Quando um músico tem lotação esgotada no regresso a um lugar, sabemos que a música dele cresce ao vivo e/ou que ele alimenta uma boa relação com o público que o acarinha. E o brasileiro Cícero evidenciou isso mesmo na última quarta-feira ao longo do seu afectuoso concerto na Casa Independente, com lotação esgotada para escutar a concepção alternativa de bossa nova e samba (e outros estilos) que tem desenvolvido.

Como é habitual naquele espaço, Cícero era esperado num ambiente tranquilamente salutar: noite quente, muitos copos hidratando as mentes, um público multigeracional, previsivelmente de maioria feminina e gay friendly, com espírito casual chic e ao qual nem sequer faltou uma senhora ostentando bibliofilia, com um livro debaixo do braço, sugerindo que Cícero Rosa Lins também é apreciado pelas letras que escreve.

Imprevisível o Mac, não o público

Cícero apareceu no palco discretamente – em contraste com a eufórica ovação que recebeu antes mesmo de tocar ou cantar qualquer nota -, trajando confortavelmente jeans e uma sóbria t-shirt escura sem estampado para tocar a solo a viola e operar um Macintosh portátil com os instrumentais, além da viola, pré-gravados. E foi com um discreto “Allô. Boa noite” que o carioca saudou uma plateia entusiasmada, antes do “Ela me tirou de casa” que inicia o conhecido tema “A Praia” que deu nome ao seu último álbum. Imediatamente, o coro feminino foi activado e começou também a cantar a letra sabida de cor sobre a percussão e as cordas gravadas no Mac, juntamente com Cícero.

Quem estava no fundo da plateia tinha ainda uma atracção extra: junto ao bar, onde havia uma folga de espaço, uma jovem iniciou um espontâneo solo de dança que se prolongou pelo que se revelou ser um medley – sem pausa, introduzida pela bombada percussão que cadenciou as cúmplices palmas do público, “Capim-Limão” (do anterior Sábado, de 2013) expôs no solo de guitarra o principal interesse da música de Cícero que é a contemporaneidade que ele incrusta na bossa-nova, através dos riffs noisey que poderiam justificar o rótulo pós-bossa para aquela revisionista interpretação do clássico género brasileiro. Uma contemporaneidade extremada na recente “De Passagem”, cuja batida dançável trouxe à memória a house suave de Nicholas Jaar, mas nobilitada pelas frases de harmónio, ao ponto de alcançar um consenso crítico que alimentou o forte aplauso com que a plateia retribuiu no fim.

E foi naquela cumplicidade com o público que o brasileiro sobrevoou a cidade na planante “Asa Delta”, cujo final foi afinadamente assobiado por todo o salão da Casa Independente onde durante “Ela e Lata” – – cantada e acompanhada com palmas por meia casa -, foi possível confirmar a boa onda emocional, mirando os muitos casais abraçados e a jovem que continuava dançando desde o início do concerto! Porém, Cícero não pôde “dar mole”, nem se conseguiu tranquilizar, operando o imprevisível Mac. Como ele confessou, “É a primeira vez que tou fazendo isso! Tomara que a máquina não atrapalhe… Mas agora vou tocar algumas do primeiro disco, acho que essa é a mais conhecida.” disse, sorrindo aliviado. E, finalmente, o debutante Canções de Apartamento começou a ser derramado, com o urbano axé noisey “Tempo de Pipa” para satisfação do público que, como no tema anterior, devotou afinado coro e cadenciadas palmas no acompanhamento ao brasileiro, completando intimamente o troço inicial do alinhamento e permitindo a Cícero olvidar por alguns minutos o inquietante Mac.

Sempre em comunhão com o público

O repouso de Cícero no primeiro álbum alongou-se por “Vagalumes Secos”, cuja estrutura rítmica, quase sem se dar por isso, é uma recuperação da do clássico “Baby” de Caetano e Gal Costa e que, após o frenesim inicial do público, pareceu ter hipnotizado a plateia com a sua letra meditativa, até a contemporânea guitarra noisey dar o safanão emocional no final da canção. “Antes de voltar para a máquina, vou fazer mais uma assim“, foi como o carioca introduziu “Pelo Interfone” (ainda do álbum de estreia), bossa-nova oportuna para viajar como a informação por cabo e observar que o pátio da Casa servia de refúgio momentâneo ao muito calor no salão para vários elementos do público que ali aproveitavam para inspirar algum ar fresco.

