Com o término da residência de Volúpia das Cinzas, trio liderado pelo baterista Gabriel Ferrandini, surge naturalmente um espaço livre na rica programação da Galeria Zé Dos Bois. Para o preencher – e não substituir, pois trata-se de uma proposta claramente diferente -, ninguém melhor que Norberto Lobo. Ainda com os ecos experimentais de Muxama a reverberar bem frescos, Norberto olha já para o que aí vem como quem pensa no acorde seguinte num momento de improvisação.

Para o acompanhar nesta nova viagem, Lobo conta com o baterista Marco Franco e o violoncelista Ricardo Jacinto. Em trio, Norberto transcende a etiqueta de simples guitarrista, com os músicos a fundirem-se numa unidade onde impera a cumplicidade musical e desejo aventureiro, para além do requinte técnico. Na prática – e no palco -, cada um alimenta o seu instrumento da música que emana dos outros, até porque falamos de três indivíduos com percursos e backgrounds distintos que resultam numa discussão instrumental interessantíssima de testemunhar. Pelos contornos mais gerais, percebem-se na bruma (pelo menos) dois caminhos de composição.

No primeiro não somos surpreendidos, pois Norberto tece a continuidade natural de Muxama (“Figueira” fez a ligação passado-futuro), remetendo para uma ideia de exploração, mas sem o psicadelismo frequentemente associado, o calor das cordas e a humidade dos pedais a suscitar imagética mental mais tropical do que espacial, menos levitação e mais de flutuação num oceano de reverb. A percussão actua como o suave balançar do barco, onde há espaço para a bagagem jazz de Franco se esticar e encetar a coordenação com o violoncelo (que nesta analogia seria qualquer coisa como os braços e remos que sempre levam a embarcação a bom porto).

Norberto Lobo @ Galeria Zé Dos Bois

Mas como compor em banda traz uma montanha de variáveis que não se desbastam por um homem só (com uma guitarra, vá); na Galeria foram apresentados alguns temas – ou esboços de –, que nos levam a um sítio pouco cartografado na obra de Norberto – um lugar onde o há tempo para o groove e cabeças a abanar, ali mesmo ao lado da improvisação de arco na guitarra como no violoncelo (alguém que empreste um também ao Marco… fica a ideia). Tudo isto foi executado com vislumbres de intensidade muito pontual, mas há qualquer coisa de belo numa máquina que funciona sem chegar sequer perto dos próprios limites, como uma aparelhagem de centenas de watts a debitar um sussurro ou um automóvel desportivo americano a borbulhar a ritmo de passeio.

O que esta dinâmica deixa transparecer é a beleza etérea das composições em si, sem dúvida uma constante na obra de Lobo. E se o conceito de beleza é pouco linear (estamos a falar de música, afinal), o melhor será testemunhar em primeira pessoa. O convite foi feito pelo próprio Norberto: “venham daqui a um mês, que vai estar diferente.” Como a sua música. Não deixem passar, pois estamos a falar de uma oportunidade rara de espreitar para a janela enevoada que é a feitura de um álbum, assim como mais uma prova da importância da sala do Bairro Alto como catalisador cultural do melhor que se faz por cá.