Aziza Brahim - Soutak
80%Overall Score

Há uma série de anos, o desert blues teve como alavanca o magistral Ali Farka Touré; Ry Cooder, produtor e mentor do projecto Buena Vista Social Club, fez uma parceria com o músico africano no álbum Talking Timbuktu. O resultado foi esplêndido e o mundo aclamou Touré. O que se seguiu foi uma consciência mais nítida das raízes do blues, contra-argumentando a ideia de que este género musical já teria sido fabricado na América por descendentes africanos durante o processo de escravatura. Se é saudoso o tempo de termos ouvido o álbum em questão pela primeira vez, temos vindo a ser compensados ao encontrar outros excelentes representantes do blues do deserto.

Esta senhora, Aziza Brahim, é para se respeitar e descobrir devidamente. A caminho dos 40 anos de idade, a sua travessia no deserto até encontrar reconhecimento não foi tão árdua como se julgava ser destinada. Como os seus pais eram saharauis, Aziza nasceu num campo de refugiados em terrenos fronteiros argelinos. Ainda pré-adolescente, e integrada num programa de ajuda a estudantes deslocados, seguiu para Cuba, onde tentou estudar música. Foi rejeitada e regressou ao ponto inicial, mas rapidamente começou a ganhar visibilidade. Em 1995, ganhou o “1st National Song Contest”, no Festival Cultura da República Democrática Saharaui. A partir daqui partiu em inúmeras digressões pela Europa, acentuando a sua presença em Cuba e em Espanha, e acabou por se estabelecer (em 2000) em terra de nuestros hermanos.

Não é de estranhar que este Soutak, segundo trabalho discográfico da cantora, produtora e percussionista tenha, além das fortes raízes arábicas e desérticas, apontamentos da cultura cubana e espanhola. Reflexo disso é ouvi-la cantá-la em castelhano, o que se torna particularmente curioso. Com o seu tabal, com referências ao pai que nunca conheceu, aos direitos do povo sahauri, numa portentosa mostra de tradição e cultura das suas raízes. Todo o álbum é um hino cultural para apreciadores das tradições africanas e, muito rapidamente, ganhamos a percepção de estarmos perante um trabalho repleto de areia do Saara. A mesma que queremos desfiar no intervalo dos nossos dedos muito lentamente, mas mesmo muito lentamente.