Quando uma banda vem a Lisboa pela terceira vez em 10 meses e ainda assim esgota o Musicbox com alguns dias de antecedência, é redundante dizer que já conquistou o público português. No caso dos Boogarins, que o clube lisboeta acolheu no último sábado, os próprios informaram que desde Novembro tocaram menos vezes na Goiânia que os viu juntar – o que é notável -, porque a) Lisboa tem só metade da população daquela capital estadual, b) na outra margem do Tejo milhares de jovens desfrutavam a Festa do AVANTE!, c) a penúltima vez dos Boogarins cá foi no Rock In Rio. Mas podem regressar para celebrar um ano desde a estreia: após mais um excelente concerto voltarão, com certeza, a encher o recinto. Não será tão cedo, mas esperam voltar antes do Verão.

O universo paralelo que confirmou o sucesso

Lotação esgotada e um jovem público ansioso para (re)ver os Boogarins como se fosse a sua estreia em Lisboa. Na quente noite do último sábado era aquele o ambiente dentro do Musicbox e, por isso, foi oportuno os brasileiros terem entrado no palco poucos minutos após a hora marcada, porque em relação a eles, os lisbonenses estão numa ávida fase “quanto mais vemos, mais queremos ver”. E os Boogarins quiseram imediatamente banir toda a ansiedade, tocando um alienante mantra de introdução que pareceu a instrumental “Canção Perdida” de As Plantas Que Curam, o primeiro álbum, ao qual acoplaram à ovacionada “Falsa Folha de Rosto” já do último Manual, disco cujo nome completo é Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos. Aliás, os nomes dos álbuns são exemplares de que os Boogarins, além de boa banda, são uma família especial: As Plantas Que Curam pode ser uma sugestão de drogas naturais, mas também é símbolo de que eles não são fúteis garotos de praia, porque vêm de uma região com florestas e enormes cascatas que os orientaram para um psicadelismo mais pagão que lúdico.

E, no entanto, os Boogarins divertem-se tanto! E também a nós nos divertem – até quando o vocalista Dinho confessa “Isto ‘tá mau…” às filas da frente após o primeiro verso de “Tempo” ter sumido da sua cabeça sem memória… Mas logo voltou e quem protestaria, após quase 10 minutos dos dedilhados de Benke na outra guitarra e do diversificado toque de Ynaiã na bateria? Ao contrário, a meio da canção o público acompanhou a banda de forma espontânea com palmas. Para potenciar ainda mais o sentimento, o som estava muito bem conseguido, mais distorcido que nos álbuns mas nítido, permitindo também apreciar como o baixista Raphael mantinha o equilíbrio da banda. Não era só uma boa onda, estava a ser o melhor rio do Brasil, envolvido nas margens da caleidoscópica projecção vídeo que ilustrava o universo paralelo em que os Boogarins converteram o Musicbox. Como no Manual, seguiram por “6000 Dias”, ilustrada com uma bucólica projecção de plantas e flores e que evidenciou como a banda soa coesa e o seu rock, sem ser pesado, pujante tanto nas cadências como nas variações rítmicas, e dançável nas inspiradas batidas de Ynaiã com um groove tão funky que, além do legado tropicalista d’Os Mutantes, aproxima a banda dos Unknown Mortal Orchestra.

Na pausa, Benke agradeceu a calorosa recepção e informou do insólito de não só ter sido a terceira vez em Lisboa em menos de um ano, como também de tocarem mais vezes em Lisboa que na sua própria cidade. Benke ainda gracejou, perguntando se alguém tinha um quarto livre porque “o Ynaiã vai ficar cá, depois de a tournée acabar, e vai precisar de uma cama em Lisboa” – ao que uma jovem na plateia gritou “eu tenho!”, levando o guitarrista a concluir a própria piada com um leiloeiro “Dou-lhe uma…”. E estando Ynaiã já na berlinda entre gargalhadas, Benke apontou para ele e informou que depois da meia-noite seria o aniversário do baterista, pretexto para convidar o público a segui-los até ao concerto do domingo em Leiria e, claro, “pagar uma cerveja para Ynaiã”. Em momento de prendas e presentes, Benke anunciou também que a canção seguinte ia “estar no disco novo. Disco novo… disco novo!” – outra graça para o público rir.

