Dos Capitão Fausto eu tinha-me apercebido de um zum-zum e tinha ouvido algures um ou outro momento de Gazela de 2011 e o refrão chorudo de “Célebre Batalha de Formariz”. Nada mais. E, confesso, não lhes dei muito crédito. Pareciam-me mais uma banda de rock enérgico imberbe, pronta a fazer as delícias da juventude moche de sangue na guelra e a carregar as queimas das fitas de hinos do charro e das (muitas) imperiais. Ora, quão enganado eu estava. Não lhes tinha topado o lado de músicos sérios – e à séria. Aquele que é declaradamente mais evidente no novo álbum e que se revela – qual chapada na cara – aos primeiros dois minutos da sua prestação ao vivo, como foi o caso da apresentação de Pesar O Sol no Lux, no passado dia 6.

Passando por cima do imenso atraso para o início do concerto – depois da promessa de começarem exactamente às 22h00 – que obrigou a que uma fila interminável de fãs e curiosos aguardasse pacientemente à chuva e ao frio, até quase às 23, que lhes fosse facultada a entrada (atraso que acredito que não tivesse sido da responsabilidade da banda), eram aproximadamente 23h15 quando finalmente os cinco músicos sobem para o palco, sob a recepção calorosa de um público devoto que não é de arredar pé perante a adversidade. E ainda bem, porque estava prestes a ser bem recompensado.

Aos primeiros momentos de “Litoral” – o mais recente single, a abrir o concerto, já se percebiam diversas coisas: que aqueles músicos em cima do palco sabiam muito bem o que faziam, e com uma enorme naturalidade e descontração; que o som estava irrepreensível, com graves encorpados e com todos os instrumentos e vozes a ocuparem o seu espaço próprio sem atropelos, perfeitamente distintos uns dos outros; e que existia ali uma relação muito especial entre público e músicos. Uma relação de entrega e generosidade mútuas. Percebia-se isso ao longo de cada música, que o público parecia saber sempre de cor, e percebia-se isso nos momentos de comunicação entre canções.

Apesar da maturidade musical tranquilamente demonstrada ao vivo, a juventude está implícita e é normal (afinal, a maior parte da massa humana ali presente – tanto em cima do palco como à sua frente – é universitária): durante a secção instrumental final da segunda música – o tema de abertura do novo álbum, “Nunca Faço Nem Metade”, já o vocalista/guitarrista Tomás Wallenstein “navegava”, deitado, sem nunca deixar de tocar a sua guitarra, sobre o mar de braços que o sustentavam desde e de volta ao palco. Faz parte. É a vertente pós-punk que assim o “obriga”. Porque essa faceta existe na música dos Capitão Fausto. Mas aqui reside precisamente a fórmula chave e espinha dorsal da banda: é música que consegue juntar o rock mais imediato e abrasivo das canções curtas e refrões orelhudos aos espaços amplos do rock progressivo e psicadélico. Se o álbum de estreia mostrava indícios desta tendência, Pesar o Sol abraça-a como uma certeza inequívoca. Basta olhar para os tempos de duração das faixas novas, em comparação com os de Gazela. E aqui encontramos talvez o maior factor que os distancia dos Tame Impala, banda indie australiana de rock psicadélico com quem os Fausto têm sido quase abusivamente comparados, e cuja música é mais dispersa e desfocada, em grande parte devido ao mar sónico de multiplicação digital em camadas, no qual Kevin Parker – mentor e fundador da banda – transporta a sua música, e que nada tem a ver com as bases da música dos Capitão Fausto, muito mais imediatas e orgânicas. Não há aqui nenhum sentido depreciativo em relação a um estilo ou outro, são apenas diferentes linhas de construção, mesmo que existam algumas manchas de território comum no resultado final. Mas mais rapidamente, eu lhes atribuiría uma descedência híbrida do rock dos Peste & Sida, os refrões pop eficazes dos Heróis do Mar e o psicadelismo dos históricos Quarteto 1111.

Da mistura destes ingredientes com a veia progressiva assumida em Pesar o Sol, e mais desenvolvida ainda ao vivo, resulta um concerto vibrante, que ora nos brinda com momentos intensos de uma energia contagiante – os tais que puxam ao moche – ora nos transporta por longas secções instrumentais menos aceleradas, mas igualmente contagiantes, que acabam quase por estabelecer pontes de ligação entre as diferentes músicas. Aliás, as mudanças de tempo musical mesmo ao longo da mesma canção são imagem de marca dos Capitão Fausto, também um dos factores mais interessantes e estimulantes da sua música, que muda de ritmo frequentemente conforme desfila as diferentes partes, como é o caso de “Prefiro Que Não Concordem”, o terceiro momento da noite – que ia aquecendo (também) progressivamente. É um tema enérgico que termina com uma parte instrumental genial de cadência bem mais lenta em que o teclado de Francisco Ferreira assume o protagonismo com alguma carga dramática. Um final fenomenal, bem demonstrativo da capacidade criativa da banda.

