Candy Crush para as almas distraídas ou a Super Pop dos Superorganism
77%Overall Score

Já não é novidade o dom que a internet tem de criar fenómenos. Há quem lhes chame viralização, há quem lhes chame manipulação de massas e depois há alturas que nem sequer se entende muito bem o que aconteceu… para o bem e para o mal. Os Superorganism são um destes casos de bem. Oito pessoas, entre elas Orono Noguchi – uma japonesa de 18 anos que fornece dons vocais meio declamativos, meio de arrasto melodioso de teenager em crise (com tudo o que isso tem de maravilhoso) -, oito pessoas, das quais sete vivem agora na mesma casa mas que se encontraram na praça pública global a.k.a. thee web, e que começaram a trocar demos. Uma das canções, “Something For Your M.I.N.D.”, chegou em Janeiro do ano passado aos serviços de streaming e daí em diante é caso para se dizer it’s history repeating itself.

Um ano e pouquinho mais tarde, chega o disco de estreia do colectivo global – para além de Orono, temos neozelandeses, sul coreanos, australianos e ingleses -, uma brisa de ar fresco nas esferas da pop. Da pop, em termos gerais, sem as vestimentas de luxo da vertente mainstream ou a cultificação intelectual da cena independente; da pop enquanto objecto de descontração, mas ao mesmo tempo com intervenção lírica e com algo a dizer na primeira pessoa; da pop, esse saquinho de rebuçados coloridos em versão mishmash, onde pode e deve caber tudo que soe a pop ou não, desde que seja simples e catchy e que a vontade seja meter à boca e chupar por mais.

Como o défice de atenção da raça humana está em altas no que respeita à capacidade de se fixar em alguma coisa durante pouco tempo que seja, os Superorganism fazem questão de se despachar a dizer ao que vêm. E o resultado é um disco de estreia de 33 minutos com 10 canções, todas elas com potencial de ser um mega single e de encher as medidas ao mais exigente pesquisador de relíquias alternativas, ao adolescente desajustado, ao middle aged frustrado atrás do balcão de um banco ou do MacDonalds, aos apreciadores de pop simplesmente pop, aos fãs da cultura oriental, colecionadores de néons musicais, aos dissecadores de trends, hypes e modinhas, aos designers, alfaiates, arquitectos, condutores de empilhadores e todas as outras espécies… desde que apanhadas incautas e sem pensar muito. A endoutrinação vem depois.

“Everybody Wants To Be Famous” critica a fome de reconhecimento vazio dos tempos modernos, “Nobody Cares” a necessidade de se fazer efectivamente o que bem se entende da vida porque sim, estamos todos sozinhos, enquanto “SPORGNSM” é a ilusão desiludida do “quando eu for grande” e “It’s All Good” a lembrança, com toda a inocência, que a linha que separa a insignificância do indivíduo da sua capacidade de transcendência é mesmo muito fininha.

Estreita é também a vontade dos Superorganism de escrever canções agarrados a predicados pré-estabelecidos: aqui na banca onde a banda vende os seus rebuçados enrolados em papel de embrulho feito de buzinas de carro, samplers de explosões, passarinhos, beats ligeiramente psicadélicos, criancinhas felizes, alarmes e sons captados aqui e sacados ali, tudo muito bem misturado com guitarras e synths, brinca-se, não se brincando, com um sentido de descontração que visto do lado de fora do quartel-general da banda não se sabe ao certo se é ou não real. Contudo desconfia-se bastante dele devido ao milimétrico uso de todos estes componentes de forma filigranada ao mais pequenino pormenor num espaço onde tudo bate certinho com tudo, mesmo quando as camadas de efeitos e de sons se acumulam uns cima dos outros de forma aparentemente caótica.

Se chegarem ao fim e estiverem confusos onde arrumar o disco, lembrem-se da primeira vez que se cruzaram com os Animal Collective, com os MGMT, com os Avalanches e com Beck, ou daquela vez que chegaram a casa num domingo já de manhã ainda “afectados” e ficaram a ver o Baby TV ou o Cartoon Network ao mesmo tempo que ouviam o disco de estreia dos Gorillaz no iPod e os Pizzicato Five na aparelhagem ao mesmo tempo. Ou se calhar a pop é só mesmo isto: um exercício de cortar e voltar a dar… há é mãos melhores que outras, e os Superorganism têm um full house. Pelo menos eles são tantos, que enchem uma casa de festa.