Os britânicos Wild Beasts chegam a 2016 com um posto mais que solidificado e conhecido nos meandros da música alternativa. Quatro álbuns consagrados, habituaram-nos a ver o nome da banda figurar assiduamente nas listas de destaques discográficos dos respectivos anos juntamente com os aplausos de entusiasmo a cada nova tour ou presença ao vivo. O grupo afigura-se como um dos grandes pontas de lança do novo pop rock exótico e sublime, tão serpentino como electrónico, e foi crescendo saudavelmente numa dose de exuberância discreta e bem temperada. Assim, já desde do eclético Present Tense que se confirmou definitivamente que os art rockers deixavam de ser novidade para passarem a instituição do, lá está, presente, e é sob este signo que recebemos o segundo disco vindo deste ciclo onde o factor surpresa já não se encontra activo.

Boy King apresenta-se então com toda a excentricidade e pujança conhecida dos Wild Beasts e leva-a ao próximo nível puxando, desta feita, pelas cores mais vibrantes e carregadas que o grupo já se viu alcançar, ao mesmo tempo que troca aquela certa tendência de bucolismo do passado por uma marca noctívaga embriónica em Present Tense. Aqui completamente florescida. Se já eram predadores nos jardins silvestres, agora passam para o calor negro da noite cerrada e pintada a neons. Com a mudança aumenta o perigo que representam e, desta feita, o grupo comprometeu-se em criar um álbum conceptual à volta da masculinidade contemporânea, tema que sempre foi mais ou menos presente na obra dos Wild Beasts, quer lírica, quer estética e que, sem dúvida, tem nesta banda uma das mais precisamente fiéis e sensíveis vozes que sobre ela cantou.

Assim, enquanto o passado Present Tense encontrou um equilíbrio refinado entre os aspectos mais etéreos e cálidos da alma dos Wild Beasts com uma linguagem mais concreta e física, Boy King puxa-se fortemente para esta segunda componente, traduzindo-se a nível sónico num disco duro, de linhas vincadas pelas densas salvas sintetizadas e por loops rítmicos programados a servir uma atmosfera contida e estrutural. A tal exuberância que até então havia vivido num subtexto, emerge neste quinto álbum com toda a força, encontrando os Wild Beasts a trocar os aspectos mais subtis do seu ser por uma abordagem bem mais literal, tanto no conteúdo lírico como na composição. Olhe-se por exemplo, para “Alpha Female” que desde da entrega saltitona do seu refrão até à secção de guitarra devassa a guiar a canção para o fim, oferecendo-se à primeira escuta com as suas cores orelhudas e um foco primariamente direccionado no beat.

A seguinte canção, “Get My Bang”, segue uma estrutura semelhante onde natureza robótica e gingona é alicerçada pela anímica e épica voz de Hayden Thorpe, sempre cheia e calorosa, e que neste disco procura encontrar (com sucesso) uma simbiose com as batidas mais orientadas para a dança. O que resulta daqui são canções talvez demasiado formulaicas e directas para uma banda que sempre foi tão boa a criar passagens tão airosas e flutuantes e a deixar uma certa incerteza no meio da sua confrontação. Boy King é praticamente todo dito directamente na cara, por meio dos constantes motivos de teclado transversais a todo o disco e à presença de uma guitarra mais electrónica e decorativa, bem como pelos significados líricos sem azo para dúvidas como o gato assanhado que não serve para fins domésticos na faixa introdutória ou as associações carnais e escaldantes à titular figura mítica, que conjuntamente com o raro lugar de destaque à guitarra dado em forma de um solo pseudo javardo, servem uma aura bem gordurenta em “Eat Your Heart Out Adonis”.

Não que a tesão sempre tivesse sido uma espécie de segredo bem escondido no seio da música do quarteto, mas sem dúvida sai de uma forma diferente neste Boy King muito por via de toda esta estética mais lustrosa que os põe a soar e a falar de uma forma mais bruta e suja ao invés da conhecida natureza selvagem e sublime que domina pelo charme. Como se os Wild Beasts tivessem trocado o método de predação silencioso e sibilante da cobra pelo rugir grave do leão, o rei da selva. Mas, realmente, neste mundo sem regra que nos encontramos não há modus operanti que valha a pena seguir e muito menos se pode falar (nem nunca se pôde) numa conduta para regrar os géneros e é por isso que o masculino dos selvagens músicos britânicos e especificamente aquele que eles retratam neste quinto trabalho também se mostra nas suas fraquezas quentes e na sua submissão face ao individualista desejo que arde dentro de qualquer alma.

Assim, acabou por ser com Boy King que conhecemos melhor uma outra faceta dos Wild Beasts, uma que se revelou mais fervorosa e musicalmente espampanante. Tal como toda a líbido lírica, também o disco se pinta com uma genica nocturna que acelera numa auto-pista de beats e refrões mecânicos sintetizados para criar calor. No meio, ainda somos presenteados com alguns momentos de calmia que trazem aquele exotismo familiar – “Celestial Creatures”, com a sua percussão muito silvestre e “Dreamliner” provavelmente remetem para um tempo entre Present Tense e Boy King – a contrastar com a natureza moderna e hi tech do restante disco. Dizem que é a conhecer melhor todos os lados que se fica a gostar mais da coisa e o quinto disco do grupo apresenta-se realmente como o mais diferente e deslocado da família. Neste ponto, talvez ainda não seja possível perceber onde ficará em perspectiva com o passado e o futuro, mas certamente aqui fica uma entrada bem colorida na História da banda.

Os Wild Beasts actuam no dia 24 de Outubro no Jameson Urban Routes.