Enquanto a noite deixa escapar o verão pelas fissuras dos dedos, persianas e sóis a pôr-se dourados, quer-se acordar uma bruma que pousa sossegadamente no espírito ainda frenético e abalado de energia. É essa a sensação que emerge do novo vídeo  para “Beautiful People” de Mark Pritchard com os vocais singulares de Thom Yorke e realização pelo galardoado Michal Marczak. Foi anunciado agora, quatro meses depois do álbum Under The Sun ter sido lançado em Maio deste ano.

Com a sonoridade iminentemente oriental e ancestral, encontramos um cenário gelado e montanhoso coberto por um céu rosado ou anoitecido e uma figura que caminha, explorando terrenos frios e crespos. No lugar do rosto está um espectro que distingue as feições de Thom Yorke num tom futurista em contraste. Esse jogo de reflexos sugere o esforço de um balanço entre o que foi percorrido e o que está por percorrer e o desconhecido que se vai encontrando. A natureza é, assim, desafiada, as normas da física são contornadas e cair torna-se uma ascensão. A reversão harmónica da gravidade, da lei, mostra-nos uma disponibilidade para a realidade que pode não ser compreendida à primeira vista. A tolerância ou o sonho, ou os dois juntos.

O forte processamento da voz do vocalista dos Radiohead envolve-a profundamente na melodia; repetitiva e ancestral, torna-se invisível nessa bruma com uma textura aquosa, por momentos e, depois, surge à superfície, para distinguirmos expressões como “I can’t go back” ou “Flies out of the window”, coadunando-se com a sensação ondulante do instrumental. Pritchard explicou que a melodia original de “Beautiful People” é de cariz pessoal, sobre sentimentos de perda e caos, “mas a mensagem é de amor e esperança. A contribuição do Thom captou na perfeição aquilo que a peça trata”. É inegável a adição de valor desta colaboração, na qual a voz de Thom Yorke surge como mais um instrumento, escapando ao egocentrismo estereotipado de um “cabeça de banda”.

A melodia e a voz simbioticamente combinadas num percurso místico provocando, talvez, uma aura meditativa, criam uma passagem transcendental entre tempos, em que um espectro avant-garde tem a sensibilidade de deixar traços simples e orgânicos, enquanto ecos e ritmos de peles sopram pelos mais diversos lugares. Mark Pritchard consegue criar sons que entrelaçam deste modo a electrónica e uma experiência que ultrapassa o ambient, mas que é verdadeiramente sensorial e próxima.