O famoso clube dos 27 completa em 2018 os seus 80 anos. Os primeiros 80 anos de uma maldição que vem progressivamente colhendo com a foice da morte alguns dos nomes mais importantes de um género que desde 1938 foi condenado pelas artes mágicas e negras de Lúcifer. Reza a lenda que Robert Johnson, o senhor que tratou de condenar o rock n’roll – ainda nem ele tinha sido baptizado -, a uma estrada directa para o inferno para alguns que tocaram o ponto da genialidade e marcaram a história tanto do género como da música em geral, se encontrou com o senhor dos infernos num cruzamento em Clarksdale, Mississipi nos anos 20. Johnson era um rapaz que queria ser bluesman e seguir as pisadas de Son House, mas que tinha um talento inversamente proporcional a essa vontade de atingir o estrelato, e era recusado e ridicularizado pelos bluesmen à época já estabelecidos. Um dia desaparece e regressa algum tempo depois dotado com o brilhantismo que fez dele uma das lendas maiores do blues e do que viria a ser mais tarde o rock n’roll.

Fazendo fé nas próprias palavras de Johnson, marcadas a ferro quente na alma e nas letras das suas músicas, o diabo ofereceu-lhe um dom em troca da sua alma. Uma morte violenta e inexplicável aos 27 anos fez o resto e estava pronto o primeiro conto de glória e tragédia do rock. Nascia assim a primeira rock n’roll star e estava aberto um clube onde anos mais tarde se iriam reunir com Johnson, Brian Jones, Jim Morrison, Cobain, Janis Joplin, Kristen Pfaff das Hole ou Pete de Freitas dos Echo & The Bunnymen, entre muitos outros. Como dizem os nossos hermanos da Galiza, no creo en brujas, pero que las hay, las hay, e o certo é que eles lá vão sendo imortalizados aos 27 em nome de vidas rápidas, extremas e normalmente pautadas por excessos glamorosos.

Se Johnson e o demo têm algo a ver com isto ou não, é caso para outros exorcismos, mas o certo é com o afastamento progressivo de um verdadeiro e (im)puro espírito do rock n’roll dos olhares do grande público, com o domar das bestas do passado e com uma mainstreamização de tudo que tem sido hype, ondas mediáticas, movimentos e afins desde que o grunge foi dado oficialmente como defunto – se é que alguma vez foi realmente um bloco real e uniforme tanto de som como de filosofia –, o panorama geral tem sofrido a falta de uma verdadeira energia daquelas que faziam levantar os mortos, que cantavam revoluções e que construíam mártires e heróis do berço até à campa. A massificação da música, a desconstrução dos formatos discográficos através de streaming, aparelhos de mp3 e telemóveis que facilitam tudo menos um real aprofundar do trabalho de um artista e incentivam a trivialização das linhas de montagem chamadas de summer festivals, tornaram a arte de escrever canções num mero acessório aos olhos do público, e em abono da verdade, de larguíssima fatia do bolo – que já não leva drogas mas sim os mais refinados produtos gourmet –, das bandas e songwriters que foram largados na crosta terrestre durante este milénio.

Se Johnson e o demo têm algo a ver com isto, está explicada a danação, mas com o aproximar do final da segunda década do milénio começamos a assistir a uma real necessidade de um real regresso a um futuro que tarda a chegar e que aos poucos começa a ser palpável e sentido. Está aberto um espaço para o regresso do rock seja, pelo estado político do mundo, seja pela necessidade de salvação do planeta, seja pela clara necessidade do público de sentir a vibração especial e única que é uma grande canção de rock e um grande concerto de rock. O NOS Alive pode ter atirado efectivamente com o primeiro tijolo à janela frágil que nos tem separado do rock, e com pelo menos 8 bandas ao longo de três dias a ter usado esse mesmo tijolo para edificar um novo templo ao rock.

A ligação do rock às temáticas demoníacas tem atravessado décadas, alastrando-se pelos seus subgéneros e colando-se institucionalmente a universos mais pesados e pouco presentes – ou praticamente inexistentes num desenrolar longo de anos –, nos cartazes dos festivais de verão; mas o certo é que o capeta parece ter querido dar um ar da sua graça por Algés através das mais insuspeitas incorporações e manifestações, afirmando-se assim como elemento essencial ao bom equilíbrio energético da humanidade e deixando a sua marca bem vísivel.

