNI, ressoam e ecoam como bolas de canhão. Dentes alinhados ou desordeiros, olhos rasgados ou amendoados, as palavras são emancipadas na coreografia que cada rosto aplica. ANOHNI vai erguendo e baixando os braços ao ritmo frenético dos dois ajudantes, um de cada lado do palco, que soltam a batida pulsante, ao ritmo do sangue nos veios.

“Watch Me” começa a ser tocada e estremecemos com a letra. Todos os vídeos tiveram mão de ANOHNI que quis, sempre, delinear bem o plano visual, sinal intrínseco das suas apresentações. Não há letras inocentes ou suaves, nenhuma é indicada para descontracção. As costas repuxavam-se e não conseguíamos, nem queríamos, fechar os olhos. Esta é também uma lição de destacar: a atracção pela imagem, numa era tão marcada pelas síncopes visuais que nos assolam em qualquer altura, aqui foi soberana.

O espectáculo tem a sua ementa própria, e, nela, demoramo-nos a escolher o prato. Homicídios, genocídios, guerras, tortura, indústria animal, caça furtiva, censura, ditaduras, epidemias à escala universal, aquecimento global, degelo, mudanças climáticas, desflorestação, manobras das potências para com os subalternos, questões de género, pornografia, pedofilia, violação, manipulação dos média, pena de morte, e por aí fora, num elenco que nos corta a vergonha e que, em tudo, sorri ao capitalismo. Uma civilização que apodrece a olhos vistos mas que ainda se segura nas maçãs de Eva ou na difusão de enormes arsenais de armas. O puzzle não cessa. Podemos saltitar entre Orwell ou Huxley, entre tantos outros, mas os ouvidos, com ANOHNI, politizar-se-ão, sempre. Escutar e admitir o álbum e o concerto somente em nome da música torna-se imediatamente nulo, vazio ou inútil. “Paradise”, “Ricochet”, “Jesus Will Kill You”, “Indian Girls” e “In My Dreams” são as novas adições de ANOHNI, em tudo corrosivas como as músicas já existentes no álbum. Ouvi-las pela primeira vez ao vivo, para além de um privilégio, foi também uma tormenta. Mais matéria prima para reflexão, que a há sempre, enquanto existirem humanos calcando a superfície do planeta.

Ainda que ANOHNI, nas palavras que engrandecem as melodias, utilize sempre a primeira pessoa, teremos de abstrair-nos e imaginar que o que ele faz, personificar seres concretos e seres representativos de grupos maiores, é em prol das personagens-tipo, é em prol da descodificação de múltiplas mensagens, mescladas em vários formatos de tratamento, em que todo o espectáculo é gerido. Humanos reais, palavras reais, muitas vezes sem grandes rimas ou cuidados, antes o pó que une as coisas atrozes, seco e directo.

Com a alma em ebulição, fomos escutando o cortejo reactivo de ANOHNI, sem tempo para consolos. Agora, o que fazer? Aguardar mais bombas nucleares ou um novo big bang? De destacar a letra de “Obama”, bem como as suas fúnebres melodias de fundo. When you were elected, The world cried for joy, We thought we had empowered, The truth-telling envoy / Now the news is you are spying, Executing without trial, Betraying virtues, Scarring closed the sky. Outro ponto alto (não foram todos?) aconteceu com a chegada de Violent Men, ode de repetitiva harmonia, clamando com firmeza Never again, Give birth to violent men / We will never, never again, Give birth to violent men.

Uma vez aqui chegados, e porque nos dispusemos a assistir a ANOHNI e às ‘suas’ mulheres imensas, de todas as arestas do planeta, vamos submergindo e respirando fundo. A crise de valores, de comportamentos, de atitudes e de tudo um pouco que seja condenável, estrutura-se, também, com a letra de “Crisis”, If I tortured your brother, In Guantanamo, I’m sorry. Uma enciclopédia pura de episódios da História Mundial, com solilóquios de homenagem aos Estados Unidos da América, país que acolheu ANOHNI, ou que por ela foi acolhido, ganha um novo formato, o que extravasa o palco e assola a plateia. Não existem manifestações musicais em palco que não devam, também, parte do seu volume e peso à audiência, que é sempre, mesmo que involuntariamente, fragmento desta concepção.

ANOHNI fecha as cortinas com “Drone Bomb Me”, música que, no álbum, é logo a primeira da lista. O público quer mais, mas isso de pouco adianta ao público. ANOHNI não tem de prestar vassalagem a vivalma e a sua tarefa, invejável na dimensão e pertinência, está completa, pelo menos por uma noite. Deixem que seja escolha sua os casacos políticos e sociais que coloca, bem como a sua duração.

Surge ainda na tela uma mulher, mais velha, esta com voz, a sua, dizendo-nos palavras que nos açoitam, e que em tudo são assertivas, relacionadas com as acções humanas, quer entre humanos, quer entre os firmamentos da Natureza e os solos, altos e baixos, que todos pisamos. Assim encerra este serão, em tudo lembrando a figura de Atlas, com o mundo às costas, essa esfera espinhosa. Lembramo-nos da diferença de significado, tão delicada, entre humanidade e humanismo, e confirmamos que, severas vezes, não estão interligadas.

22:50. Silêncio da parte do palco, palmas descontroladas da parte da plateia. Mas esta proposta não tinha assinatura de Antony and the Johnsons, e nada de errado nessa premissa. O que se faz quando o caldo está entornado? Procura-se novo caldo ou salva-se o que está espalhado no chão? Dançamos com o álbum ou ouvimo-lo perante uma meditação que aspira a curar mazelas do mundo? Depois desta fervura contagiante, confirmamos: a música não deve ser uma arma? Tomara que todas as armas obtidas ilegalmente neste nosso enfermo mundo fossem músicas. Agora, aos poucos, é necessário ir trocando a pele, não os ouvidos ou o coração, e ir renovando, ou tentando, a expectativa intragável da existência.

In the, in the countryside, under the stream Suck the, suck the marrow out of her bones Inject, inject, inject me with chemotherapies Suck the, suck the money out of her face
We are, we are all Americans now
Africa, Iceland, Europe and Brazil China, Thailand, India and Great Britain Australia, Borneo and Nigeria
We are, we are all Americans now
Suck the, suck the oil out of her face Burn her, burn her hair, boil her skin
We are, we are all Americans now
“Marrow” – Hopelessness