Gostava de te poder guardar enquanto segredo mais tempo, muito mais tempo. Gostava que ficasses guardado dentro da minha caixa de música, aquela especial onde só guardo as jóias mais raras. Porque há canções que não têm espaço no mundo da forma que nós o conhecemos. Há pessoas que (nos) cantam de forma tão única e especial que qualquer contacto com o mundo exterior deixa a sensação que a sua fragilidade não vai aguentar o peso da atmosfera terrestre e se vai estilhaçar em pequenos cacos de chuviscos de cristais, neste caso, de pedaços de neve, a mais branca e triste de que há memória. Gostava de te guardar p’ra mim.

É algo etéreo, e de poucas discrições possíveis, o que se passa em cima do palco da inacreditavelmente lindíssima sala da Escola de Música do Conservatório Nacional – a visitar com a maior brevidade quem não conhecer. Havia uma curiosidade muito particular de quem anda com Winter Games, o disco de 2013 de Garneau, no bolso de trás das calças desde o dia em que saiu. Como se iriam transformar em palco os violinos, as electrónicas e o folk barroco metafísico mas urbano de Chris e seus lamentos. Lamentos no bom e melhor sentido possível! Transformaram-se em teclas de um piano de cauda sem temporalidade clássica, numa timidez deliciosa e no teletransporte para uma época passada em paisagens que não existem. Há cafés e livrarias numa Brooklyn romântica lado a lado com uma Viena de valsas lentas modernizadas e há talvez uma Paris que não se encontra nos livros nem nos cabarets burlescos de Montmartre… esta Paris tem mais dores que uma cidade pode conter nas suas paredes, nos seus jardins e nos seus rostos sem norte.

Pelas frestas de uma iluminação mínima passavam as histórias de Chris Garneau. De forma perfeitamente equilibrada viajou-se entre Winter Games e Music For Tourists – coisa que não habita na sala oitocentista onde o silêncio reverente é de quem sabe e quer ouvir cada palavra do menino vestido de negro. Doc Martens no pedal do piano e olhares baixos com tanta dificuldade de olhar em frente! Uma noite de Domingo sem preço nem holofotes. Somos só nós e ele e o privilégio de poder ainda estar com Chris desta forma antes de haver uma sala da Aula Magna ou de um CCB pronta a engolir esta intimidade que só nós é que tivemos nesta primeira visita de Chris ao nosso país.

Entre “Our Man” a abrir a noite até “Halloween”, poucas horas depois dos espíritos terem voltado às tumbas, que fechou algo que se queria mais e mais, visitou-se Jeffrey Dahmer, o canibal de Milwakee em “Love Zombie”, visitou-se Elliot Smith e a sua “Between The Bars”, um dos momentos mais bonitos da noite que não deixou um milímetro de pele sem um arrepio enquanto se saltitava entre o primeiro e o último disco de Chris Garneau. As incontornáveis duas partes dos nevões de “Winter Song”, a quase natalícia e altamente analítica “The Whore In Yourself”, a chanson française tipicamente nova-iorquina de “Pas Grave” brincaram connosco aos Winter Games e as confissões pop de câmera de “Relief”, “We Don’t Try” e “Not Nice” falaram-nos ao ouvido de coisas que já sabíamos na pele, são as histórias de todos nós na voz suave e celeste de Chris Garneau.

Antes de nevar houve uma erupção… uma erupção de palavras vulcânicas vindas de um senhor de chapéu e de Bocage na alma. Bruno Pereira, o Senhor Vulcão, não é cantor, nem compositor, é uma sequência de palavras assassinas, de poemas da rua, de assobio fácil e acordes simples. Desconfia-se que os Marks Eitzel e Kozelek habitem as prateleiras de discos nas montanhas do Senhor Vulcão, um Dylan nascido num Texas português suburbano , um The Tallest Man On Earth de guitarra em punho e de Adolfo Luxúria Canibal e Zeca Afonso ao colo. Alguém me falou de Current 93 e no clássico All The Pretty Horses e também é verdade na forma como Bruno debita as palavras, na forma como a luz entra de forma muito escassa por entre as respirações e na sensação quase ritualística das composições que fazem parte de Montanha, Vol.1, o disco de estreia que Senhor Vulcão apresenta nesta noite especial.

Que se percam as nossas almas em noites de Domingos assim, por esta Lisboa que nos sabe tão bem.

«…get more in touch with the whore in yourself»