Porém, o salão continuava cheio quando Cícero explicou, “Voltarei agora para a máquina… Estive aqui em Março com a banda e agora criei esse formato para poder voltar. Essas são dos discos novos que estão na net para baixar. Diz para um amigo baixar, porque ajuda“. A primeira daquelas foi a recente “Albatroz”, uma das suas canções mais pop pela qual o carioca planou tranquilamente para passar a “Porta, Retrato”, um tema com uma partitura de guitarra que lembra os Radiohead de In Rainbows e que, também por isso, quase sedou a plateia, até que no final o Mac expeliu uma bateria bombada que no centenário salão pavimentado a madeira bateu quase a dobrar nos ouvidos. Mas o calor no salão, que era ainda maior que o calor do sereno momento, tornou oportuno algo mais calmo, e por isso foi confortável escutar a clássica bossa triste “Duas Quadras” (também de Sábado), que só no final Cícero animou introduzindo o famosíssimo refrão de “Água de Beber” que, logicamente, colheu da plateia mais um coro cantando para ele.

De facto, o calor era tão sedativo que os corpos, em vez de se agitarem ao som da música, eram languidamente ondulados com lentidão semelhante à do “Soneto de Santa Cruz”, música austera de regresso a A Praia que o público preencheu cantando a melancólica letra, mas tendo sido “mal agradecido” com uma má notícia: “Esta é a última música do último disco“, que sugeriu a proximidade do fim do concerto. E “Terminal Alvorada” terminou insolitamente na contradição entre uma plateia já pensava que o bom estava a acabar e um aliviado Cícero que desabafou “Eu tava nervoso com o Mac, mas já acabou a parte do Mac. Aí eu posso tocar qualquer música e vou cantar uma que não é minha.“, de cuja versão contou a história “O filho do Gilberto Gil – conhecem Gilberto? -, me convidou para um tributo ao pai e eu escolhi essa, que deu um trabalhão p’ra decorar, porque a letra parece que nunca mais acaba! Gilberto a fez quando voltou do exílio em Inglaterra“. A canção era “Back In Bahia” e atestando que o brasileiro manteve o psicadélico astral swinging 60s do original, a jovem que dançou desde o início do concerto já tinha par (outra jovem) para dançar a música, muito bem recebida entre o público que superou o calor para se agitar e cantar já no final. Final que deveria ser o fim do espectáculo, mas…

… Foram três encores, até acabar em “bagunça”!

Tecnicamente acabou, juro por Deus!” exclamou Cícero, mas pouco convictamente após “Back In Bahia” para a inconformada plateia de onde saíram vários pedidos de canções enquanto o ovacionava. E o carioca não pôde ignorar aqueles pedidos que teve que gerir: “Qual você falou? “Ensaio Sobre Ela”? Faz tempo que não canto essa. Se eu me enganar… Cantam o refrão comigo? É mesmo a última, porque eu não sei mais nenhuma“. E foi um público em delírio que lhe devotou entusiasmado coro ao longo de todo o tema do primeiro álbum. A seguir, outra hesitação: “Então a ideia é eu sair e não voltar mais. Tenho que acabar às 11 e meia, para fecharem a Casa, e já são 11:22“. Só que aquelas pessoas estavam euforicamente inamovíveis e Cícero teve mesmo que cantar mais uma, “O Bobo”, ritmado pelas palmas do público e ainda bailado pela mesma jovem que nunca parou de dançar!

Ainda não ia acabar! “Tudo é motivo para voltar a Portugal. Palmas para o Pedro, que fez um som es-pec-ta-cu-lar, ali atrás! Então eu vou tocar uma de Los Hermanos…“. Foi a muito implorada versão de “Conversa de Botas Batidas”, toda passada aos beijos por dois casais que expuseram toda a ternura contida naquela versão e/ou toda a ternura acumulada ao longo do afectuoso espectáculo -, certo é que talvez nunca o tigrão do fundo do palco tenha parecido tanto um manso gatinho! E com o público em estridente êxtase, Cícero deixou o palco, mas tão hesitantemente que voltou para o terceiro encore, já para lá das “proibitivas” 11 e meia.

É mesmo a última. Bora lá fazer bagunça! Porra, correu tudo bem, sonhei que o Mac parava!“, exclamou o brasileiro na derradeira confissão de alívio – e anterior temor. Foi a justificação emocional para “Ponto Cego”, outra canção que encerra um dos álbuns (Canções de Apartamento), toda percussionada pelas atempadas e vigorosas palmas batidas pelo público que a cantou do princípio ao fim. Um final festivo que não impediu a pontual evacuação do salão, mas sobretudo que fez justiça à cumplicidade entre o público e Cícero (conquistada pelo brasileiro nas anteriores vindas a Lisboa) e à afectuosa gestão que ele fez de um público ao qual soube agradecer todo o carinho. Foi, sem dúvida, um concerto emocionalmente bom, de afectos, que deixou a porta aberta a mais um regresso com a banda (numa sala maior) para ser musicalmente mais fulgurante. Valeu, cara!

Cícero na Casa Independente, pela lente de Ana Santos:

Cícero @ Casa Independente