Mais português que nunca. Assim nos prometeram o espectáculo de B Fachada, no passado sábado, no gnration. Levanta-se a questão: como ser ainda mais português quando se o é em pleno e ciente dessa condição?

Dada a hora marcada, ainda o pátio exterior do gnration aguardava a chegada do seu público. Um espaço exterior confortável, de formato rectangular, envolvido pelas galerias do edifício; além disso, inteligentemente desnivelado – pense-se na inclinação de Paredes de Coura -, para que não haja maus lugares. No chão, a convidar o sentar, espalhavam-se algumas almofadas à disposição – um bom pormenor da organização. Atribui-se a responsabilidade do atraso, devidamente acautelado, à selecção nacional de futebol, que não marcou o golo da vitória sobre os croatas mais cedo.

Quando temos o recinto mais composto, lá nos surge o artista: t-shirt básica, o conforto da calça de fato de treino, e um copo bem cheio de – nada indicando o contrário -, uma bela pomada. Estamos todos à vontade, no conforto de jogar em casa. Não era preciso, mas o tio B agradece a presença e a preferência, em detrimento da buzinas afectas à festa nacional que mal se ouviram – especulamos que só, eventualmente, a partir de uma hipotética meia-final. Braga foi a nossa Fátima, e o Fachada ambos fado e futebol.

A acompanhá-lo, vieram guitarra eléctrica e uma parafernália electrónica de sintetizadores e samplers donde são disparados os corpos instrumentais das músicas – muito importantes, por exemplo, no mais recente trabalho, o terceiro disco homónimo B Fachada. A primeira música que ouvimos, “Camuflado”, define este disco, com um tecido musical remendado, complexo, muito interessante e bem produzido, por vezes, menos intensamente e dadas as devidas diferenças, a fazer lembrar “colagens sonoras” ou ‘plunderphonics’, como lhe chama o jornalismo musical (ouça-se “Pifarinho”). No final de cada música, por entre os aplausos e alguns mais eufóricos assobios, trocava entre guitarra e teclas e contraía o rosto de modo afirmativo, com confiança, uma espécie de aprovação como quem confirma um resultado, de certa forma, já esperado, algo como, “porra, que esta correu bem”. Por ele, e por nós, correram todas.

Zecas e Fraternidades a sujar-me o babete
Gastámos a flor da vontade a preparar o come back
[…] Ponho o camuflado a render consequentemente a malta paga para ver

O seu concerto não incide, em particular, neste disco; os alinhamentos vão um pouco ao sabor da música que tocou imediatamente antes. Por isso, ao vivo, temos a oportunidade de revisitar grande parte da sua carreira, e aferir a sua evolução – ou transformação -, entre as várias fases temáticas, musicais e líricas que atravessou ao longo de catorze registos discográficos em 7 anos. Simultaneamente, enquanto a música é interpretada, não se inibe de libertar a expressividade da sua persona, que sempre nos chega como extremamente genuína, na entoação das palavras cantadas e nas incontidas gargalhadas que fogem entre alguns versos, cúmplices com o público, reflexo da dimensão verdadeiramente cómica de alguns dos seus escritos.

Recorde-se, como porventura o exemplo mais flagrante, o insolente e amoral contador de histórias em É Pra Meninos (2010), um disco de instrumentação pertencente ao imaginário infantil, circunstância que dá às narrativas uma simplicidade enganadora e subliminar; no entanto, tememos pelos miúdos que ouviram “Questões de Moral” ao crescer, resultanto numa possível geração de perigosos revolucionários.

A dimensão lírica da sua música é, de facto, uma das mais importantes características a apontar: não é, como, por vezes, transparece noutros músicos, uma muleta de aceitação ou de comodidade para se cantarem banalidades. A língua portuguesa enriquece com o cantautor; há conta, peso, e medida na poesia (ou prosa?) do tio B, heterogénea até em períodos curtíssimos de tempo: leia-se (e ouça-se!) o Fachada romântico circa Dezembro de 2009, no primeiro homónimo, e o contraste com Um Fim de Semana no Pónei Dourado, gravado apenas entre «sexta-feira 23 de janeiro e a segunda 26», ainda no mesmo ano. Dando um pequeno salto cronológico, chegamos à insurreição épica de Deus, Pátria e Família, em 2011, apenas uma faixa ininterrupta de 20 minutos e já imensamente virado para uma crítica social. Sem nunca esquecer a criatividade musical, claro.

E, pelo meio do concerto, apresenta-nos um pouco à história da música portuguesa, e a algumas das suas raízes: de José Afonso, uma directa e assumida influência (a vários níveis), cantou “Os Vampiros”. “Tenho Barcos Tenho Remos”, – esta última parcialmente cantada sem amplificação, num belíssimo momento -, foi interpretada pelo mesmo Zeca ainda no disco d’Os Vampiros, para a qual compôs apenas a música. A letra, e a muito própria interpretação vocal, remonta à canção popular alentejana. Cantou ainda uma terceira, uma adaptação do “Hino da Maria da Fonte”, historicamente relevante para a região minhota. São momentos retirados a um importante extracto cultural português, que muitos influenciou, e seguirá o Tio Bernardo essa tradição, não necessariamente colinear, mas com um importante denominador comum.

Enquanto tudo isto acontecia, a timidez da audiência, nitidamente segregada ao longo de várias gerações, ia paulatinamente quebrando ao longo do concerto: bamboleou-se o tronco ao som de “Dá Mais Música à Bófia e trocaram-se risos e memórias nostálgicas com as rebeldes “Questões de Moral“. Fosse este um espectáculo em pé, e a matriz dançável e mais electrónica de tendência africana, muito presente em Criôlo, de 2012, poderia ter arrancado uma ginga mais arriscada aos presentes.

Acusando o cansaço de quem não tem o pulmão de bola, este homem de família prepara uma saída incólume, sem a maçada de um encore (receberíamo-lo de bom grado), ao som da já clássica “Quem Quer Fumar com o B Fachada. Despede-se com um sincero agradecimento; nós ficámos saciados e de coração cheio. O convite ficou por aceitar, numa futura ocasião. Depois, fomos para casa. Há que respeitar a hora dos patinhos. É pra meninos.

Fotogaleria de Henrique Almeida:

B Fachada @ gnration