Haja palavras para contar histórias como a de Benjamin Clementine. Curta nas páginas mas pesada e carregada nos poemas. Uma personagem aparentemente refractária que inspira paixões, uma caracterização humana aparentemente ambígua no misto de superioridade e distanciamento triste. Das ruas até ao maravilhamento foi um passo. Breves poemas de intensidade escritos à velocidade do nosso século, num desassossego difícil de explicar. A história é já sobejamente conhecida e o Uncle Google pode contar tudo à velocidade de um click.

Clementine é, acima de tudo, um artista fragmentário. De um lado a imponência do seu trabalho e de um talento inegável e incomensurável, do outro lado a fragilidade humana e as histórias das vísceras de Benjamin. Tivessem os espelhos mais que dois lados e afirmar-se-ia que haveria ainda mais um fragmento. O da relação do artista com o exterior.

No regresso ao Coliseu Clementine, além de um quinteto de cordas e do baterista Alexis Bossard, traz consigo todos eles. Um palco cheio dos vários Clementines. Vem, soturno e no escuro, sozinho com apenas um piano, a sua voz e a canção que abre a noite. O que será um novo tema cai suavemente sobre a sala como uma pequena chuva numa manhã de despedida do soldado que embarca em direcção a uma terra distante. Em preto e branco. Em filme antigo. Breve como a sua história.

Daí em diante tudo cresce. A voz que diz “it’s a wonderful life” e arranca para “I Won’t Complain”. O Clementine que é uma criança feliz com o nada e com o tudo que tem. O homem que avança ao som do beat orgânico de “Condolences” – os arranjos rítmicos de Alexis cunham as composições do Englishman in Paris de um algo mais que não faz parte dos universos de Clementine, trazendo à memória futura o que poderia a arte de alguém como um Trentemøller fazer a estes temas. Collab já, please! –, para o desfilar sobrenatural da sua voz através de um salão imenso de gente. Como quem conta uma história de vida a desconhecidos próximos ou como quem apenas os prepara para uma morte anunciada. A silhueta de Benjamin recorta-se na luz branca e no escuro do palco e da vida. Um homem morto depois de um ritual de voodoo que volta à vida com o propósito de contar ao mundo o que é a vida e a morte e no final… apenas levar as suas vítimas para além da existência. Com toda a candura de uma figura diabólicamente suave disfarçada de entertainer brilhante e encantatório, o piano-man no lobby ou no casino de um hotel com vista para inferno ou no cabaret fumarento que fica na esquina de Camden com o limbo e o purgatório.

“Adios” e as suas fases da lua colossal e a presença das mil vozes de Clementine prosseguem com o encantamento que é colocado nas peles e almas condenadas a seguirem este Mephisto talhado em Onix. “I waited but no one came!” Mentira, a vitória e a visão são todas tuas, demónio vestido de Sir das Ruas. Lado a lado com “Nemesis”, que na sua marcha e no pulsar vocal de Sainte-Clémentine, nos encaminha noite dentro, nos empurra noite dentro. Se há um suave e ébrio perfume a traição e vingança no ar, é porque ele existe mesmo. Mas o travo acre das palavras é mascarado de formas que nem Veneza tem coragem de desmascarar. Chorem os amantes traídos que o espirito de Nina Simone anda à solta.

“London” é “London”. A cidade das vitórias e da incerteza. O berço que tem de ser destruído. Conseguem imaginar Clementine inseguro junto ao Thames de pautas na mão? Com um salão cheio de gente como é este Coliseu esta noite… Não, claro que não! Mas é. Este homem imenso de fala frágil e cantigas pungentes não engana. Está mas não está, conversa mas sem certeza, graceja mas de forma fugidia e afirma sem contemplações que não sabe o que há-de dizer. Nunca nos planos esteve este tipo de vitória, nunca nos sonhos esteve este tipo de magnitude e atenção em torno das suas composições. Apesar de afirmar que só queria era levar a sua música às pessoas, agora que as pessoas lá estão ele dificilmente as quer lá, ao mesmo tempo que um tímido e grandioso sentimento de agradecimento se sente na sinceridade transparente. Não será uma personagem fácil de interpretar para este singelo enorme homem de pés descalços e pose de aristocrata. Mas “Cornerstone” pode bem ser a resposta. Pode falar de Paris e das suas ruas que adoptou ou pode-nos cantar sobre o palco.

This is the place I know I now belong
Its my home, home, home, home home home home home

E o sentimento de Lar é realmente algo de presente. O piano, as tábuas do palco que substituem as tábuas do caixão. O Oliver Twist negro adoptou as teclas e as tábuas como a sua casa.

Once a devil; twice a lover Twice a lover; once was I Once was I; once had you Once lost you; twice lost I.

