Só não se dançou porque eram confortáveis os assentos que ocupavam a plateia do auditório do CCB no CCBeat do último sábado, poucas horas após uma quente tarde de Outono tão propícia a escutar-se a música de Benjamim. De facto, quando a Tracker publicou sobre o Auto Rádio do português, concluimos que a soma das partes valia mais que o todo: a menor coerência que sentimos no álbum foi compensada pela grande qualidade da maioria das suas canções. Ainda melhor; a maior parte daqueles temas pareceu ter potencial para brilhar mais ao vivo, apta para integrar improvisos e arranjos adaptados para puxarem pelos ânimos de jovens almas.

Ora, a música de Benjamim já tinha provado os seus méritos de palco. Damos, como exemplo, o bom concerto que ele e a sua banda conseguiram dar ao ar livre numa das tardes do último Super Bock Super Rock. Por isso, uma das curiosidades no CCBeat do último Sábado, era observar como a informalidade sensível do Auto Rádio seria acolhida num auditório institucionalizado como são os do CCB. E o Luís Nunes – que antes assinava Walter Benjamin -, mostrou que ia com a lição bem estudada antes mesmo de começar a tocar. No centro do palco, três cubos iluminados por coloridas luzes intermitentes deram um ar clubbing à sala, adornando com jovialidade o austero espaço onde não se viu grande contraste entre os fãs de Benjamim e o habitual público do CCB.

Começou de mansinho o concerto, com a conciliadora “Eu Quero Ser O Que Tu Quiseres”, introdução quase reggae que abre o Auto Rádio e que, dominada pelo psicadelismo pacificado(r) dos sintetizadores, facilmente derreteu qualquer gelo emocional que pudesse arrefecer o público. Recebidos os primeiros aplausos, a banda com João Correia na bateria, Nuno Lucas no baixo e Tony Dias nos teclados, além dos tocados pelo próprio Benjamim, continuou fiel ao alinhamento do álbum espalhando amor abnegado na pop quase juvenil do “Tarrafal”, iniciado com a gravação ao vivo dos riffs de guitarra que foram o eléctrico loop de fundo para a rendição do tema. E muito ‘pezinho’ se bateu naqueles minutos, evidenciando os corpos sentados que a apaixonada euforia de “Tarrafal”, apesar de tranquila, tem energia suficiente para fazer dançar em plateias livres de cadeiras. Aliás, no palco, enquanto tocava o baixo, Nuno Lucas era a irrequieta prova de que o CC já estava pleno de Beat.

Benjamim @ CCB

Há surpresas que quase valem o bilhete

Saudado o público com um informal “Estão fixes?”, Benjamim apresentou os camaradas de palco e anunciou “Esta é nova, portanto tem todas as probabilidades de correr mal”, mas… felizmente não correu. Nem sequer correu, porque “Ela dança com os tubarões” uma new wave tipicamente dançável que as referências automobilísticas da letra sugeriram ter sido inspirada em andanças nas estradas desafogadas do litoral alentejano. Naquele plausível single dominado pela secção rítmica, destacou-se o baterista João Correia, num coordenado modo ‘caixa de ritmos’ que completou em velocidade de cruzeiro o início do espectáculo. Com duas canções, a banda justificou o convite para tocar no CCBeat, e Benjamim já tinha crédito para revelar o seu ecletismo vintage em temas menos ritmados. Foi a oportunidade para tocar a country de “O Quinito Foi Para A Guiné” – segundo o músico, tristemente um dia antes de o filho nascer -, e, trocada a guitarra eléctrica pela acústica, dedicar aos pais “O Sangue”, folk pastoral acompanhada só por teclados que quase inevitavelmente mereceu um comovido aplauso mais longo do público. E esse foi o retomar da sequência do Auto Rádio, reforçando a intuição de que foi ordenado pensando nos concertos que o têm promovido.

O regresso da secção rítmica após o momento familiar do concerto ficou marcado por outra amostra de bom humor de Benjamim que anunciou “VolksWagen” dedicando-a ao seu próprio VW – “na oficina há dois meses” -, e confessando que “talvez gostem desta, porque tem uma batida gamada à Lena d’Água, piada rapidamente levada a sério quando, após a introdução “Meteorologia”, a percussão sintetizada de “Sempre Que O Amor Me Quiser” começou a massajar as cabeças pousadas nas cadeiras macias, mas foi a partitura groovy do baixo a enrolar-se dengosamente nos ouvidos como se fosse um dos apaixonados corpos no habitáculo do “VolksWagen”. O público relaxou tanto que entre canções, quando Benjamim se dirigiu para o piano atrás dos outros teclados, nem estranhou Tony Dias ter baixado o seu microfone que não parecia ir ser usado. Ilusão! Enquanto Benjamim reatou “VolksWagen” no piano, subitamente a histórica Lena d’Água entrou no palco para resgatar a sua “Sempre Que O Amor Me Quiser”, reanimando o estupefacto público que lhe tributou um imenso aplauso, antes de a cantar com o duo.

