Desde que “River” ecoou pela atmosfera digital e se tornou um fenómeno nas plataformas de streaming, que Bishop Briggs foi catapultada para a dianteira de novos artistas a manter no radar com especia  atenção. Sarah McLaughlin, nome de baptismo de Briggs, viveu a sua infância e adolescência em Hong Kong, local onde a cultura e a arte do karaoke despertaram uma paixão pelo canto e o seu talento como compositora.

A sua voz gutural, oriunda de um qualquer inexplorado e inalcançável espaço entre a garganta e as cordas vocais, moldam-se de forma perfeita às emoções profundas da batida soul e gospel que estão na base das suas canções. Briggs incorpora uma mistura de letras poderosas, uma voz que desafia o ouvinte a enfrentá-la quando dispara as emoções através de refrões certeiros e um equilíbrio assombroso na forma como transcende as limitações de uma mescla de géneros base para criar um som singular.

A mistura de sabores de raiz soul e o blues, a apuração do aroma sonoro com a folk, o gospel e a robustez de umas impertinentes batidas hip hop, são as fórmulas com que constrói o seu universo. É essa elaborada e inteligente maneira como desfaz os pré-conceitos em relação a novas formas de moldar a seu bel prazer estilos numa estratégia musical muito própria, que reside o cada vez mais crescente fascínio pela artista.

Em Abril de 2017 surge o seu EP homónimo pela Island Records, no qual os singles até à data lançados recebem uma estrutura limpa e arrumada para mais facilmente se poderem navegar na corrente viciante de cada ponto de exclamação com que os ritmos, a força do blues e a presença energética da sua figura e voz fazem reverberar os órgãos internos.

Don’t you say
Don’t you say.
One breath, it’ll just break it.
So shut your mouth and run me
Like a River.

“River” foi meticulosamente pensada e construída para se tornar num hit instantâneo. O tema contém em si a fórmula matemática do sucesso: um refrão cativante, o bater de pés e palmas a marcar o compasso, lembrando o “We Will Rock You” dos Queen, um coro poderoso que se une em perfeita sincronia com a potência grave da voz de Briggs e uma batida crua, agressiva e tão emocionalmente expressiva que evoca imagens de uma celebração sincera às antigas raízes do gospel.

I can be your heartache,
You can be my shame.
When you’re feeling reckless,
Qhen you’re feeling chained.

O inicio de “Dark Side” faz-se com uma suavidade imprevista e envolvente como se através de uma suave bruma em forma de sussurro estivesse prestes a contar o que lhe quebrou o coração. As variações vocais, os riffs soturnos do baixo ou a batida electrónica com que acentua a intensidade das letras transforma de forma quase fatal as suas composições em armas de arremesso emocionais. E através destes estalos que deixam marcas na pele reconhece-se aquela rara habilidade de um artista catapultar a atenção para o som que criou e ao mesmo tempo, de forma algo camaleónica, distorcer a percepção pré-concebida de que a música é suposto ser linear do início ao fim.

Em “Wild Horses”, apesar da premissa de abertura sintonizar a atenção para os domínios de intensidades mais dramáticas da dark folk num piscar de tímpanos, recebe-se uma pulsante linha retumbante da bateria, criando um triunfo de (sobre)vivência energético e cativante. Um postulado em forma de canção que remete para uma planície sonora aberta, na qual absorvidos pelos beats imparáveis a marcarem o próprio ritmo do coração e de forma deliciosamente incongruente, se é igualmente cercado de calma e ar fresco para poder gritar a plenos pulmões que se sobreviveu a esta tentativa de defrontar o vazio que espreita insistentemente sobre os ombros.

You will never know this touch.
Will never know this shame.
You will never know the way
I want you to.

“The Way I Do” é a mais melancólica e sólida canção do EP e na qual as linhas de pendor gospel mais sobressaem. Um diálogo interior à resiliência necessária em continuar na perseguição do que se quer, precisa ou ama. Incorporando habilmente samples do mais puro blues, percepciona-se um desmedido avolumar dos sentidos com o órgão electrónico e com a fatal introdução de um coro que eleva a vulnerabilidade da voz de Briggs numa emotiva explosão sobre a realidade dolorosa dos diferentes estádios em que o Amor se inscreve.

Bury all your sorrow.
Till the dead don´t seem so cold.

“Dead Man’s Arms” e “The Fire”, as últimas faixas do EP, complementam-se entre si com uma ênfase subtil dedicada ao trip hop usando loops e elementos electrónicos para robustecer a vulnerabilidade poderosa da voz de Briggs enquanto despe lentamente os sentimentos enclausurados dentro de si. Uma quase confissão final dos conflitos internos com que os quais se confronta ao reconhecer as dualidades que coexistem em cada ser humana. Muitas vezes, sonha-se com coisas que se deseja que aconteçam e poder tornar isso realidade. Muitas vezes, derrapa-se numa realidade que se deseja ser apenas um mau sonho.

Bishop Briggs captura esses sentimentos de forma instantânea com o modo como utiliza a sua voz como arma de arremesso de todo esse pesar e desconforto emocional de se estar preso em algo que causa mágoa. Ao mesmo tempo, ajusta o caldeirão mágico dos sintetizadores, dos beats electrónicos e das diferentes fusões de estilos para imprimir um certo espírito esfuziante no pequeno guerreiro com alma de blues que avança para outro dia apaziguado com as suas cicatrizes.