Benjamim - Auto Rádio
70%Overall Score

Há discos que, para poderem ser apreciados, têm que ser compreendidos, ou melhor, dependem da empatia gerada por se conhecer os momentos artísticos e/ou existenciais dos autores. Porque há viragens existenciais que determinam mudanças artísticas, como há mudanças de paradigma artístico que impõem variações estilísticas concretizadas em discos. E tudo aquilo aconteceu para a produção de Auto Rádio, ao artista antes conhecido como Walter Benjamin, que após quatro anos em Londres e um longo período produzindo em Inglês, se instalou no Alentejo profundo, passou a assinar como Benjamim e experimentou escrever um álbum na língua materna, a Portuguesa. Com mérito!

Após a introdução “Eu Quero Ser O Que Tu Quiseres” – um único verso sussurrado várias vezes, cuja desprendida abnegação inspirou a réptil melodia em estilo dub -, o Auto Rádio vai ao carinhoso “Tarrafal”, que é um tranquilo cliché (lolli)pop, com batida yé-yé e ébrias notas de metalofone, para o auto-retrato de um submisso satisfeito, no compromisso com uma mulher dominadora que “manda em mim, eu nunca irei mandar” e que tem como único objectivo “sobreviver ao Tarrafal”. O psicotrópico troço inicial continua com o interlúdio instrumental “Sintoniza”, que começa como uma bossa nova contemporânea, regida por acordes de guitarra wah-wah pontuados pelo metalofone, mas termina como um funk futurista no qual o másculo baixo é harmonizado com o sintetizador e os teclados electrónicos. E a ‘boa onda’ musical acaba na pop ligeira de “Os Teus Passos”, primeiro single do álbum, uma declaração de dependência emocional – “Quando os teus passos andam para trás, eu não vivo mais” -, que pela sua ostensiva indigência artística representa de facto o ‘geist’ do Auto Radio.

A meio do disco, “O Quinito Foi Para A Guiné” e “O Sangue” são um comovente interlúdio folk, quase monográfico, da família de Benjamim. A primeira é uma balada quase alt-country, estruturada por trio de baixo e bateria e guitarra acústica, com solos de guitarra eléctrica e ornamentos de sintetizadores; a letra, mais sociológica que política, é sobre um amigo do pai de Benjamim que não pôde ver o nascimento do filho, porque foi embarcado para combater na Guiné (durante a guerra colonial), da qual regressou para a pátria desorientada, com a economia logicamente perturbada pelo período revolucionário. “O Sangue” acaba por ser um complemento sequencial da canção anterior, sobre um jovem adulto que, num país estagnado, emigra para a América do Norte, acabando por voltar ao pobre Portugal, porque ‘o sangue’ foi mais importante que a ambição profissional; balada tocada só com guitarra acústica e com harmonias vocais que lembram Zeca Afonso e Simon & Garfunkel, “O Sangue” é uma das melhores canções do álbum.

Um fugaz lembrete da matriz instrumental do Auto Radio é feito com “Meteorologia”, instrumental mais desconectado que desconexo (introduzido pelo locutor Pedro Ramos), porque antecede “Volkswagen”, que é um assumido tributo musical à clássica “Sempre Que O Amor Me Quiser” de Lena d’Água, além de uma quase brejeira declaração de Amor, proferida por um apaixonado jovem adulto mesmo assim tão pessimista que crê que irá “sempre ficar na mão” por obedecer à sua exigente companheira. “Rosie” – introduzida como “um clássico de 1973” – vai ainda mais longe que a canção anterior: cantada em dueto com um dos seus autores (AP Braga, um trovador do 25 de Abril), foi musicalmente recreada quase como uma acústica versão folk da psicadélica “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos The Beatles.

Caminhando para o final do álbum, “Do Céu E Da Terra” talvez tenha a melhor letra de Auto Rádio; a afirmação “Eu vou, mesmo que não vás” sugere um momento definitivo de um relacionamento, no qual alguém decidiu dar um passo sem depender da outra pessoa; é mais uma balada pop-folk clássica, com pinceladas arrastadas de sintetizador e um final que culmina num assertivo solo de guitarra eléctrica que parece representar a convicção do sujeito disposto a ir sozinho. A faixa que deu o título ao Auto Rádio é a melhor canção do álbum: iniciada em ritmo de bossa nova, para ambientar a conversa casual no arranque de uma ‘escapadinha’ automóvel no sentido do mar, evolui para arranjos de sopros jazzy e psicadélicos apontamentos de sintetizador que introduzem a sugestão “Liga o auto-rádio, que isto é para tocar”, antes de acelerar para o retorno espiritual à descontração do início do álbum, com abordagem musical e escolhas instrumentais semelhantes – obviamente, uma canção que sintetiza quase todo o álbum, na sua intencional displicência. No final do disco, “O Exílio” é a politizada constatação de um relacionamento amor-ódio com Lisboa, que forçou um “exílio que teima em não acabar”, porque afinal Lisboa ‘é’ Portugal, que nas palavras de Benjamim, “levaste a minha geração para longe, traem-te a Constituição de perto, mas não há mais com que pagar”; o desencantamento, coerentemente veiculado por uma terminal melodia soturna.

Auto Rádio é o produto de um voluntário alheamento parcial, mais físico que cívico, languidamente entre o campo de Alvito e a marginal da Parede, entre os sais da terra europeia e o sal do mar sul-americano, entre a folk dos trovadores do 25 de Abril e a electro-pop tropical(ista), que também poderia ser cantado com sotaque brasileiro.