Oferecendo um pouco de contexto à noite que se vai descrever, primeiro tomemos algum tempo para falar do espaço onde ocorreram estes dois espectáculos. Localizado na cidade académica de Padova, o Sherwood Festival é uma das mais antigas e notórias instituições culturais da região. Enraizada em valores comunitários e defensor de causas sociais, o evento é organizado e frequentado por uma massa maioritariamente estudantil e interventiva, que levanta a sua voz contra a onda de precariedade que se actualmente se abate sobre os jovens adultos europeus, entre outras situações. Assim, o Sherwood foi concebido como um espaço de intercâmbio e convívio cultural que tem vindo a crescer ano após ano, atraindo progressivamente mais multidões e sendo palco para espectáculos de vários artistas de gabarito como Die Antwoord e The Prodigy.

Com dois palcos, uma extensa zona de restauração, um mini campo de futebol e uma excelente sala de cinema ao ar livre (com um cartaz de luxo), a edição de 2015 do Sherwood já está a ocorrer desde 10 de Junho e continuará até 16 de Julho com as mais variadas actividades. Uma das noites de maior destaque na extensa programação é precisamente a que aconteceu a 11 de Julho e reuniu no evento, os concertos de Blonde Redhead e God Is An Astronaut. Feitas portanto as apresentações, passemos então à música, que começa às 19h no palco de menor dimensão e com identidade bastante coerente, tanto a nível musical como nacional.

A aquecer as hostes para os God Is An Astronaut, surgiram Winter Dust e Ropsten, duas bandas italianas fortemente enraizadas no género do post-rock. Com o espaço bem composto para receber quer uma quer outra, o plantel que jogou em casa, jogou seguro e bem, com ambos os grupos a oferecem eficientes desempenhos, salvo o tom genérico da música que tantas vezes é encontrado em bandas deste género. De um lado mais melódico, os Winter Dust, de um lado mais barulhento, os Ropsten. Obteve-se assim um bom aperitivo na senda daquilo que se ouviria mais tarde.

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Passam agora pouco das 21:10 e começam a surgir as figuras que se vão dispondo nos seus lugares à frente de um estandarte cujas letras brancas em fundo preto não deixam enganar: São os God Is An Astronaut que vão tomar conta do palco principal do evento e pela calorosa recepção da numerosa massa de espectadores, podemos deduzir que aqui são queridos.

Com a sua mistura de rock industrial, algum metal e variação pela composição de temas ora complexos, ora mais lineares, o grupo irlandês é visto por muitos como aquele ponto intermédio do post-rock que descansa entre os colossos e as ofertas menos carismáticas do género, isto muito devido a um corpo de trabalho inegavelmente interessante e único o suficiente para se destacar, mas que nunca acaba por convencer totalmente. Questões de identidade à parte, quem gosta de GIAA, gosta mesmo e a conhecida base de fãs (com a qual a banda faz um esforço apreciável de se ligar) representou-se nesta amena noite padovana com uma boa dose de headbanging apaixonado e várias homenagens em forma de t-shirt’s de banda presentes na plateia.

A banda respondeu entusiasticamente ao amor dado e converteu-o em fúria e num êxtase em palco que por vezes acabou até por ser demais. Empenhados em trazer um espectáculo veloz, denso e animado (algo que certamente foi), os God Is An Astronaut ofereceram em volta, uma hora de música intensa e com um número praticamente nulo de momentos mortos. Mesmo as canções mais melódicas e atmosféricas como “Reverse World”, surgiram aqui musculadas e barulhentas em prol de uma adrenalina que nem sempre era pedida. Este tempo para respirar que banda não concedeu acabou por retirar a disposição e a capacidade de apreciar as nuances e os detalhes mais intrincados de canções como “Worlds in Collision”, esta sendo alvo de uma das reacções mais efervescentes aquando o seu anúncio.