Ryan Adams Alden Bonecutter

Ryan Adams por Alden Bonecutter

As nossas apostas vão para que boa parte da responsabilidade seja atribuída a Ryan Adams como o rock n’roller exorcista de serviço. Na verdade, um anti-exorcista, que clama ao palco a presença dos antigos espíritos do rock e limpa as energias de tudo o que não carrega na sua genética o poder daquela que em tempos idos foi baptizada – desculpem os anjos caídos pelo uso do termo tão católico –, de satan’s music. Ainda antes das luzes se acenderem, um perfume quase instantaneamente reconhecível a arruda aproxima-se das filas da frente – fica a nota para os menos letrados nas artes das ervas e das mezinhas que a arruda é elemento essencial para a limpeza das energias negativas de espaços e pessoas. A banda entra em palco, e pouco depois Adams toma o seu lugar no ritual. Rodeados de televisões trinitons, e outras realmente antigas, tigres, ratos de peluche e uma parede de amplificadores meramente decorativos, Ryan Adams e os seus Shining deixam a descoberto o queimador de onde sai o fumo da arruda. Palco limpo de energias menos rockers e está aberto o caminho para o domínio das guitarras com algo para dizer no NOS Alive.

Ryan não faz prisioneiros e com uns The Shining absolutamente muito acima da fasquia, arranca logo com uma trilogia que não deixa margem de dúvidas sobre os propósitos da cerimónia. “Do You Still Love Me?”, “To Be Young (Is to Be Sad, Is to Be High)” e “Gimme Something Good”, três músicas, três discos: Prisioners (2017), Heartbreaker (2000) e Ryan Adams (2014). O rock a atravessar o tempo e a alojar-se nas margens de um rio de reflexos muito pouco comuns no panorama alternativo e até nas paisagens bem aceites do rock da actualidade. Os sons dos anos 80 e de alguns da década seguinte encharcam este Ryan que existe em 2017 como uma das figuras mais nervosas e irrequietas da cena. Já se conhece a compulsividade não só criativa como de lançamentos do singer-songwriter da Carolina do Norte mas Prisioner traz um lado de Ryan que é agora transportado para palco de forma clara: ele quer salvar o rock n’roll, ele tem uma missão a cumprir e nada o faz parar. Adams chama a si as memórias habituais de Springsteen, de John Mellencamp e de Tom Petty para a missa purgatória mas pega naquilo que comummente se arrumou na prateleira da gordura e atiça as labaredas com ecos da fase inicial e mais bluesy dos Whitesnake, de Don Henley e do outro seu quase homónimo a quem pediu um B emprestado durante alguns momentos: poses de guitar hero, solos de guitarra virtuosos divididos entre si e Mike Viola, gritos de guerra a chamar ao palco e ao público o trovão do rock.

Sem gastar tempo com muitas palavras, até porque festivalar é acelerar ou reduzir o tempo de actuação –   não ser que que sejas o David Grohl mas a isso já lá vamos mais tarde –, Ryan Adams regressa a Prisioner com “Doomsday”, uma canção feita para ser cantada em coro que conduz pelos caminhos das estradas de terra batida norte-americanas tão marcantes no mais recente trabalho de Adams e que se cruza com “Let It Ride” num cruzamento no Tennessee e na tenda do Heineken. “Magnolia Mountain” resgata o country side de Ryan, “Outbound Train” é simplesmente líndissima e oferece o melhor que há na americanidade, “Where the Stars Go Blue” não escondeu as lágrimas que a escreveram, “Peaceful Valley” encara o psicadelismo de frente com espaços para momentos a cappella, um solo de guitarra cósmico, teclados jazzy, baterias sincopadas e tribalizadas, e uma muralha imensa de noise com a revolta de quem quer chegar a casa depressa vindo de uma longa travessia sem rock.

