Bayonne, o pseudónimo do texano Roger Sellers, relembra-nos que a música e os seus paradigmas são alvo de constantes evoluções e mudanças, ainda que – e de certo modo -, nunca se perca a sua essência. Autor de três anteriores álbuns – Moments (2011, Pau Wau Records), 8 Songs (2012, editado pelo próprio) e Primitives (2014, Punctum Records), re-editado agora pela City Slang, Bayonne existe no oposto polar da música que se fazia, e ainda se faz,  que de tão experimental e ambiciosa requeriam um ensemble considerável de músicos, por vezes quase uma orquestra, para produzir e reproduzir os devaneios musicais que tanto fogem à formulaica música que tanto prolifera.

Bayonne, por si só, é o artista, a banda, o ensemble, a orquestra, o maestro. Fá-lo sozinho? Entra então aqui o paradigma da música moderna, aquela que não se conforma a uma fórmula ou estrutura, aquela que quer mais e mais porque ainda existe essa ilusão, aquela música que tenta e testa e experimenta e… sucede. Munido de um impressionante arsenal de sintetizadores, loopers, pedais, e toda uma restante parafernália, Bayonne tem uma invulgar capacidade de criar músicas que são dicotomicamente orelhudas e, no entanto, não obedecem a padrão algum do que é mais pop. O que produz, com singular efeito, são temas densamente populados de melodia, com a particularidade de numa atitude muito hands-on, a percussão e bateria estar a cargo do próprio – a sua grande paixão, amplamente confessa.

Bayonne é, além de tudo isto, além de ser um renascentista moderno, mestre de várias disciplinas, uma espécie de génio louco na veia de Owen Pallett, alternando entre esse experimentalismo e passando para o minimal de Philip Glass ou Steve Reich, há nestas experiências sonoras algo que co-existe entre o espontâneo e o sequencial. Algo que habita os espaços criados pelos padrões e a não conformidade a eles. E é algo que, como tudo o que tem o condão de nos tocar e nos fazer pensar e nos fazer sentir, como tudo o que nos faz questionar e olhar de outra perspectiva, de lançar uma escuta mais cuidada, quando finalmente estamos perante o resultado do desafio que nos é proposto, sentimo-nos então transportados numa viagem aural, pelos e através dos sentidos. Alquimia no século XXI, a audácia de experimentar e criar e ser tanto e tão mais apenas numa pessoa. Bayonne será, certamente, um nome a ter em consideração.

Em apresentação, o tema “Waves”, avanço para re-edição de Primitives, pela City Slang.