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Condizente com a adrenalina do som, estava também uma banda irrepreensível no foro técnico e extremamente entusiasmada por estar a partilhar a sua arte. Especial destaque para Jamie Dean, simultaneamente homem do machado e teclista, e principal mediador entre o público e banda através das suas inúmeras intervenções. Embora nunca irritante, a sua postura de rockstar, em muitos momentos, acabou por atingir contornos mais humorísticos, com a linguagem corporal frenética e os sucessivos pedidos de palmas, entre outras peripécias “a la Bono”. Para além de incomum entre estas bandas, a sua conduta destoava inclusive da postura mais concentrada e pesada dos seus outros colegas, actuando como uma sucessiva fonte de distracção.GIAA3

Embora claramente mais interessados em capitalizar o riff, os God Is An Astronaut deram um concerto de rock competente, acima da média e sobretudo divertido. Menos interessados na contemplação que pode ser vista em disco, os irlandeses souberam manter-se relevantes e aumentar o entusiasmo da plateia, que ao longo do concerto já ia batendo palmas espontaneamente. Destaque especial para os momentos do novo disco, como “Vetus Memoria” e “Helios/Erebus”, que surgiram como pontos altos entre os temas mais conhecidos da banda. A noite tardia ia-se instalando e após o fim de “Agneya”, introduzida depois de um lapso do entertainer Dean (“I though that one was our last song”), era hora de esperar Blonde Redhead e pôr termo à veia instrumental que até agora estava a dominar completamente a noite

Num tom mais barroco e fantasmagórico, o trio nova-iorquino, composto pela vocalista Kazu Makino e os gémeos Simone e Amadeo Pace, veio a Padova para dar um concerto de grande elegância que deslumbrou a plateia numerosa, entretanto dilatada. Abrindo com a dupla “Barragán/Lady M”, faixas que também iniciam o mais recente disco, os Blonde Redhead apostaram num começo mais bucólico e fresco como quem pretende embalar a plateia antes de a lançar para as cornucópias mais assombradas e etéreas que se seguiriamBRH3

O plano resultou e por altura a que chegamos a “Bipolar” (revisitação dos mais barulhentos anos 90 da banda) já estamos completamente embrenhados nas teias das guitarras e dos teclados, bem como no charme da encantadora bruxa Makino, que veio trazer um bem apreciado toque de misticismo à medida que se balanceava pelo palco num suave transe. Sendo uma banda proveniente do meio artístico de Nova Iorque, é natural encontrarmos canções como “Elephant Woman”, composições de onde florescem texturas tão variadas e vívidas como se estivessem expostas sobre tela, embutidas em atmosfera esverdeada e dormente, mas nunca morta.

O referido tema é um ponto alto em qualquer concerto dos Blonde Redhead, e nesta noite voltou a ser verdade. Grande parte do segredo está na forma como o trio decide tratar os seus temas em palco: perfeitamente focados, a altivez plácida (mas não insonsa) com que tocam, confere-lhes um poder absoluto sobre aquilo que estão apresentar ao público, ao mesmo tempo que o mantém alimentado e lhe dão o que é preciso à medida que o concerto se desenrola. Tudo isto intensifica o carácter refinado e intrincado do seu output. Cada dinâmica e pormenor saem exactamente como eles querem. A visão é a deles, e nós gostamos.BRH2

Houve ainda tempo para ir buscar os contornos mais no wave da banda com “Spring By Summer and Fall” e “Violent Life” (esta última a integrar um encore que ainda incluiu “Messenger” e “Defeatest Anthem”), num alinhamento bastante enraizado em Barragán, o último disco, e de onde saiu uma encantadora rendição de “No More Honey”, com a belíssima voz de Makino a brincar pelo ar no tom especialmente doce que a canção pede. No geral, o que se viu esta noite foi uma banda perfeitamente sintonizada com a sua pele e com anos de estrada suficientes para saber os ingredientes que fazem um concerto coeso e de muito sólida qualidade.

Neste serão, o palco principal do Sherwood viu duas formas de estar diferentes: uma banda a investir no brilharete e outra a provar que não precisa dele para conquistar. Entre a adrenalina e escala épica dos God Is An Astronaut e o feitiço sobriamente orquestrado pelos Blonde Redhead, o que nós vimos foram duas apostas diversas e ganhas que marcaram uma noite de sucesso. Será sempre impossível agradar a gregos e troianos, mas com a bipolaridade de experiências que se registou, arrisca-se a dizer que esta noite chegou lá perto.