'Blue Madonna' de Børns: da euforia à instrospecção
81%Overall Score

Após o bem recebido álbum de estreia Dopamine de 2015, o segundo registo de longa-duração da trajetória musical de Børns nasce como um desafio incomensurável para Garrett Borns, o nome de baptismo do norte-americano. Se Dopamine elevou Børns a um patamar que lhe concedeu o estatuto de artista a manter debaixo de olho com alguns singles que o irão acompanhar, certamente, ao longo de toda sua careira, a linha ascendente do sucesso colocou-o num processo acelerado de maturação que o fez deixar no passado a sua figura de garoto franzino, tornando-se num homem com uma extraordinária consciência artística aliada a uma imagem andrógina cercada de sedução e mistério. Uma imagem que foi bem explorada por grandes nomes da indústria da moda, ao mesmo tempo que cresciam os questionamentos, as dúvidas e as incertezas quanto aos caminhos que o artista iria traçar para o sucessor discográfico da sua primeira colecção de canções.

Blue Madonna, foi editado a 12 de janeiro e é composto por doze temas, uma obra nascida não só da mente criativa de Børns como da subsequente lapidação por parte do produtor Tommy English que tinha já produzido o disco de estreia de Garrett. O trabalho pode ser dividido em dois momentos: num primeiro, sucedem-se canções de refrões vertiginosos; num segundo momento, líricas repletas de subjetividade quanto a questões sentimentais que se aninham numa sequência de condição emocional. A canção de abertura do disco, “God Save Our Young Blood”, conta com a participação da musa Lana Del Rey. A canção não é das mais empolgantes, porém faz enlaçar a voz suave de Børns na de Lana de um modo afável assente sobre as camadas de synths que se revela um apelo intenso aos céus pela sua benevolência para com quem amam.

No segundo semestre do ano passado, em finais de Julho, “Faded Heart” dava boas vindas a Blue Madonna, sendo o tema de apresentação do disco. A canção número dois do álbum surgia destinada a ser um inevitável single, com batidas fortes, guitarras apuradas e um refrão cativante. “Faded Heart” é uma construção rica que supera o maior single de Børns em Dopamine, “Electric Love”. O receio de ter o seu amor desfigurado por alguém torna-se real na lírica que reveste “Sweet Dreams”, uma canção que ecoa sobre castelos eletrónicos circulares, adequada ao tom doce com que Børns entoa cada verso da canção. Logo de seguida, entram as batidas aceleradas de rock, orbitam harmoniosamente com arranjos e distorções psicdélicas em “We Don’t Care”, o quarto tema do disco que se expõe num refrão simples e repetitivo, o que a faz destacar-se como uma composição em que Børns evidencia o seu tom agudo nos instantes finais e em que as guitarras se elevam no mesmo ritmo num regalo delicioso aos ouvidos. Em “Man” ressalta uma melodia pop nostálgica revestida, nesta altura, num já familiar ambiente eletrónico que demonstra a particularidade de ser salpicado pelas teclas de um piano.

A partir da canção “Iceberg”, o alinhamento ganha um tom mais lânguido e lento, porém com líricas mais atrativas na sua construção, como acontece nos versos I wanna break the surface tension turn the ripples that’s around us into waves de “Iceberg”. “Tension” e “Supernatural” carregam um electro pop soalheiro e levemente dançante, mas ao mesmo tempo contido. E é aqui que se faz uma espécie de regresso ao início, coma voz de Lana Del Rey a ser novamente convidada para adornar uma cascata de beats lineares de “Blue Madonna”, o tema-título do álbum. Dedilhada ao piano e teclado “Bye-bye Darling” torna-se numa balada clássica e vintage em que a sua melodia constitui um todo coeso, especialmente num desfecho que emana positividade mesmo em face ao final triste do amor: uma canção preciosa a ser descoberta nos instantes derradeiros de Blue Madonna.

Um artista trabalha intensamente até conseguir produzir e lançar um primeiro álbum, enquanto o segundo registo acaba por ser o momento solidificador de uma carreira e por isso mesmo intrinsecamente convertido num enorme desafio. Blue Madonna não decepciona. Poderá não ser um álbum com faixas que cairão fácil aos ouvidos do público e que agradem de uma ponta a outra como ocorreu em Dopamine; porém, este é um trabalho que realça o quanto ainda se tem a extrair de Børns, com as faixas eletrizantes do álbum de estreia a cederem lugar a canções mais requintadas na sua genética. Ainda de realçar o clima bem desenhado de cada canção num álbum que não muda abruptamente de sentimento nem disposição, ainda que exista uma condução caprichada entre elas. “Bye-bye Darling” encerra o disco de modo fascinante com a sua delicadeza desarmante, dando a certeza de que Blue Madonna é um álbum apreciável nos seus detalhes e que merece ser ouvido.