Conta-se o terceiro dia de festival num dos pontos mais a Norte de Portugal e, sem exceção, é mais um dia de concertos imperdíveis para qualquer melómano. É no palco secundário que os mordazes e lusitanos Cave Story abrem esta nova pratada diária de concertos. Num tom mais colorido e gracioso seguem-se Bruno Pernadas e a sua banda que, mais uma vez, provaram a sua mestria e astúcia em terrenos jazzísticos. Para nos acompanhar no pôr-do-sol nortenho, apresenta-se-nos um leque de opções de luxo: a delicadeza e sensibilidade lírica de Andy Shauf, a meticulosidade oldschool e soturna de um serial killer de nome Moon Duo e, por fim, o poder e a energia poético-física do trio escocês Young Fathers, no palco principal.

Qualquer uma destas opções serve bem de entrada para um posterior manjar no Olimpo, banquete onírico onde os surpreendentes BadBadNotGood nos transportaram com as suas melodias e transições de bradar aos céus. A banda canadiana não centrava em si especial atenção no festival, no entanto, parece-nos que a sua musicalidade fez um clique nos ouvidos de milhares de jovens, tendo em conta inundação humana que atestou o recinto. Estar de pé durante uma hora e meia a escutar melodias apenas instrumentais requer sempre um certo esforço da parte do público, ainda para mais sendo o terceiro dia de festival, depois de dois dias repletos de concertos, möshes e crowdsurfings. No entanto, os canadianos – e em especial o baterista Alexander Sowinski -, tornou essa missão, que à partida poderia ser complexa, numa experiência fácil e deleitosa, com uma troca constante de palavras queridas com o público. Como diz o ditado, é “dar para receber”. Foi precisamente isso que Paredes de Coura presenciou: uma cooperação genuína e mágica entre a audiência e a banda.

Em pezinhos de lã, o conjunto foi atravessando as terras do virtuosismo e da elegância, passando pelas pontes da ousadia e da irreverência, onde os senhores Coltrane, Mingus e Davis devem coabitar neste momento. Com a calma e segurança de um pai que segura o seu filho recém-nascido, o saxofone, o teclado, a bateria e o baixo vão-se fundindo num só instrumento, até ao ponto em que Sowinski transita de faixa. Estas metamorfoses musicais, lideradas pela bateria, ganham sempre na sua subtileza e perícia. Se num segundo nos encontramos com a lanterna no ar a escutar uma harmonia digna de uma viagem de canoa pelo Mediterrâneo com a nossa cara metade, no instante a seguir somos arrasados por um saxofone dos anos 30 brotando toda a sua revolta contra a supremacia racial branca. Com batidas jazzy, concomitantemente vizinhas do hip hop e da eletrónica, Alexander faz navegar o barco canadiano, espelhado no ecrã do palco. O timoneiro deste é Woodstock – dos Peanuts -, que rema o seu bar Colcheia no cenário mais badass que se poderia imaginar de uma personagem de banda desenhada.

Passeando pelos álbuns III e IV, os BBNG conseguiram criar um equilíbrio perfeito entre a perscrutação e entretenimento, com crescendos lindos e orgânicos, onde o público foi crescendo, literalmente, com eles. Começando de joelhos, os festivaleiros foram aguardando pelo tiro de partida até que, ao se ouvir o último número da contagem crescente de Alexander, os milhares de pessoas que se encontravam no recinto saltaram numa esperança de seguir o destino da música – a perenidade. Este momento de ansiedade e ejaculação musical deu aso às maiores ovações e agradecimentos por parte dos seus pupilos. Numa progressão frenética e alucinante, a banda foi responsável pela catarse de centenas de almas presentes em Paredes de Coura.

Num final saído de um conto de fadas, Chester Hansen (saxofonista) e Alexander adquiriram a forma de anjos e conceberam um dos momentos mais comoventes do festival. Dançando espontaneamente pelo estrado do palco, os dois amigos despiram-se de complexos perante milhares de ouvintes, findando num abraço simplesmente lindo. Este não foi um mero concerto: foi uma demonstração pura de humildade e amor. Sem qualquer tipo de pretensiosismos ou exibicionismos, os BadBadNotGood foram uma fonte de tudo que é bom no mundo, e de tudo aquilo que é bem-vindo à nossa existência.

BadBadNotGood @ Vodafone Paredes de Coura 2017