Capitão Fausto - Capitão Fausto Têm Os Dias Contados
90%Overall Score

Gazela e Pesar o Sol. Quando é feita a pergunta “Quais os melhores álbuns portugueses desta década”, estes dois discos são presenças mais do que assíduas nas respostas. Para além de figurarem nessas listas, têm outro (importante) aspecto em comum: as cabecinhas que os criaram, os Capitão Fausto. O grupo lisboeta constituído por Tomás Wallenstein, Manuel Palha, Domingos Coimbra, Salvador Seabra e Francisco Ferreira foi, com o passar do tempo, tornando-se quase como membros do nosso grupo de amigos. Para além de assinarem músicas com que todos os seus seguidores se identificassem, a sua simpatia e bem disposição durante os concertos juntou-se à sua descontracção e simplicidade fora dos palcos para tornar estes cinco rapazes na banda mais acarinhada pelo público português da actualidade.

Naturalmente, e por serem nossos ‘amigos’, tornou-se difícil não falar sobre eles sem esboçar um sorriso no rosto. À medida que foram caminhando pelo panorama musical português, o nosso orgulho foi crescendo cada vez mais. 2016 marcou o regresso aos discos mas de uma forma inesperada e que certamente causou um sentimento de sobressalto para com o nome do disco: Capitão Fausto Têm Os Dias Contados. Como poderia uma banda de sucesso e com tanto para dar estar a enfrentar o fim? Após umas longas sessões de escuta, percebe-se o porquê do título.

Em primeiro lugar, o terceiro longa duração dos Capitão Fausto pode causar alguma estranheza por parte dos fãs que os acompanham desde 2011. Há músicas vibrantes e cheias de adrenalina? Não. Há hinos capazes de fazer estremecer os numeroso palcos por onde já tocaram? Não. As músicas características da banda deram espaço a um novo leque de canções que têm muito mais para oferecer naquelas que são as mais ricas do quinteto até ao momento. Faz hoje um mês que “Amanhã Tou Melhor” foi dada a conhecer ao público, mostrando logo a nova faceta que estava para vir. Apesar de ainda se fazer sentir o lado mais ‘juvenil’ da banda, que temos sido habituados ao longo de uns belos cinco anos, a utilização de instrumentos como flautas ou violinos permitiu que o tema superasse a fasquia deixados pelos os outros, tornado-se não só na sua música mais sonante tal como aquela que carrega uma mensagem lírica mais profunda, digna de ser revista vezes sem conta.

“Amanhã Tou Melhor” era apenas uma amostra da riqueza instrumental presente no disco. Sempre que se revisita “Semana em Semana” e “Corazon”, encontra-se um novo instrumento. Flautas, saxofones, trompetes, … há sempre uma surpresa à espreita. Ambos são temas que nos surpreendem pela sua melodia e complexidade, já para não falar das deslumbrantes teclas de Francisco Ferreira que, pela primeira vez, prevalece sobre as guitarras de Tomás e Manuel; estas passam a assumir um papel mais melodioso e doce, como de quem quer apoiar os outros em vez de roubar as atenções com os riffs potentes do passado.

As letras das canções foram outras das enormes evoluções que o álbum evidencia. A lírica tipicamente “faustiana”, que falava sobre desabafos ou situações, torna-se muito mais profunda e melancólica daquilo que era o habitual. Em cerca de trinta e dois minutos – é pouco, mas mais rapidamente se volta ao início para vivenciar a experiência -, são contadas oito belas histórias. Frases como “se eu tenho o fisco à porta devo ser ladrão” ou “eu vou morrer, mas antes vou aproveitar bem” ecoam dentro das nossas cabeças por horas e horas enquanto tentamos decifrar os seus significados; e para tal, ouve-se mais uma vez o disco só que, desta vez, não se retirou muito ficou-se encantado com a sonoridade do mesmo. E então, ouve-se outra vez, como se de um loop interminável se tratasse: seja para decifrar o conteúdo ou para ficar encantado pelas melodias, difícil será de o deixar de ouvir.

As oito fábulas presentes em Capitão Fausto Têm Os Dias Contados assemelham-se a peças de um puzzle, são todas necessárias para decifrar a mensagem central do disco: a morte dos Capitão Fausto. O conceito de ‘morte’ é utilizado para simbolizar o fim de um ciclo e o início de outro e foi isso que sucedeu. Os pós-adolescentes de Gazela e os jovens adultos de Pesar o Sol tiveram que morrer para dar lugar aos adultos crescidos. Em “Alvalade Chama Por Mim”, a faixa término, dizem que “nunca esquecer que para nós a mocidade nunca mais nos vai servir” e é com este refrão que se despedem. Despedem-se do quinteto de amigos que soava a um mix de Franz Ferdinand com Tame Impala e dizem olá a uma banda que já atingiu um estatuto onde já não há comparações possíveis: estes, meus senhores, são os Capitão Fausto, a melhor banda portuguesa da actualidade. Como é bom vê-los crescer.