Com novo disco mas com a qualidade de sempre, os Capitão Fausto regressaram a um dos seus palcos favoritos no qual já foram muito felizes no passado. Tomando residência no Lux Frágil por duas noites, a tournée em prol de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados chegou finalmente à capital. A procura para o dia 28 foi tanta que a banda acrescentou uma nova data para ontem, dia 29, que também esgotou rapidamente: ninguém quis perder a festa ‘faustiana’, ninguém quis perder a oportunidade de aplaudir bem alto a celebração do terceiro disco de Tomás Wallenstein, Manuel Palha, Francisco Ferreira, Domingos Coimbra e Salvador Seabra.

Perto das onze da noite já a fila para entrar na sala de concertos do Lux parecia não ter fim, tal era a multidão que fez questão de marcar presença. Vinte minutos passados da hora prevista, as luzes apagaram-se para dar lugar a “Wuthering Heights” de Kate Bush, música à qual o quinteto alfacinha subiu ao palco. Logo de arranque e para dar entrada a um concerto que superou a hora e meia de duração, “Morro Na Praia”, faixa inaugural do terceiro longa-duração, demonstrou desde cedo que todos os presentes já sabiam de cor e salteado as letras das músicas de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados. Seguiram-se “Célebre Batalha de Formariz” e “Litoral”, e foram nelas que a festa se começou a fazer: na primeira, Francisco Ferreira deu como iniciada a época do crowdsurfing (seguiram-se milhentos por parte do público) enquanto que na segunda, a mocidade daquela sala pôs as mãos na massa e, entre cavalitas a saltos, todas as sílabas foram entoadas a plenos pulmões. Já no seu final, aproveitaram a oportunidade para elogiarem a plateia; “sabíamos que ambos os concertos estavam esgotados, mas em comparação com ontem, vocês parecem muitos mais. Obrigado por estarem aqui!” saudou Domingos, obtendo palmas e gritos como resposta.

Como se esperava, o recente disco foi o grande foco da noite mas ninguém diria que se tratavam de músicas novas; pelo menos a aceitação vinda fora do palco assim o ditava; “Semana em Semana”, “Dias Contados”, “Tem de Ser” e “Mil e Quinze” mais pareciam tratar-se de ‘clássicos’ vindos de Gazela, tal fora a convicção nos coros provenientes do público – com especial ênfase nos versos que sobressaiam como “Se eu tenho o fisco à porta devo ser ladrão” ou “Viva a vida de vegan em Portugal” – e a destreza da banda a tocar estes temas mais recentes. Nunca os Capitão Fausto soaram tão bem ao vivo, provando que a nítida maturação presente em Capitão Fausto Têm Os Dias Contados também se sente nas actuações. Que maravilha de se ouvir.

Apesar de se tratar de um concerto de apresentação, os anteriores discos não ficaram esquecidos, sendo estes que despertaram o lado mais ‘selvagem’ da grande legião de fãs dos ‘alfacinhas’. Empurrões, danças, crowdsurfing, saltos, houve de tudo um pouco na altura de exprimir o que as músicas de Capitão Fausto despertam no nosso interior. “Santa Ana” (uma das mais aplaudidas da noite), “Supernova” e “Zécid”, tocadas praticamente de seguida, levaram a casa ao rubro enquanto eram cantadas de uma ponta a outra – os próprios instrumentos eram trauteados – aos saltos ou aos abraços com desconhecidos, enquanto que, nas partes mais instrumentais, a sala de concertos do Lux ficou inundada por diversas marés de crowdsurfing (houve um momento em que quatro jovens estavam no ar) e ninguém se pareceu importar, a não ser aqueles que não aguentaram muito tempo no ar e sofreram algumas quedas horripilantes… para regressarem novamente para o ‘mar’. Afinal, os portugueses sempre foram vistos como marinheiros audazes.

Aproximando-se o final do concerto, ainda houve tempo para rever novamente um pouco de Pesar o Sol através de “Ideias” e “Nunca Faço Nem Metade”. Os refrões desta foram entoados de tal forma que a banda fez um break para que o público demonstrasse toda a sua aptidão musical; quis-nos parecer que não só o demonstraram como encheram o coração dos Fausto de uma felicidade enorme por saberem que a sua música conseguiu todo este leque de indivíduos tão distintos mas ligados por estes cinco rapazes. De forma a agradecer, nada melhor que o brinde mais esperado da noite, “Amanhã Tou Melhor”, o primeiro single para este novo trabalho. Para esta recente malha, o público sincronizou-se (telepaticamente) e saltou e cantou até mais não conseguir. Supostamente, Domingos, Manuel e Francisco faziam coro a auxiliar Tomás durante quase toda o tema mas o coro vindo do público falou mais alto, naquele que foi o momento mais celebrado e aplaudido da noite.

Para o encore que foi antecedido por um solo do Triple F (Francisco ‘Ferrari’ Ferreira), houve uma música para cada um dos álbuns: “Alvalade Chama Por Mim” trouxe o movimento clássico do ‘mãos no ar, agora para a esquerda, agora para a direita’ naquele que foi dos momentos mais apaziguadores e bonitos de uma intensa noite, “Maneiras Más” e “Verdade” que desencadearam toda uma sessão de loucura e onde as energias que ainda sobravam, foram gastas. Antes de abandonarem o palco, ainda se gritava pela velha “Teresa” mas, sinceramente, os Capitão Fausto já não precisam desta para conquistarem o público e assinalarem um grande concerto.

Eles dizem que Têm Os Dias Contados mas, com base no que se passou ontem, é quase impossível ficar cansado destes rapazes. Há uma expressão popular portuguesa que dita que “o futuro só a Deus pertence”; pois bem, agora aquilo que nos resta é rezar-Lhe fortemente para que os Capitão Fausto percam a conta aos seus dias e que noites como as de ontem não tenham os seus dias contados.

Capitão Fausto @ Lux Frágil