“Bright Music For Dark Times” são as palavras impressas num artilhado e monstruoso conjunto de sintetizadores montados em jeito de laptop que ocupam o palco do Musicbox para a primeira performance da noite de sábado. Ela Minus, nome artístico de Gabriela Jimeno, entra no palco com uma energia e uma presença contagiante. O carisma e a inesgotável sensação de diversão em palco que emana contagia o público quase de imediato com os corpos a sucumbirem ao ritmo minimalista e fresco das batidas electrónicas. Existe uma inocência infantil em algumas das suas músicas, uma pureza nítida nas composições que a tornam diferente de muitas das produções electro-pop massificadas e produzidas em estúdio. Em particular o uso que faz da sua voz, equilibrando o tom cândido e juvenil e manipulando-a como um qualquer outro instrumento ao seu dispor para construção de melodias electrónicas com um ligeiro gostinho a pop mas um sabor mais intenso e refinado de futuro e de novas fronteiras da música experimental. O transe derivado das repetitivas e hipnóticas composições sónicas de Ela Minus, em conjugação com a sua entrega em palco asseguram de forma brilhante o inicio de uma noite que se prometia lendária.

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A aura vibrante que rodeava a plateia era já visível, e a entrada de Surma em palco não deixou quaisquer dúvidas acerca do impacto sério da delicada paleta de sentimentos que trespassam pela sua música. Tem saído da discreta cidade de Leiria uma fornada de promissoras bandas revolucionárias cujo impacto internacional já começa a dar os seus frutos. Relembremos mais uma vez que Surma foi confirmada para a edição de 2018 da maior “montra” de música, o festival South By Southwest. Antwerpen é o ponto de partida para as constelações delicadas do projecto da multi-instrumentista Débora Umbelino. A porta de entrada para o universo lírico e ligeiramente alienígena de Surma no último dia do Jameson Urban Routes faz-se em cima do palco com focos de luz quase discretos e uma figura franzina descalça envolta em nevoeiro que quase desaparece atrás dos teclados, das caixas de ritmos, dos samplers, pedais, guitarras e campainhas. Faz-se também através de um sorriso tímido e radiante de quem está prestes a embarcar numa viagem íntima e secreta e nos dá a mão para em conjunto navegar por um novo espectro de cores e sons marcadamente visuais.

Surma, a protagonista física, esconde-se e transfigura-se em som e comunica assim de forma quase etérea com o público numa visita guiada ao seu mundo privado através da lírica de dialectos estranhos, das suas canções ou com jogos improvisados de sons e palavras com uma tremenda infinidade de emoções e sentimentos dos cantos mais melancólicos da alma ou com subtis arrufos de experimentalismo indie que convidam a um bater de pés mais aguerrido. Os pontos altos da actuação recaem em “Maasai” e “Hemma”, os singles que construíram este universo muito próprio e singular de Surma. “Hemma” é um exemplo perfeito da sua extraordinária capacidade de reconstruir habilmente pedaços dispersos de sons, explorar ritmos dinâmicos e minimais, e ao mesmo tempo introduzir sonoridades cósmicas tranquilas e sonhadoras em que a fragilidade quase sumida da voz é introduzida camada sobre camada de forma delicada como quem colhe um dente-de-leão.

Um universo que não se resume e estagna em fórmulas ou identidades fixas mas que alberga uma multiplicidade de sonoridades e compostos sempre em mutação e transmutação. Em certos momentos do concerto, a narrativa que já conhecíamos enriquece-se por um alongamento mais encorpado de um som aqui, por um desfasamento mais pronunciado da voz ali, por um introduzir de um novo elemento acolá emprestando mais uma camada de embelezamento e descoberta. A sua extraordinária e sensível cover de “Just So” de Agnes Obel teve direito a uma retumbante ovação da plateia, enquanto “Wanna Be Basquiat” não teve direito a mösh mas agitou visivelmente as hostes mais próximas do palco. Na hora amarga da despedida, o contentamento e satisfação eram notórios para ambos os lados da barricada e para quem pela primeira vez assistiu a um concerto seu, pôde perceber o culto e o fenómeno em redor do seu nome.

