Nem todas as bruxas foram queimadas. Escondem-se atrás de gatos pretos e verrugas no nariz, ostentam chapéus longos ou vassouras voadoras, algumas ainda espalham a sua magia. Os All Them Witches de Nashville preenchem em tons de azul o rock&roll e o stoner que desenham. Desde 2012 – data da primeira vez que estas bruxas nos saltaram para o radar com as suas diabruras sonoras -, que elas se vão disfarçando e moldando a sua forma. Dying Surfer Meets His Maker, um dos mais entusiasmantes e ambiciosos registos da banda, foi uma das últimas vezes que delas ouvimos falar, corria o ano de 2015. Agora, vemos o seu regresso com Sleeping Through The War, o novo disco, lançado oficialmente no dia 24 de Fevereiro.

Dying Surfer Meets His Maker reuniu na altura opiniões divergentes, embora tenha feito convergir nos seus temas uma experiência espiritual, quase de retiro, num LP com vários elementos acústicos e com uma coesão inegável. Desde Our Mother Electricity, o primeiro LP de 2012, os All Them Witches têm sabido manter a característica de não se conformarem com o mesmo registo. Ainda que todos mantenham a identidade da banda de Nashville, todos os álbuns assumem-se como unos e independentes ainda que interligados como uma teia de uma dessas aranhas tão pouco estranhas ao ambiente mágico das bruxas.

All Them Witches

A viagem de vassoura voadora começa com “Bulls” e com uma produção mais limpa do que a que se ouve nos registos passados da banda. Recheada de secções diferentes, pausas e acelerações imprevistas, é um tema de abertura cheio de cor e vida, e integra um álbum que aqui se promete repleto de surpresas. Com “Sleeping Through The War”, os norte-americanos trabalham bastante as dinâmicas musicais jogando com os seus tão já conhecidos riffs potentes e harmonizações cruas e incisivas. Percorrem ainda caminhos mais ligeiros e, quiçá, mais easy-listening com “Am I Going Up?”, que deambula sobre as guitarras repletas de delay, quase como se de uma balada com influência blues se tratasse.

“Alabaster” é um exemplo mais que competente da mudança de carácter dentro da uniformidade do cerne da banda norte-americana, através de uma hipnótica linha de guitarra assumida com delay sobre um ritmo sincopado empolgante que transita para uma seca transição carregada de fuzz tão típica em bandas de noise-rock. Um dos temas mais arriscados da banda, mas que acaba por resultar de uma forma imprevisível. Com quase dez minutos de “Internet” é encerrado o disco, numa clara e arrastada e bastante previsível crítica. “Internet” constrói-se sobre si mesma com várias layers de guitarras, e com a participação de Mickey Raphael na harmónica e uns solos que de tão rasgados e sinceros parecem ser inventados em contexto de improvisação.

Sleeping Through The War é mais um ambicioso projecto das bruxas de Nashville que não prende da mesma forma que os anteriores, embora se demonstre igualmente interessante. Mostra-se, possivelmente, como o mais trabalhado registo da banda até à data e manifesta-se como mais uma confirmação de que estes quatro tipos de chapéus bicudos envergados têm e querem dar bem mais do que o blues rock do qual já se mostraram mestres. Do pote das poções nunca sabemos o que irá sair, mas engane-se quem espera sempre o mesmo feitiço.