Estamos num sábado fresco de Fevereiro. O vento sopra, o chão ainda se está a enxugar da chuva da tarde e as pessoas nocturnas que povoam o paraíso do ócio que é o Cais do Sodré mantêm-se debaixo do tecto de estrelas devidamente bem agasalhadas com um sortido variado de coloridos casacos e anoraks. Mesmo assim, não está assim tão frio e está uma noite agradável para apanhar o fresco ar lisboeta. Igualmente convidativos estão o ar quente e a música cheia de alma provenientes do carismático Sabotage Club. Não se está aqui mal, mas lá dentro vai ficar-se melhor.

Esta noite está preparada a apresentação em Lisboa de Black Bottle, o primeiro longa-duração dos bracarenses Bed Legs. Provenientes dessas terras tão musicalmente prolíferas, o grupo entrega-se à missão de manter o blues bem vivo e sem rugas, oferecendo-lhe a vitalidade sonora dos tempos modernos e apoiando-se em riffs certeiros e numa voz cheia de soul. Os ritmos quentes que trazem lá de cima não se poderiam sentir mais casa em Lisboa do que no Sabotage, pelo que o espectáculo que se viu esta noite sofreu exactamente os efeitos opostos do ‘factor fora’.

Mas antes de lá se chegar, o clube nocturno ainda tinha algo para o seu público. A abrir as festas surgiram os Crude. Quem nunca tinha ouvido falar, rapidamente ficou a saber sem grandes dificuldades. Embora a t-shirt dos Sleep envergada pelo guitarrista já pudesse dar alguma dica, bastou esperar pelo primeiro riff e o ressoar das baterias para se perceber que Palm Desert estaria a cozinhar uma tempestade de areia até Lisboa. Os Crude são um inventivo trio de stoner rock que aparece assumir activamente a herança dessa California notória.

Com uma dose bastante avultada de textura e aspereza, os Crude soam, ainda assim, extremamente soltos e dinâmicos, o que nos leva mais a uma herança dos eclécticos Yawning Man do que propriamente uns Kyuss ou até os homenageados Sleep. A percorrer quilómetros embalados pelo ritmo da bateria, a música deste trio é espaçada e extremamente airosa, com as linhas de baixo a atingir papéis e decibéis proeminentes e os riffs de guitarra a abrir gigantes fendas para entrar ar e imaginação instrumental.

Ou seja, uma banda de stoner que, por fim, não tem medo de explorar outras fronteiras mais exploratórias e exóticas na vez de estar sempre a construir os seus temas na repetição intensiva de motivos. Simultaneamente progressivos e outras vezes mais arrojados e imprevisíveis na forma como tratavam as tão necessárias alterações de dinâmicas nos seus longos temas, os Crude deram um espectáculo muito divertido e cheio de entretenimento, adquirindo o estatuto de uma muito impressionante surpresa.

Claramente inclinados a fugir às regras e a pensar bem longe da caixa, esta transgressão mostra-se também na confiante atitude com que agarraram o palco. Nota especialmente para o baixista, Ivan do Carmo, que realmente foi um autêntico furacão no palco e um fornecedor dedicado das mais variadas metal faces que fizeram dele uma presença absolutamente simpatizante e igualmente divertida. Também eles bem familiares e integrados no espaço, justificaram todo o flare com uma perícia e pujança de grande nível, com uma performance que nos pontos técnicos foi invejável e bastante irrepreensível por parte destes músicos claramente bastante talentosos.

Foram portanto, uma descoberta valorosa nesta noite de Cais e uma banda de stoner lusa para a qual vale a pena direccionar os olhos e ouvidos. Confiantes, com um som polido, musculado e bem trabalho, estes rapazes são Crude só de nome, porque o trabalho aqui está refinado.

Chega então a hora de subirem ao palco os anfitriões da noite. Encarrilhados numa tour nacional e a beber vivamente da garrafa preta do lançamento do seu primeiro álbum, os Bed Legs chegam a Lisboa com toda a pica e garra e cumprem o objectivo para o qual estavam decididos: conquistar o Sabotage. E foi com nota artística.

Com Helder Azevedo no baixo, Tiago Calçada na guitarra, David Costa no kit e Fernando Polícia na voz e, ainda, um convidado especial nas teclas, o grupo lançou-se ao minúsculo palco do clube e esticou-o. Esticou-o, pois a energia que dele emanava transbordou para o público, absorveu-o e entranhou-se nele, dando ao espectáculo um cariz familiar e próximo onde a presença da banda era assertiva inevitável. Durante uma hora não houve canto de Sabotage que não fosse Bed Legs.

Apoiado obviamente em Black Bottle, o alinhamento do concerto foi entregue em exímio brio e brilhante qualidade sonora. Os familiares e históricos motivos do blues e do soul ecoaram pelo clube num registo fresco e corpulento e escorreram como mel ao longo de canções como “You Girl”, “Wrong Man” e a potente balada “Black Bottle”. Em muitos aspectos, e fruto simultaneamente do desempenho da banda e das circunstâncias espaciais e temporais, este era o concerto que se queria e o concerto que se precisava.

Os Bed Legs são uma banda sem grandes enigmas. Não há grandes cerimónias, grandes intricarias nem grandes efeitos. Fazem o seu próprio rock’n’roll e fazem-no bem, entregando-o a horas e bom tempo. Mas isto não quer dizer que estejam desprovidos de cor, principalmente no que toca à persona de palco dos seus membros. Fernando Polícia é um frontman exemplar e refrescante no panorama português precisamente por já ser uma espécie em extinção. Esperneia-se em palco, pula, abana a anca e abana o rabo. Entre abraços a membros do público e correrias pelo espaço que tem, já muito suor tem expelido do corpo. E depois canta. Muito bem.

Realmente um dos aspectos mais ricos dos Bed Legs cai sobre não só o quão genuinamente carismático é o homem da voz (a par do baixista e mais velho membro da banda, Hélder, cujas intervenções genialmente fora de tom conferem ao grupo uma aura muito charmosa de irreverente banda punk da década de 70), mas também o quão bom é o referido aparelho vocal. Os uivos calorosos e as harmonias deliciosas a sair da voz de Ferna são incontornavelmente boas e fazem lembrar o quão importante pode ser ter um vocalista que canta deveras bem.

Recebidos por um público extremamente receptivo e amigável e com direito até a um conjunto de bailarinas bem equipadas com as t-shirts da banda, os Bed Legs apresentaram-se como são, em contas simples de somar. O produto foi um concerto energético, bem ritmado, profissionalmente executado e banhado em alma. Partindo do blues, os Bed Legs pintaram o caneco do Sabotage com uma torrente eléctrica feita de saborosos riffs onde uma voz prodigiosa sobre eles cai para produzir um conjunto dinâmico, bem temperado e estimulante. A missão destes rapazes é clara: trazer a diversão e expurgar as mágoas. E conseguiram impressionar ao fazê-lo.

As imagens de Ana Santos estão aqui em baixo na fotogaleria completa.

Bed Legs + Crude @ Sabotage