Por esta altura, já tinha sido feita a primeira breve apresentação e referência ao álbum acabado de saír e também à mestria do técnico de som do grupo, Nuno Roque. Kudus. Seguiram-se quatro temas que foram apresentados exactamente na mesma ordem em que se distribuem no disco: “Tui”, “Flores do Mal”, o instrumental que dá o título ao álbum, e o já clássico “Célebre Batalha de Formariz”, o qual deu por definitiva a entrega do público e o júbilo generalizado, com direito a vários “mergulhos” para os braços do público da frente, incluindo o do próprio teclista, que não resistiu ao apelo da massa humana, como quem não resiste ao da água fresca de uma piscina num dia quente de verão.

Inteligentemente, o alinhamento recupera, neste ponto, um dos momentos mais enérgicos do anterior Gazela, “Febre”, mantendo assim eficazmente o calor e o entusiasmo, que já não abandonaria a sala até ao final do concerto. O álbum de estreia seria, aliás, mais vezes revisitado a partir daqui, com alguns dos seus melhores momentos. Depois de “Ideias” do novo álbum, o baixista Domingos Coimbra, encoraja o público a juntar-se mais ainda para a próxima, que acaba por ser das mais bem recebidas: “Sobremesa”, single do primeiro disco, com o seu ritmo altamente contagiante a pôr o público a saltar e a acompanhar em uníssono o refrão “ooh-hoo”.

“Santa Ana”, também um dos temas de eleição de Gazela, mantém o estado de êxtase e proporciona a ocasião mais apropriada para a apresentação de Salvador Seabra com o seu solo de bateria, a que se juntam as teclas, num dos momentos instrumentais da noite, o qual se prolonga pelo tema seguinte, um dos melhores de Pesar o Sol, e a escolha para segundo single, o grande “Maneiras Más”. Possivelmente uma das maiores provas da maturidade precoce da banda, demonstra também, de uma forma evidente, a apetência pela sonoridade do rock progressivo e psicadélico dos anos 60/70 (King Crimson, Pink Floyd, The Doors), quando passado pouco mais de dois minutos dos cerca de seis do tema, este se transforma numa longa secção instrumental de cadência lenta e repetitiva, marcada por uma linha de baixo a abrir espaço para o desfile tranquilo dos restantes instrumentos, que passa pelo festim dos teclados deFrancisco ‘Manzarek’ Ferreira e culmina nas guitarras de Tomás Wallenstein e Manuel Palhaem plena distorção.

Depois do anúncio ao concerto no CCB, marcado para 20 de Março, o alinhamento oficial é fechado, pouco mais de uma hora depois do seu início, com a quarta e última recuperação do primeiro álbum, “Verdade” (curiosamente, o tema que catapultou a banda para a ribalta em 2011; “Teresa”, ficaria de fora) que arranca mais um momento de grande entusiasmo por parte do público e mais uma letra cantada de cor e em coro. O inevitável regresso ao palco traria consigo o também tema final do álbum recém-lançado, o longo “Lameira” – outro momento de desencadeamento progressivo a rematar a apresentação no Lux com um final apoteótico de luzes, ritmo frenético e guitarras distorcidas e um mergulho final de Tomás Wallenstein.

Pessoalmente, os Capitão Fausto trouxeram-me a agradável surpresa de uma banda fortíssima em palco, com músicos de M maiúsculo, capazes da infrequente proeza de superar, numa prestação ao vivo, aquilo que já é bom em disco. Sonoramente, existe quase que um upgrade do que se ouve na gravação em estúdio, da qual se poderia dizer que apenas peca um pouco pela mistura mais indefinida dos diferentes elementos, quando em comparação com a clareza e discernibilidade  da sonoridade em palco – pelo menos assim fica marcada esta apresentação no Lux. De resto, fica a sensação de termos assistido a um culto. Um culto de seguidores fiéis a uma banda que, apesar da tenra idade, possui já esta capacidade de atraír um público devoto a partilhar consigo uma experiência de júbilo total por uma música inspirada, bem composta, bem arranjada, bem tocada, que tanto tem de novo como de velho, que tanto faz saltar e acompanhar os refrões a plenos pulmões, como a deambular languidamente por entre notas espaçadas de um psicadelismo inconsequente.

Todos ao CCB e ao que mais se seguir. Porque os Capitão Fausto são músicos sérios. E que caso sério eles são.