Falar de cantautores contemporâneos, principalmente do nosso país irmão, é sinónimo de falar de um dos mais requisitados e apetrechados músicos brasileiros: Cícero. À memória, saltam-nos nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, que fizeram da música popular brasileira aquilo que hoje conhecemos. E não apenas deixá-la no esquecimento. É como como se nós, portugueses, deixássemos o fado de fora da nossa cultura tradicional. A diferença entre ambos os géneros está na riqueza de influências e no objectivo das mesmas. Enquanto nós exorcizamos a alma e cantamos a saudade platónica com alguma tristeza, os brasileiros tocam para serem felizes. Não há como não ficar com um sorriso nos lábios quando ouvimos um tema do género. Mas levemo-los a sério: a política e a opressão também lá está e sentimo-las na pele.

Mas Cícero. Este carioca que se apresentou ao público em 2011 com Canções de Apartamento, álbum que fora gravado exactamente onde o nome indica, no seu apartamento. Tudo de forma independente. E é desta forma que chegam Sábado e A Praia. Todos os registos foram lançados gratuitamente na internet, não fosse esta uma forma bonita de fazer chegar um cheirinho daquilo que se ouve no Brasil. Pensemos nos álbuns como uma homenagem aos heróis brasileiros dos anos 70 mas a piscar o olho aos nossos próximos Los Hermanos, de Marcelo Camelo e companhia.

Um sítio cheio de gente, suficiente para intimidar qualquer um mas que, com simpatia e humor, se fez sentar a pedido de Cícero. É num cenário quase familiar, como se estivéssemos em comunhão naquele mesmo apartamento de Cícero. Não há apenas guitarra e voz porque para o próprio isso soa ‘mal’ – mas o que é certo é que resultou -, há também ‘a máquina’. Termo simpático para os ritmos e sons saídos do computador. Estes só nos deram uma maior envolvência e proximidade às músicas. Sentia-se o conforto.

As músicas, essas, foram surgindo, o alinhamento não era fixo e houve sempre tempo para alguns pedidos. Arranca com um par de temas do último álbum: “A Praia” e “Capim-Limão”. Há um certo ar trovadoresco, de encantador em Cícero. “De Passagem” para “Asa Delta” e o primeiro regresso àquele mais pedido álbum – o primeiro –, e com o primeiro grande coro em “Tempo de Pipa” e “Ela e a Lata”.

O concerto tornou-se num momento de conversa, de interacção e quase de demonstração do que nos tem para mostrar. Completamente despido, sem adereços mais do que necessários. Tão terreno que deixa de ser um concerto dentro dos parâmetros normais do mesmo. Há tempo até para pedidos especiais de músicas e para mostras especiais, como a cover de “Back In Bahia” de Gilberto Gil. O próprio admite ter-lhe sido difícil de decorar e por isso é que a “vai tocar sempre que puder”. Mesmo com o aviso e a consequente conclusão de falhanço pelo próprio, fica-nos uma clara nota positiva e que de todo não desrespeitou a versão de Gil.

Houve direito a tudo, até mesmo a ajuda em coros ou cantoria de instrumentais. Em Cícero há de tudo. E gostamos. Há também “Albatroz”, “Duas Quadras”, “Porta, Retrato” e a belíssima “Terminal Alvorada”, culminando num coro e sorrisos por todo o lado.

Bem tentou ir embora mas nem o público e a porta de saída o deixaram e assim tivemos direito a mais três músicas, a pedido da plateia: “Ensaio Sobre Ela”, “Açúcar ou Adoçante?” e “Laiá Laiá”. Momentos deliciosos para acabarmos e irmos felizes para casa a cantarolar nas nossas cabeças. Fica a promessa de arranjar “novos formatos para apresentar as músicas para voltar ao Porto”. Nós fomos cobaias dele mesmo e queremos repetir.

As imagens de Cícero na cidade do Porto por Marcelo Baptista:

Cícero @ Maus Hábitos