O pianista Tom Rogerson estreia-se em dezembro próximo com o seu primeiro longa-duração que levará o título Finding Shore. O facto de levar o carimbo da editora Dead Oceans, a mesma de Mitski, Kevin Morby e The Tallest Man on Earth, e de uma tradição incomensurável de debuts de altíssima qualidade tem alinhado o seu nome como uma das labels mais respeitadas, aguça ainda mais expectativa para este disco, já para não dizer que foi um projecto colaborativo com Brian Eno, o transcendente e incontornável músico multi-instrumentista.

Numa conversa pós-concerto, Eno e Rogerson ter-se-ão conhecido, nunca abordando a temática musical. O diálogo sobre a terra onde ambos cresceram gerou laços e os pontos em comum nas suas vidas ergueram pontes para o seu trabalho. Esta relação próxima e vivência partilhada metamorfoseou-se em som, e Roger diz mesmo que quando ouve o disco sente que vê as paisagens de Woodbridge, Suffolk, terra natal de ambos os músicos. A colaboração passa então a não ser algo que funde raízes com um intuito comum mas sim uma raiz a partir da qual nascem rebentos fortes, imprevisíveis e dinâmicos.

O poder colaborativo de Eno é absolutamente inegável: desde Fripp a David Byrne, passando pelos Harmonia ou pelos Cluster, sem esquecer Harold Budd ou Laraaji. A capacidade musical de Brian é tanta que acaba sempre por transformar o que já é denso e consolidado em algo inter-dimensional e com uma potência expressiva colossal. Neste projecto, Eno manipula a informação midi que sai do piano de Rogerson e cria texturas, melodias e arranjos electrónicos que resultam numa construção de camadas sónicas que se sobrepõem de forma equilibrada como ouvimos em “Motion in Field”.

O piano tem um carácter dreamy e desenha melodias que remetem para o kraut dos Harmonia ou Cluster, sempre de forma cúmplice mas nunca dependente nem exaustiva. É este conjunto de fascinantes atmosferas que cria uma das esperas menos amiga da paciência. Dia 8 de dezembro, a data de lançamento de Finding Shore, podia ser já amanhã.