Pode custar a crer, mas algures nas sombras parece que se monta uma goth-rock revival. Sem o rapé e as rendas nem os chapéus de cowboy, mas lá que andam a surgir imensas bandas que, sem se assumirem, transparecem uma colecção de discos carregada de Sisters Of Mercy, Bauhaus, Rosetta Stone, Virgin Prunes ou os menos floreados e mais afastados primos do post-punk, Echo & The Bunnymen, The Sound, And Also The Trees e, ora pois, Joy Division, lá isso andam. Ora se acham que não espreitem bem depressa os Eagulls, Viet Cong ou Ice Age só para referir alguns dos nomes com que chocamos de frente mais recentemente mas façam melhor e visitem Leiria em Agosto para o Entremuralhas deste ano. Mas adiante…

Uma igreja abandonada convertida em estúdio, baptizada de The Nave, viu os Autobahn darem corpo e forma aquilo que se iria tornar o futuro disco de estreia da banda de Leeds – berço incontestável do gótico enquanto corrente sonora – durante seis semanas consecutivas de intensas maratonas de gravação supervisionadas por Matt Peel (Eagulls, The Crookes, Pulled Apart By Horses) e bebendo da inspiração divina e além-vida do legado obsessivo, negro, misterioso e altamente doentio de Martin Hanett, o principal responsável pela sonoridade incomparável de Unknown Pleasures dos Joy Division.

O resultado final é um disco como não se ouvia há muito tempo. Com a aparente dor entranhada nas feridas que se abrem na pele e uma agressividade brutal que esmurra a alma até as lágrimas dificilmente se conterem nos sacos lacrimais mas, como todo e qualquer bom disco de contornos goth, o negrume é mais que muitas vezes aparente e se conseguirmos acalmar a alma e entrar no mundo poético dos Autobahn a luz está lá ao fundo e acarreta uma leveza serena de esperança, virtude e nervo. Dissemble será um disco ímpar no ano de 2015, que poderá encontrar a companhia mais próxima em Deeper dos The Soft Moon de Luis Vasquez mas pouco mais.

Enquanto não chega Agosto e Dissemble não vê a luz (negra) da noite – com selo Tough Love – ficamos com “Immaterial Man” em estúdio e na versão live no The Nave, para além de “Beautiful Place To Die” mais uma das faixas do disco.

alec peterson sig