Estas palavras apresentam mais um tema escondido do repertório de Clementine. Partilhadas em Agosto de 2014 pelo próprio na sua conta de Twitter, dão a entender que pode haver mais algumas coisas por revelar da alma e da pena de Clementine. Tanto blues, tanto escuro, tanto sentimento de algo externo que ganha força sobrehumana. Será que por momentos Benjamin vendeu a alma a Robert Johnson? Não. Simplesmente porque Hendrix matou o diabo num ritual de voodoo. O tema de Jimmy Hendrix clama às teclas do piano de Clementine a poesia da loucura e ao mesmo tempo mostra a paz que existe no meio do furacão. Quem diria que “Voodoo Child” poderia ser este mar de jazz, de romance. Cantar a loucura e fazer dela romance é apenas para ninguém… e para Benjamin Clementine. Ou não, porque o jazz novamente toma conta da criança-filha de Papa Legba e entre a morte e o romance Clementine conta-nos sobre o ínicio do mundo, do seu mundo, das suas raízes, de quem antes dele abriu caminho a quem ele é. É gospel do demónio, quase sangue, quase rosas.  Nenhuma das covers que faz vem sem um sentido mais profundo. Mais que um tributo são uma explicação da sua obra.

O encore vem, a ausência dos corpos de Clementine, de Alexis e das cinco meninas e das suas cordas é sentida por breves momentos. A ausência curta substituída pelo rufar das palmas da mãos, pelos urros de estádio, pelos pés que batem nos chão. O clamor da idolatria que parece vã e estranha aplicada a este Nightmare Before Benjamin’s Christmas.

O regresso. Clementine traz consigo uma outra criança. É realmente curioso pensar e constatar  que Benjamin, do alto das suas trevas e da sua imponência, carrega em si crianças, tantas crianças. Está no olhar, está na postura do menino descalço que brinca na rua. Benjamin brinca com o seu piano, as suas palavras. Pára, observa o que o rodeia como quem ainda descobre algo de novo. E volta… volta para brincar com o seu piano de não-brincar e as suas palavras de não-brincar. Clementine volta do encore com “Winston Churchill’s Child”. Este puto, filho de Churchill, é ele mesmo. O menino que abandona a sua terra para ser verdadeiro, para ser profeta, para ser vivo. Algures no tempo a alma de Benjamin foi também um escravo nos campos de algodão, algures no tempo a América foi ele. Mas agora é aqui e é nosso. E nem ele nem nós sabemos o que aconteceu para tudo isto ter acontecido. “How Did We Get Here” é outro inédito. Mais soul, tão suave que podia ser pop mas não é. Podia ser o genérico alternativo de Hill Street Blues, podia ser Isaac Hayes ou Marvin Gaye sem o glamour do funk. Mas é Clementine… tão somente e tão especial.

E mais uma versão sobe ao palco do Coliseu dos Recreios. Clementine diz que sabe umas músicas portuguesas e tira Seu Jorge da cartola. Magia ou truque para agradar só ele o saberá. “Tive Razão”, num português quase sempre incompreensível para nós e também para ele. Ou quase de certeza que não, se pensarmos nos paralelismos que existem entre os dois músicos. As ruas abrigaram os dois, a tragédia andou sempre por perto, a música é e foi e sempre será a sua salvação. Coincidência ou truque de magia? Com certeza que não. O conhecimento da história e do seu Seu Jorge. O momento que foi tornado numa paródia por um público sedento de idolatrar de qualquer forma terá sido mais uma das maneiras de Clementine mostrar quem é, quem o inspira, quem o fascina e quais são as mãos que moldam as suas peças. Benjamin Clementine diverte-se com o momento… e termina com uma frase de desconsolo, “So I’m playing to dead people”. Os dois extremos do homem. Os dois lados do espelho com três lados.

“The People & I” é beleza pura, um tratado sobre um amor acabado substituido exactamente pelo amor do público. A dualidade constante entre a paz e a tormenta, o ficar ou o criar e partir. Nada mais a acrescentar. É ele e as pessoas e a solidão e os arranjos de cordas absolutamente indescritíveis. Final do encore. Final do concerto. Benjamin pede as luzes acesas, ver além do espelho, chamar o quinteto de cordas à boca de palco. O amor é mútuo apesar do vidro do espelho ser denso.

Um longo tempo, pessoas que saiem da sala, os aplausos, os cânticos do futebol, a estranheza do ambiente. E ele volta. E ele traz bolinhos e chá. “St-Clementine-On-Tea-And-Croissants” é Benjamin de volta aos tempos da escravatura e dos senhores feudais, ao mesmo tempo é Benjamin na corte francesa, é o misto, o híbrido, o camaleão operático, o bluesman favorito de Antonin Artaud… é Benjamin Clementine. Para terminar… “River Man” de Nick Drake. Bonito, tão simplesmente bonito mas longe da intensidade bucólica de Drake. A voz de Clementine não foi feita para ser ouvida junto ao rio, nos barquinhos de madeira banhados na luz ténue de Inglaterra. Fica apenas mais uma das inspirações de Clementine.

Um longo “Adios” entoado com o público num jogo de vozes intercaladas que termina num sentido “Obrigado” e Benjamin sai. A interacção e o domínio de Clementine sobre os súbditos. Era aqui e agora que este Mephisto nos encaminhava a todos para o outro lado…. e nós íamos.

Benjamin Clementine @ Coliseu dos Recreios