Mas era mesmo um novo tema, lento, harmonioso, gingado, cheio de amor, que soou muito ternurento naquela açucarada voz de Dinho; sendo uma balada, não pareceu um plausível single inicial, mas talvez um single de Verão. Na mesma toada sentimental(ista), os Boogarins recuaram ao As Plantas Que Curam e tocaram “Infinu”, não como na folksy versão original, mas numa rendição mais electrificada com um início stoner rock que elevou o poder da mesma ao vivo, até porque os brasileiros ampliaram a canção com uma fluída jam session que animou o público para acompanhar com palmas o improvisado instrumental mesmo sem a banda o ter pedido.

Final do concerto, início do niver e o inevitável “Fora Temer!”

Como se fosse uma retribuição pela devoção da ruidosa plateia não veio só agradecimento, veio também a previsão de “estar voltando logo, antes do Verão, já com o terceiro disco no bolso” e para um “público tão aplicado”, outro tema novo do próximo disco, “Corredor Polonês”, tão pop que pareceu um provável single. O clima emocional era tão amistoso que o quasi- aniversariante Ynaiã levantou-se e “para manter a tradição lisboeta no palco do Musicbox”, advertiu com sua voz paternal que no concerto de Novembro “o cheiro vinha atá aqui em cima e a gente também podia participar na comunhão…”; e entre mais gargalhadas e aplausos, enquanto a banda improvisou um reggae, lá chegou ao palco um baseado fumado pelos quatro Boogarins. Seguiram-se “São Lorenzo” numa versão quase igual à original e “Cuerdo”, hipnótico (anti-)single de Manual que os brasileiros alongaram numa alienante trip sonora que levou o público quase à histeria.

Tanta euforia foi oportuna para a apoteose da noite: sem Ynaiã notar, uma jovem entrou no palco com um bolo de aniversário nas mãos e foi todo o lotadíssimo Musicbox que cantou os “Parabéns A Você” ao baterista. Era a transição de uma festa para outra! Num falar já arrastado, Dinho atestou que “esse cheiro tá bom demais!” e agredeceu ter sentido “que vocês gostaram” (do concerto e de cantar parabéns a Ynaiã), mas teve que anunciar que iam tocar a última música. E enquanto o público aplaudia o brinde em que Ynaiã confessou “Vocês são maravilhosos! É o melhor aniversário da minha vida!”, a maioria dos presentes uniu em coro o grito que um ou outro jovem já tinham lançado durante o espectáculo: “Fora Temer! Fora Temer!”, reprovando o golpe no Brasil.

Celebrada também a Democracia (vontade do povo), os Boogarins completaram o alinhamento como fecharam o disco Manual: em beleza com a hippie “Auchma”, mas em vez do groove da versão de estúdio, ofereceram uma alucinante introdução dreamy ilustrada – e reforçada -, por uma projecção vídeo em quentes tons de amarelo e verde hidratados por alguns azuis como na iluminada bandeira do Brasil, mas fecharam em compassos de baile tropical: afinal, já tinham lançado a festa. E inflamado o público, que não parou de gritar e aplaudir até eles voltarem para o encore!

E voltaram mesmo, já com fumos e bebes nas mãos “só porque é o niver do Ynaiã”, mas também porque ainda havia muito por dizer. Primeiro, afirmar que iam tocar um raro encore porque o concerto “foi muito especial para a gente”. Segundo, troçar de Ynaiã ter sido ligeiramente assediado em Coimbra por uma “garota que não deve tar andando em lugar muito legal, né?”, o que acendeu mais uma gargalhada geral no palco e na plateia. Terceiro, Benke exigir “Fora Temer, porra! E não basta hashtags, é preciso acção!”. E finalmente, para coroar o triunfal desempenho em palco, adornada por outra caleidoscópica projecção, tocaram a pérola “Lucifernandis”, já um clássico da pop brasileira, cantada em uníssono por todo o salão! Após um concerto tão especialmente bom, talvez a próxima vez seja num espaço maior (e outdoor). Apenas ficou por tocar “Hoje Aprendi De Verdade”. Se for, de facto, antes do Verão, por que não os Boogarins perfumarem as Semanas Académicas?

Boogarins @ MusicBox

Boogarins @ MusicBox

As imagens de Carlos Mendes para ver aqui:

Boogarins @ Musicbox