Cícero carrega o apelido Lins de um dos mais imponentes nomes da música brasileira de seu primeiro nome Ivan e carrega uma Rosa no seu nome. E Cícero talvez se encontre no meio disto mesmo. Ocupando o seu lugar tão especial no mundo, oferece a beleza espinhada das suas canções que balanceiam tanto nas ondas que rebentam nos aplausos de fim de dia do Posto 9 em Ipanema como na solidão sincera, amada e desprendida da essência carioca. A solidão mais cheia de amor e gente que existe por aí. Cícero oferece também esse classicismo dos grandes vultos da história da MPB e da Bossa e até o samba lhe aflora aos poros de forma esquiva mas inclusa. Não será tudo isto uma parte integrante do ADN carioca?

Mas Cícero vai mais além. Atravessa o Túnel Martim de Sá que nos leva até a boémia da Lapa e a aura intelectual e artística de Santa Teresa e redesenha o classicismo das composições dos mestres com todas as influências que a sua contemporaneidade acarreta. Cícero é em si mesmo um compositor da mais fina safra brasileira com a capacidade e a inteligência soberba da fusão com o mundo independente. Leve-se como exemplo a melancólica “De Passagem” onde as sombras do sertão se entrelaçam nos teclados negros e numa aura cinza onde “tudo foi desbotando até desaparecer”. Tão ocidental no seu cinzento urbano paulista e na realidade de uma cidade que é tão mais que sol e cerveja e futebol.

Tudo começou num apartamento cheio de canções em 2011. Um disco de estreia que atinge logo de rajada uma maturidade e uma excelência difícil de superar. É viva e marcante as influências dos antigos um pouco por todo o lado. Jobim está nas letras que são tão suas mas a quem agradeceu em tempos por ter crescido com. Canções de uma intensidade brutal como “Eu Não Tenho Um Barco, Disse a Árvore”, “Laiá Laiá” e “Ponto Cego”, canções com a suavidade carioca como “Vagalumes Cegos” e a inevitável “Tempo de Pipa” constroem a moldura que embeleza “Canções de Apartamento” que atinge o seu ponto máximo com a amargura desesperada de “Açúcar ou Adoçante”, uma marcha dorida e sufocante que nos fala ao coração de uma forma tão próxima e penetrante – “Entra pra ver/Como você deixou o lugar/E o tempo que levou pra arrumar/Aquela gaveta/ Entra pra ver/Mas tira o sapato pra entrar/Cuidado que eu mudei de lugar/Algumas certezas/Pra não te magoar”. Existe um arrepio constante e eterno nesta canção por mais que as centenas se acumulem no player.

Dois anos depois Cícero enfrenta a tormenta do segundo disco. Divide opiniões avançando com um disco mais minimalista e contido, pejado de detalhes electrónicos. A bossa é mais que nova, é esquiva, é um barco de experimentação que encontra par em In Rainbows dos Radiohead e cola as etiquetas de imprevisísel e de conceitualista a um jovem compositor apenas preocupado em escrever sobre sentimentos, dores, experiências, existências e seres humanos mais ou menos ficcionais na sua vida. O tsunami de emoções não desaparece apenas se flexibiliza e absorve emoções em espaços mais exíguos e sintécticos… mas ainda se vê a Pedra do Arpoador daqui e ainda sabe a uma Zebu fresca bebida com o sol a pôr-se no horizonte que inunda de luz o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea. Cícero continua a estar sentado no meio de nós a cantar os nossos dias.- “Cê tá em paz?/Tá tudo bem?/E o que que a gente faz daquela angústia?/Heim?/E se um dia precisar/de alguém pra desabar/Eu tô por aí.” Cicero somos nós todos.

2015 é o ano que Cícero sai de casa, vai sem culpa nem ressentimento que nem menino bobo. A Praia afirma Cícero como um dos poetas a ter em atenção no que toca ao novo lirismo brasileiro. A cada palavra e a cada frase que se cola a nós, Cícero torna-nos mais ricos, mais fluentes nos dialectos da humanidade sensitiva, enche-nos de histórias-espelhos de nós e dele, abre a porta de casa e leva-nos mesmo À praia mas a uma praia que não vem nas brochuras de turismo. Esta praia está apenas na nossa cabeça mas pode ser vista do Mirante do Roncador sem o som da cidade que já ficou para trás por perto.

Desde “Frevo Por Acaso Nº2” que abre o disco – e dá continuidade a “Frevo Por Acaso” que fecha o anterior Sábado – passando pelo tema-título “A Praia”, a dose de paz take-away de “Camomila”, o trem do acaso que traz plenitude de “De Passagem”, o antidoto para a dor de “O Bobo”, a solidão rasa e pesada de “Soneto De Santa Cruz”, a perdição de “Isabel (Carta de Um Pai Aflito), a breve análise da essência humana de “Albatroz”, as caixinhas de música tristes e doces na companhia de Luiza Mayall de “Cecília e a Máquina” que se sente estarmos a visitar uma história de uma vida de alguém, cinematicamente, de cena em cena, entrando e saindo de momentos da vida quotidiana de um alguém. A Praia acaba com “Terminal Alvorada” e tudo está bem na mansidão violenta do Rio. “…e a vida segue sem alarde”.

São apenas três os discos que Cícero deixa até agora como legado da nova música carioca, da nova música brasileira, da música em todo o seu esplendor máximo e sem fronteiras de línguas ou linguagens estécticas. Cícero é uma cidade numa canção sobre a verdade de um povo. A quem souber ler, bem-vindos ao real Rio de Janeiro, ao Rio de Cícero.

Datas

Cícero regressa mais uma vez a Portugal depois do Primavera Sound em 2015, do Mexe Fest em 2013 com Wado e MoMo e de subir ao palco do Musicbox no ano passado. 2016 é ano de mini-tour de apresentação a A Praia. As datas são as seguintes:

02 Março – Estudio Time Out – Lisboa
03 Março – Escola de Artes e Ofícios – Ovar
04 Março – Theatro Circo – Braga
05 Março – Cine Teatro Avenida – Castelo Branco

Todos os discos estão para download gratuito no site oficial de Cícero aqui.