Às vezes, surgem na Tracker discos ‘perdidos’ cuja pertinência convence os editores a divulgá-los, também pelo próprio contexto. A França é um oásis do psicadelismo, subestimado injustamente só por não ter se submetido ao Inglês. A França que desenvolveu o tão cool yé-yé, porque nos 60s, além de ser a democracia avançada que gerou o Maio de 68 e estar abençoada com três orlas costeiras, uma das quais virada a Oeste (como em Portugal), teve dois bónus: a costa Norte ouvindo os ecos da Grã-Bretanha e a costa Sul banhada pelo morno Mediterrâneo, de cujas confortáveis águas poucos corpos querem sair, excepto para… Yé-yé, la fête, what else?…

E foi assim que, com muito talento, um tal trombudo Serge Gainsbourg emergiu como um dos ícones mais cool tanto dos 60s como do psicadelismo, além de da própria França contemporânea, aquela que não hostiliza o Inglês e ofereceu ao mundo os Daft Punk ou os Phoenix, sem deixar de produzir em Francês para a global francofonia. E é em Francês e com um conceito musical herdeiro de Gainsbourg que Pierre Chandeze apresenta Monster Surprise, um engenhoso nome dúbio, apto para o Francês e também para o Inglês como a original sonoridade do projecto, que sendo psicadélica está mais próxima da lo-fi que da clássica chanson.

Uma introspectiva ascensão espiritual

Chhh…, o álbum, imediatamente revela o seu astral roady, nos primeiros compassos de “Absence Minocturne”, que naquela versão da original “Midnight Absence” gravada com Shelby Bryant (The Clears) em 2012, é curta balada de introdução que a guitarra alt-country situa a la campagne, um campo animado por onomatopeias sonoras e por zumbidos sintetizados (de tipo kazoo) dando ‘voz’ a insectos voadores, protagonistas do imaginário outdoor, tanto em diurnos piqueniques como em nocturnas saudades reclusas ‘onde Judas perdeu as botas’, dificilmente saciáveis; “Absence Minocturne” revela também uma voz tipicamente francófona, no bom sentido – grave, sensata e sensível, introvertida, com traços parecidos com o timbre ligeiramente nasalado do grandioso Aznavour -, envolta naquela música esteticamente posterior.

A confirmação de que Chhh… é um disco musicalmente contemporâneo está veiculada ao longo da segunda faixa, “Merde”, cujo título azedo a situa na pop iniciada pelo irreverente Gainsbourg. Uma pop ligeira, esparsamente salpicada por notas dreamy de metalofone, ágil, muito dançável, mas sobre a qual Chandeze cantou um lamento auto-depreciativo que se afunda no drástico refrão “Minha cabeça está cheia de esterco. De esterco!”, como um delírio que foi repetido saltando ao som da pulsante música, que parece surgida numa viagem em estrada aberta ou num dos TGV que atravessam a França.

Aumentando o volume de distorções sonoras, “Lignes Au-dessus Des Lignes” é uma balada que eleva o ouvinte para um patamar espiritual superior ao entendimento terreno; desde as primeiras notas dos teclados electrónicos, emerge uma impressão retro, cool como a ficção científica de Barbarella e filmes similares do período psicadélico dos 60s e 70s, reforçada pela letra muito gráfica, ao longo da qual Pierre alucina sucessivas linhas, que canta num registo tranquilizante como o de Etienne Daho, em contraste com os crescentes ruídos de sintetizador que aprofundam o transe.

E a progressão psicadélica é acentuada em “Ravale Tes Serpents” (Aquieta Tuas Serpentes), uma bolha sonora de um discurso político-existencial imaginário, sobre (falta de) humanismo, num cérebro aparentando estar sob efeito de alucinógenos que exponênciam a reverberação interior de cada afirmação. O sentido de toda a primeira metade do disco chega coerentemente sintetizado em “Bien À Toi” (Bem Para Ti), um rock em velocidade de cruzeiro que concilia uma bateria cold wave e as hegemónicas distorções psicadélicas, para um plausível single digno de passar nas rádios alternativas, no que é outra versão de um original de Chandeze em Inglês: “I’ve Got You On My Mind” dos Carton Sonore, gravada em 2012.

Meditando na bolha

Oportunamente a meio de Chhh…, oferecendo um período refractário aos espíritos dos ouvintes de um álbum que é sonoramente denso – e por isso psiquicamente exigente -, “Surprise” é um vagaroso interlúdio instrumental, no qual o sino de metalofone volta a estar oniricamente omnipresente, para pontuar uma guitarra acid jazz dedilhada por um ar rarefeito, que tanto pode ser o do calor da Riviera como o sentido por um cérebro inebriado. E porque Chhh… é um álbum de pop francesa, não é menos oportuno o yé-yé contemporâneo a la “Be My Baby” de Vanessa Paradis na coral e galáctica “Avis Aux Parents”, que é um refrão instrumental do início ao fim, sobre o qual é repetido o mantra de aviso aos pais, com algumas variações ao longo da canção e do crescente noise dos sintetizadores que sugere um sonho tardio, já no início de uma manhã de escola para o(s) filho(s).

Entre várias coisas que não se deve dizer, inconfessáveis – Chhh… – “N’est-ce Pas Une Bonne Idée?” é um escapista convite de Chandeze (talvez a si próprio) a ignorar o passado, sem se afundar nas memórias de coisas que correram mal, e a serenamente aceitar qualquer realidade vindoura após aquela limpeza de alma, tentando focar os aspectos positivos, um convite processado primeiro numa reflexiva lo-fi, onde surge a questão do título, mas que a meio progride convictamente para a optimista pop do refrão, antes da nota final, suficientemente longa para nos suspender no deixar fluir advogado naquele refrão.

O mais anti-single dos temas de Chhh… é a longa “Parade Désastrale”, uma surrealista canção bipolar que ao longo de seis minutos alterna entre a austeridade de compassos teatrais, nos quais Chandeze declama sobre notas quase soltas de (contra)baixo e depois de teclados, e o frenesim de delirantes compassos quase instrumentais, para terminar numa distorção suave que se arrasta até à faixa seguinte. E o tema seguinte é mesmo a última faixa de Chhh…, uma etérea balada “De Coton”, leve como nuvens altas onde Pierre Chandeze se despede do ouvinte, não necessariamente shoegazing, mas olhando para baixo como um cosmonauta em órbita contempla a Terra, ciente de que ‘lá em baixo’ muita gente devia poder levitar (mais) os espíritos, para melhor sobreviver aos problemas terrenos.

É tempo bem gasto, a audição de Chhh…, um bom disco pop que nos permite dois extras: uma eloquente pausa da hegemonia do Inglês e da nossa língua materna e recordarmos ou confirmarmos que a França não estagnou na clássica chanson e, mesmo em Francês, partiu da renovação daquela (celebrizada por Gainsbourg) para a integração nas principais tendências contemporâneas da pop, das quais a alternativa lo-fi psicadélica de Monster Surprise é um bom exemplo.

Monster Surprise - Chhh...

Monster Surprise – Chhh…