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Depois de em 2013 terem actuado no Milhões de Festa, os canadianos Austra encontram-se finalmente com o público lisboeta. O compasso de espera alimenta-se com cigarros, conversas estridentes, a incerteza de tentar matar a sede tendo de passar pela barreira concentrada de pessoas e assim perder o lugar privilegiado e olhares ansiosos para o palco enquanto os técnicos o despem das roupagens de Surma e preparavam o terreno para a banda. A música ambiente é desligada, as luzes desvanecem e o palco ilumina-se entre tons azuis e roxos. Os primeiros acorde de “Darken Her Horse” fizeram-se ouvir enquanto Katie Stelmanis surge por entre a névoa vestida de vermelho e ocupa a parte central do palco. Impulsionados pelas inundações das batidas dos sintetizadores e batidas de dança cuidadosamente esculpidas e ampliadas com ritmos cada mais fortes e poderosos, as primeiras chispas de electricidade estática começam a voar pelo espaço canalizados pelos corpos abandonados à dança. Os vocais operáticos de Stelmanis algo submissos e delicados vão insinuando o seu caminho por entre a torrente alucinada e pulsante de beats rápidos e da repetitiva e alucinógenea dose de transe desgovernado com que embruteceram as canções.

Definir o espectro musical a que Austra pertence foi sempre um exercício difícil consenso dada a sua aproximação a uma vasta e variada rede de influências musicais. Desde o coldwave e o electroclash minimalista de “Feel it Break”, passando pela synthpop mais orgânica de “House de Olympia” e culminando com o techno minimal e sci-fi de “Future Politics”, a construção emocional da setlist para esta tournée foi um golpe de mestre que fez as delícias ao multicultarismo heterogéneo da plateia ao transitar de forma magnifica entre os três álbuns, entre o pop cintilante e revivalista de “Utopia” e o mais intenso e obscuro “I’m A Monster” com aquele sabor a desespero vocal assombrado por sintetizadores e ritmos mais sombrios. Por mais que o repetitivo refrão “I don’t feel nothing anymore” transformado numa quase súplica pela voz hipnótica de Stelmanis nos envie um dardo directo ao coração, a batida constante, pulsante e desafiadora dos arranjos musicais transformam-na num hino de alegria flutuante.

Austra @ Musicbox no Jameson Urban Routes 2017

“Home”, com os seus acordes adornados de piano, faz uma sobreposição delicada de riffs de bateria e camadas controladas de sintetizadores e rodeiam os vocais como uma flauta. “I Love you More Than you Love Yourself” constroem redes de electricidade que continuam a flutuar acima do público e ocasionalmente descem em grande velocidade para como o monstro de Frankenstein nos acordarem os corpos. É difícil para as almas mais voyeuristas saírem do estado de contemplação do magnetismo animal que se desprende da banda. A envolvência e a energia que projectam dentro e fora do palco e as qualidades performativas de cada um deles têm o poder sobrenatural de abrandar o ritmo corporal e aumentar o cardíaco.

O ponto alto da noite e que mudou para sempre a forma de ouvir o registo em estúdio surgiu envolto em luz vermelha com Stelmanis debruçada sobre si mesma a marcar o ritmo com o corpo. “Beat And The Pulse” foi a faísca final que fez incendiar a sala do Musicbox, um atordoamento sensorial, um comprimido de cocaína natural com efeito imediato. Os ritmos sujos e sensuais da batida roçam o quase obsceno da maneira como ressoaram em toda a estrutura física e metafísica do corpo. É como se toda a plateia se transformasse num único orgão palpitante, numa espécie de orgia visceral a uivar ao poder hipnótico das batidas cada vez mais rápidas e envolventes. Quase uma desilusão quando por fim acaba e podemos voltar a respirar normalmente.

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Suados e quase no limite da exaustão, sacudimos o cansaço para o canto porque ainda não estamos saciados e o delírio de grupo continua até ao fim do concerto e durante o encore. No final desta saga de movimentação extra-corporal os sorrisos e a necessidade de ar puro e algum tipo de bebida para combater a sensação de desidratação geral, definiram o êxito estrondoso desta última noite no Musicbox. Entre a entrega deliciosa e desprendida da electrónica de Ela Minus, a delicadeza etérea da notas de viagem de Surma e a aguerrida e electrizante prestação de Austra, o Jameson URBAN Routes ’17, despediu-se em grande e com uma enormíssima e bem merecida vénia.