Como foi bom (re)ver Lena d’Água! Mesmo em jeans e sweatshirt informais, tal como o astral de Auto-Rádio, a veterana espalhou todo o charme que ainda consegue exibir em palco. Sentou-se no banco do piano com Benjamim e ofereceu aquele seu timbre acetinado, ainda intacto, que seduziu as três gerações na plateia numa reverente interpretação do tema. Só aquele momento vintage quase valeu o bilhete, mas Benjamim tinha planeado reforçar a comunhão de gerações: chamou ao palco “outro amigo” e apareceu o ancião AP Braga, cuja presença anunciou a redescoberta “Rosie”. E ambos contaram como se conheceram num jantar e como aquela cantiga foi acidentalmente descoberta por Benjamim “numa cassete cor-de-laranja” que o trovador do 25 de Abril perguntou se ele podia digitalizar, antes de toda a plateia a acompanhar com palmas – tal como no Super Rock – que expôs quão jovem a voz de AP Braga ainda soa como se ele fosse um quarentão filho dele próprio.

Final tranquilo para estimular consciências

Foi já sem convidados no palco que Benjamim apresentou “Auto-Rádio”, voltando a agradecer a presença do público com o lembrete “ainda por cima hoje é o Dia da Música”. Amor de artista, oleado pelo baixo e temperado pela bateria para um cafuné musical em jeito de samba-canção que Chico Buarque cantaria com gosto, que convidou a alucinar praias e estradas com vista para oceanos. Toda a banda se recreou na psicotrópica jam final, perfumada pelos sintetizadores, e Benjamim aproveitou para tocar ao lado de cada parceiro antes de o baterista João homenagear o jazz tão assíduo no CCB com um animado solo. E “quando os teus passos andam para trás”, o quarteto foi recuperar o que faltava do alinhamento do Auto Rádio na ligeireza pop de “Os Teus Passos”, à qual sucedeu “Sintoniza”. Não é à toa que aquele (quase) instrumental é a segunda faixa mais longa do álbum: tema forte, começou por preencher os interstícios dos ouvintes com o ondulante jogo de cintura dos sintetizadores tropicalistas mas, foi no final, quando a secção rítmica exibiu a sua ginga no carismático funk, que muitas pessoas se agitaram nas cadeiras e toda a plateia rendeu um entusiasmado aplauso aos músicos que, em medley, foram acalmando gradualmente os ânimos durante a longa transição para “O Exílio”.

Das duas canções do Auto Rádio que estavam por tocar, o conformismo da politizada “O Exílio” fez supor que o concerto não teria encore, já que dificilmente aquela declaração bluesy de amor masoquista por Lisboa fecharia um alinhamento. Porém, confirmando o potencial das canções do álbum e a perícia de Benjamim como produtor, a banda desenrolou mais uma pequena jam session durante a qual o líder empolgou a plateia arranhando a guitarra em riffs exaltados antes de se despedir com “o mês está a acabar” que encerra a canção. Só que a banda teve mesmo que voltar a tocar, porque o público gostou tanto que, para escutar mais canções, pateou como se estivesse nos circenses Coliseu ou Campo Pequeno. Visivelmente satisfeito e confiante, Benjamim anunciou “uma nova, mais ou menos, sobre o fim do mundo, que é pessoas darem à nossa costa e serem mandadas para a Turquia. Mais tarde, poderemos ser nós…”. Foi um estímulo às consciências presentes no auditório que o quarteto concretizou numa contemporânea folk de intervenção sintetizada em coro com Tony Dias numa empática conclusão:

Terra firme, só, não vale! Porto seguro é não ter medo.

E sob um torrencial aplauso veio o aviso mais indesejado: “Esta é mesmo a última canção. Nunca a tocamos porque é mesmo pirosa.” Mas à boleia de gargalhadas na plateia Tony retorquiu: “Não é nada! É porque nunca corria bem.” Benjamim lá confirmou: “É verdade, acabámos por tirá-la da setlist.” Mesmo assim, regressado ao piano, começou a tocar “Eu Vou”, a canção em falta de Auto Rádio e o público cheio de fãs não só gostou como instantaneamente cantou o convicto refrão em coro! Estava provado o triunfo do Benjamim no CCBeat. O próprio sentiu o público e a banda tão cúmplices que, ao nomear cada técnico e voltar a apresentar os camaradas de palco, brindou Nuno Lucas com a piada “No baixo, sempre a dançar; belas camisas; má disposição antes do jantar, boa disposição depois do jantar…”, espalhando gargalhadas por toda a plateia. Para completar o elenco, reentraram no palco AP Braga e Lena d’Água que assumiu a condução do público no coro e nas palmas que foram atrás da banda até aquela parar de tocar. No rescaldo, Luís Nunes ainda agradeceu a outras pessoas que têm apoiado o projecto Benjamim quando estavam confirmadas duas certezas: as belas canções de Auto Rádio convencem em ambientes muito diferentes e a aposta no lusófono Benjamim está evidentemente ganha. Sem as cadeiras, teria havido baile!