Em 1952, John Cage reescrevia o conceito de beleza e de música ao compor “4’33″”, uma peça  precisamente com 4 minutos e 33 segundos de duração sem acordes, sem som, em que o silêncio é o condutor de uma obra pensada para ser executada em salas de espectáculo. Uma composição para ser vivida entre os ruídos do público, da sala, da respiração dos presentes, tornando cada apresentação um momento único e irrepetível. Duas décadas mais tarde, em 1977, o compositor estónio Arvo Pärt escrevia Tabula Rasa e brincava de forma fúnebre com os silêncios com um duelo de violinos. Blixa Bargeld e os Einstürzende Neubauten abriam, posteriormente, o novo milénio, baptizando o seu oitavo longa-duração como Silence Is Sexy. O silêncio, sempre ele, como elemento transversal à obra da tríade de músicos e compositores.

E é por entre os silêncios das notas de piano que Braga vai respirar novamente ao longo de todos os sábados do mês de Maio e romper o calendário extravasando o leito do segundo ciclo do RESPIRA! até ao primeiro fim de semana de Junho. Depois de na edição primordial o Theatro-Circo ter elevado a fasquia ao patamar do cartaz de luxo com Rufus Wainwright, Douglas Dare, Wim Mertens, Dakota Suite & Quentin Sirjacq, o ciclo avança novamente para um alinhamento olímpico.

O RESPIRA! abre as portas do salão do Theatro-Circo com o regresso do encontro da electrónica de Murcof e o classicismo do piano de Vanessa Wagner, ambos com um percurso na formação clássica. Um workshop da editora InFiné juntou-os e colocou-os na rota de Statea, o disco colaborativo de 2016, que descrevíamos na altura como duas formas distintas de expressão musical que se uniram e que exclui a necessidade das palavras, apenas expressando-se através de música. Do álbum fazem parte composições de Erik Satie, Aphex Twin, Philip Glass e, nada surpreendentemente, Pärt e Cage. Murcof e Vanessa Wagner tocam no dia 5 de Maio.

Quem marca de novo presença no RESPIRA! é a editora Erased Tapes, que por excelência tem orbitado ao longo de toda a sua história e discografia em torno de compositores que jogam com o passado e o futuro, com a canção e a experimentação, com a necessidade básica e absurdamente impossível de respirar. Nomes como os de Nhils Fram, Kiasmos, Woodkid, Oláfur Arnalds são presença habitual em colecções tanto electrónicas como vanguardistas ou clássicas. Este ano – e depois da presença no ano passado do norte-americano Douglas Dare -, a Erased Tapes está representada pelo pianista e compositor ucraniano Lubomyr Melnyk. Criador da continuous piano music, uma linguagem para piano assente num princípio subjacente a uma corrente de som ininterrupta, Melnyk é uma das forças maiores do movimento contemporâneo, bem como um dos seus principais exploradores. Lubomyr, que toca no dia 12 de Maio na sala bracarense, nasceu em 1948 e conta com uma extensa discografia com mais de vinte títulos.

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É na delicadeza luminosa com que aborda a respiração muito própria das teclas do piano, ao contrário da solenidade e antiguidade de Melnyk, que vive o italiano Bruno Bavota. Associado a uma linha de pianistas contemporâneos de abordagem menos exploratória e mais melódica – como Ludovico Einaudi ou Dustin Halloran dos A Winged Victory For The Sullen -, Bavota emana um semblante sonoro sempre mais alinhado com a vontade de dar imagens para cinema do que reencontrar outras linguagens para a sua música fugir para outras músicas. O compositor italiano ganhou uma visibilidade mediática com a inclusão do tema “Passengers” numa campanha da Apple e de “If Only My Heart Were Wide Like The Sea” na banda sonora da série The Young Pope do realizador Paolo Sorrentino, de This Must Be the Place com Sean Pean e Frances McDormand. Bavota toca em Braga no dia 19 na companhia do violoncelista Michael Nicolas e o violinista J. Freivogel, com quem tinha trabalhado no disco, e traz Out of the Blue, o álbum de 2016 e até agora o último registo do napolitano.

James Rhodes tem também a sua passagem marcada pela cidade dos arcebispos – toca a 26 de Maio -, e será o mais classicista de todos os nomes do RESPIRA!. Com um percurso discográfico iniciado em 2009 com Razor Blades, Little Pills and Big Pianos – em que interpretava peças de Bach, Chopin, Beethoven e Moszkowoski -, mas com a história a colocar o fascínio de Rhodes pelo universo da música clássica ainda em criança, o pianista londrino leva já seis longa-duração gravados e editados. James foi o rosto de Chopin: The Women Behind the Music, um documentário da BBC Four sobre o compositor polaco e a mulher que o inspirou, realizado para celebrar o 200º aniversário do seu nascimento. O músico londrino filmou ainda uma série autobiográfica de sete episódios, James Rhodes: Piano Man.

Os Grandbrothers são a nota extra fora da pauta de Maio e chegam a Braga a 2 de Junho, encerrando este ciclo dedicado ao piano, pensado e organizado pelo Theatro-Circo. Não são irmãos mas são inquestionavelmente grandiosos: Erol Sarp é alemão de origens turcas e Lukas Vogel é suíço; um é pianista e o segundo é engenheiro e designer de software; um carrega o lado orgânico da música e o outro a precisão matemática da ciência para uma mistura em que a experimentação melódica se encontra sob canvas electrónicos em constante elaboração mental e transcendental, com linhas e texturas clássicas, jazz e ambientais. A perfeita colisão de mundos e universos, o choque de sonho e virtuosismo que os Grandbrothers andam a inventar desde 2014, altura de edição de Ezra EP que abriu espaço para os dois álbuns, Dilation e Open, estreia-se em Portugal no RESPIRA!.

Parafraseando o próprio Theatro-Circo de Braga: Mesmo para os mais céticos, não há lugar para dúvidas: o pulmão do mundo cabe numa sala de espetáculos.

Os bilhetes para os espetáculos custam 12€ (6€ cartão Quadrilátero) com exceção feita ao concerto de James Rhodes que tem o valor de 15€ (7,5€ cartão Quadrilátero).

RESPIRA! 2018

RESPIRA! 2018