Para a despedida, Ryan dá uma volta e um “Shakedown On 9th Street”. A velocidade é alta e uma personagem de manto negro da cabeça aos pés, máscara de demónio e pandeireta na mão que tinha já subido ao palco anteriormente, regressa enquanto Adams uiva as palavras Boots all dirty, sexy and thin e grita por Lucy… será um nome carinhoso para Lucifer? Há aqui um simbolismo qualquer, não há?. Isto é rock n’roll sentido e pensado para a liturgia sagrada que Ryan veio pregar a Lisboa. Ele conjurou-o, e ele materializou-se. O rock do demónio, esse mensageiro que fez descer à Terra a banda sonora que costuma enfeitar as paredes dos infernos e o trono de Belzebu e a quem Ryan prestou vassalagem aquando do statement que pregou em palco e que correu mundo. A crítica vai muito além da banda a quem numa sinédoque maldizente Ryan Adams se referiu: atinge as editoras que imprimem, os media que divulgam, o público que consome cegamente o que lhes é arranjado numa bandeja. E o rock? O rock, esse, permanece à espreita, e enquanto isso, vai aparecendo timidamente, de soslaio, aguardando pacientemente fora do mainstream a janela de oportunidade para incitar ao pecado todas as almas que neste momento ocupam os confessionários de pureza e inocência de um indie quase blasé. E também todas aquelas que não se importam com picadas de mosquitos.

We’re sorry about alt-J. It’s like a mosquito bite — if you ignore it, it’ll go away. I’m just kidding. I love Nickelodeon. It’s a great channel.

Benjamin Booker @ NOS Alive '17

Benjamin Booker @ NOS Alive ’17 por Carlos Mendes

Seguindo nas pegadas de Ryan e clamando bem do alto as raízes do rock n’roll, Benjamin Booker é testemunha no presente dos efeitos que a soul, o r&b e o blues tiveram no rock. Dois discos apenas e uma voz velha como os campo de algodão onde os inventores de tudo isto que hoje se interioriza como sendo rock são os ingredientes de Booker para a sua primeira passagem por Portugal. Uma estreia que testemunha o potencial visionário – embora a visão esteja colocada no espelho retrovisor –, da abordagem do compositor de Virginia Beach a um espectro alargado de várias ramificações da música negra norte-americana. Se de um lado encontra paralelo contemporâneo com outros reinventores do passado como os The Dead Weather e Hanni El Khatib ou os The Black Keys e o trabalho a solo de Dan Auerbach do lado dos emuladores brancos, e de Son Little, Curtis Harding, Charles Bradley ou Gary Clark Jr. no ramo mais directo da genealogia, por outro lado alinha-se claramente num outro grupo onde habitam Jeff Buckley e Ben Harper enquanto leitores muito particulares da história que de forma muito especial já dois dias antes tinha tido o ritual de Ryan Adams como um ponto magnético que atraía os detalhes mais puristas da longa história do rock n’roll para o palco do NOS Alive.

Introspectivo mas poderosíssimo, de poucas palavras mas de profundo diálogo com as guitarras rock laminadas pelo punk e pela soul, Booker teve uma passagem fulminante pelo Palco Heineken. Incisivo como o rock deve ser, rápido como o punk dita nas suas regras fugazes de 1,2,3,4 go, um pregador da congregação r&b que toma como sua e de todos a mesma bíblia luciferiana de Johnson e que através do poder lancinante dos altos volumes de som de um concerto purga a sua própria existência defronte de alguns fiéis e de uma massa indiferente de curiosos da sua forma sónica de confissão e expiação de pecados. Agarrado ao melhor combustível para a voz corroída essencial a qualquer verdadeiro bluesman, Benjamin e os seus constantes cigarros descarregaram décadas de rock e de angústia em cerca de 40 minutos de teletransporte imaginário directo aos bares negros onde a soul da América dos anos 30, 40 e 50 ganhou corpo e alma.

Uma performance de força e distância que ancoradas em temas como “Have You Seen My Son?” e “Violent Shiver” do disco de estreia homónimo e “The Slow Drag Now”, “Believe” e, claro, “Witness” do disco do mesmo nome editado este ano, podia e devia ter angariado valentes novas hostes de believers, não fosse o horário ser mais adequado a sons plácidos e serenos. A cerveja ainda não chegou ao sangue, o calor pede uma cama de rede ou o contacto directo com um relvado, e dificilmente o lado mais garage, punk e surf da soul conseguem viver nestes períodos do dia. O que mais tarde teria sido um concerto para mais tarde recordar e para ser saboreado como um copo de whiskey bebido numa roadhouse no Mississipi, acabou por não conseguir atravessar a barreira que separava o poder sónico que era destilado no palco e fazê-lo chover da forma ébria que deveria sobre o público. Ficamos desde já a aguardar que o destino nos cruze o mais depressa possível numa sala com o bafo a tabaco e a história cuspido por Benjamin Booker. Quanto a nós, hallelujah, motherfucker!!!

Por Pedro Miguel Alexandre e Rosana Rocha