Axxa/Abraxas - Axxa/Abraxas
70%Overall Score

Tudo começa com uma excelente introdução. Depois vêm os anos 60 da pop britânica, mas tudo isto vem de Atlanta (E.U.A.). “Going Forth” continua no mesmo estilo, mas parece mais moderno; é como película antiga com coloração (em pós-produção), uma espécie de super 8 produzido por smartphones. “I Almost Fell” ainda tem calças à boca-de-sino, mas o cenário é contemporâneo. “Behind The Wind” atira-nos definitivamente para o passado por altura de baladas de glamour rock, mas sendo dos dias de hoje, chamar-se-ia gourmet rock ballad, o que torna todo este estilo por vezes cansativo de ouvir.

Axxa/Abraxas parece uma máquina do tempo representada em estúdio. “Same Signs” é ruralidade moderna americana, campos cultivados e pó na estrada como se trabalhar no campo fosse um passeio agradável pela vida. Por seu turno, “So Far Away” faz-nos deixar as estradas com pó e entrar em asfalto junto à costa, vendo o mar batendo na areia e em frente espera-nos apenas o sol; é velocidade de cruzeiro com janelas abertas e prontos para atestar de novo e continuar a viagem, seja qual for o objectivo dessa viagem. “Ride Into The Night” conversa com a nossa cabeça de um modo simples e quase eficaz. Quase eficaz porque se limita a descrever uma viagem pela noite sem produzir grandes acidentes; é apenas descritiva, mas produz ritmo, sobretudo quando se vai aproximando do final. “Painted Blue” parece sequela da anterior, com ritmo, mas muito menos atraente. “On The Run” põe-nos numa moto com chapéu de cowboy a cruzar um território por uma estrada que nos levará onde teremos que ir, pois é para lá que ela nos levará… para voltar a atestar e continuar ou ficar mesmo por ali a passar a noite. É que aqui não há horários para cumprir, só dar mimos aos pensamentos. “All That’s Passed” triunfa nesta ideia de máquina do tempo sem sair deste tempo. Quase folk, quase country, quase cool, mas para quem gosta do estilo, Axxa Abraxas não deixa de ser um bom produto; Axxa Abraxas não deixa de ser um conjunto de músicas que não defrauda as intenções do álbum. Para quem gosta de revivalismo recriado nos dias de hoje, tem sem dúvida uma boa razão para ouvir Axxa/Abraxas.

Axxa/Abraxas peca por se dedicar só a esta dinâmica, não desfazendo o passado, mas não dando nada de novo ao presente; transporta o passado em embalagem com sinalética preciosa de “frágil” e “para cima” com o perigo de se partir o que está lá dentro. Com Axxa/Abraxas conseguimos visualizar as paredes forradas a papel de parede com padrões a duas cores, salas com gira-discos e televisões com cinescópio, janelas com cortinados com círculos como padrões. Axxa/Abraxas calça botas com tacões mas calça também ténis (do estilo dos saudosos “tave”), veste t-shirt e saias rodadas. Axxa/Abraxas tem dourados mas não tem bolas de espelho, tem mérito e isso é bom, tem slides e falhas na película, mas tudo isto de propósito. Axxa/Abraxas é como uma medusa, primitiva mas bem desenhada e que existe por milhares de anos; atraente mas perigosa, pois podemos apanhar alergias, algumas com consequências meio graves. Axxa/Abraxas talvez também não queira ser outra coisa qualquer que não seja isso mesmo, uma transportadora de ideias. Talvez seja uma boa ideia, talvez seja um bom ponto de partida se elevarmos esta dinâmica a outros estilos musicais do passado; talvez no próximo álbum seja outra coisa qualquer completamente diferente do que é agora; talvez a medusa evolua e passe a ser uma medusa mais agressiva ou mais afectiva… não sei… talvez nos cruzemos de novo nesse vasto oceano.