Anoitece no solitário pub de madeira escura com vista sobre uma solitária estrada deitada sobre um horizonte que rasga em linha recta e que de tempos a tempos testemunha o raro acontecimento de cruzar duas carrinhas em sentido contrário. Pelos cantos empoeirados das janelas incansavelmente desfocadas avistam-se intermináveis campos de trigo e ao longe de algodão. Uma banda local sobe ao pequeno estrado de madeira esbatida, virado de frente para uma dúzia de cadeiras de ferro desalinhadas com mesas luzidias e pegajosas, sobre as quais se desenharam com o tempo manchas de círculos de cerveja que o tempo não conseguiu apagar. Os carros estacionados num leque desconjuntado sobre a terra batida que tapeteia a entrada denunciam que para a maioria o dia já acabou e que o de outros está justamente a começar.

Podia ser uma aldeia no Tennessee ou no Alabama, podia ser uma aldeia de nome e existência desconhecidos. Anuncia-se o nome dos Bermuda Triangle pela voz de alguém de rosto familiar que no palco veio interromper as conversas de fim de dia. O barulho caótico das vozes transforma-se em burburinho depois dos quatro ou cinco pares de palmas anteciparem um momento prestes a ser embutido nas paredes pré-fabricadas do solitário pub de madeira escura e nas memórias e almas de uma assistência habitualmente alheada e desatenta e que viria a ser memorável.

Brittany Howard percorre o palco até ao microfone, onde pega na guitarra a cheirar à década de 50 e que haveria de vincar o seu rodado vestido floral, com Becca Mancari and Jesse Lafser a seguirem-lhe os passos e a pegar nos instrumentos cuidadosamente repousados nos seus lugares minutos antes. Um sorriso e um “Boa noite, nós somos os Bermuda Triangle e esta é “Rosey”, desencadeia o dedilhar romântico e nostálgico das cordas semi-acústicas e a voz embrulhada em eco de Howard a que se juntam um contra-baixo acompanhada por uma percussão subtil e, matematicamente nas segundas estrofes, as harmonias de Becca e Jesse, contadoras de sóis inesgotáveis e luas omnipresentes das mais mundanas das histórias, palcos supremos de tristezas, confessionadas como marcos permanentes de uma vivência bem atestada de episódios, agora transformados em canções.

“Rosey” é a primeira canção do novo projecto paralelo de Brittany Howard dos Alabama Shakes, em pousio desde o lançamento de Sound & Color de 2015, um tema originalmente gravado por Lafser no seu álbum Raised On The Plains também de 2015. O trio tinha já cavalgado rumo a pores-do-sol deitados sobre os alpendres de várias cidades norte-americanas pelas quais deram alguns concertos no início do versão, e por onde passarão com outros tantos nos próximos meses, sempre na zona do Midwest. Os Bermuda Triangle encontram-se actualmente em estúdio, possivelmente a gravar aquele que será o seu disco de estreia.