Na noite da última quinta-feira, enquanto as Savages tocavam numa sala esgotada de Lisboa, cerca de 60 pessoas rumaram contra a corrente, ao aquário da Zé dos Bois e foram premiadas com uma experiência emocionalmente extasiante, daquelas que no dia seguinte ainda sente ecoar no cérebro, pela intensidade das interpretações. O mérito foi todo das Circuit Des Yeux, na qual brilha a voz imensa de Haley Fohr (pontuada por alguns instrumentais sem voz, como a onírica “Dream Of TV”), e também do português Manuel Mota que, a solo com a guitarra dele, abriu freneticamente o espectáculo.

O cante da sereia de um mar de lava

Era grande a apetência de quem estava presente, por Circuit Des Yeux, justificada pelo último álbum In Plain Speech (Thrill Jockey Records), para o qual Haley Fohr evoluiu o projecto, do solo inicial para uma banda que tornou o som mais harmonioso e por isso apelativo a ouvidos mais moderados, aumentando a popularidade do mesmo. E de facto In Plain Speech ocupou quase todo o alinhamento – com arranjos diferentes, adaptados para um trio. Na escurecida sala, com o palco iluminado só o suficiente para as três Circuit Des Yeux verem os instrumentos que tocavam (guitarra acústica, violino e flauta), o concerto foi iniciado com a frase “There is something deep inside of you” de “Do The Dishes”, amplificada pela abissal voz de Fohr, que introduziu o mergulho espiritual que estava começando.

Haley soa como uma xamânica versão de Julia Fordham ou mesmo Cher (nas melhores interpretações), cujos robustos graves da voz transcendem o mainstream, para profundezas entre a dark pop (“Do the Dishes” representa um esgotamento por rural vida doméstica) e a dream pop ora distante, ora submersa, ora escondida, ora no éter. “Ride Blind” é uma consequência psicológica de “Do The Dishes”, a cujas stories that have no meaning é uma enérgica reacção impulsiva, plena de ritmo e cantada por uma voz amplificada, qual cante de uma multidão padecendo do mesmo mal e partilhando a(s) mesma(s) urgência(s), que garante em uníssono We will be there. Todavia, era só um sonhar acordado, de quem se limita a “Fantasize The Scene”, uma balada quase surrealista, protagonizada pela guitarra de Haley sugerindo We could move out to L(os) A(ngeles), num tom de voz sublime, sem sexo nem nexo, de um constrangido anjo negro de aldeia, que só deseja go all the way para a liberdade sem culpa de uma cidade where no one knows our names.

Uma vibrante voz de extremos   

Numa mudança de humor, “A Story Of This World” foi um dos temas em que a voz de Haley mais arrebatou, num poema sobre a ganância e a futilidade – for the want… for the want -, com a culpa representada no cabelo cobrindo o rosto e no envergonhado cante lamentoso, sobre o fundo do arrastado instrumental que fez recordar Laura Veirs; porém, numa brusca mudança emocional, a vergonha evoluiu para um crescendo dramático, histérico, vocal e instrumentalmente e também fisicamente – Haley projectava bastante a voz e agitava-se energicamente, como alguém em arrepiante descontrolo que expiava uma angústia imensa, ao admitir You lost the battle! repetidamente. Prosseguindo um alinhamento cuidadoso, a banda relaxou na ligeira “In The Late Afternoon”, uma triste balada com um pé na Europa e outro na pradaria americana de onde Fohr veio, tocada quase só com a guitarra, espaçadamente pontuada por frases do violino e da flauta.

Para o epílogo, foi escolhida “Nova” (do EP Overdue), que Haley jocosamente dedicou ao pai – “que quer vir nas digressões, porque nos imagina como os Aerosmith, com jacto próprio”. Um tema de introspecção, em evasão/fuga conduzindo um Chevrolet para outro Estado, que Fohr concluiu cantando para um estádio e se recreando com os gadgets de efeitos vocais, tendo oferecido um transcendente momento psico-sensorial, que deixou o público exigindo encore em êxtase. E as Circuit Des Yeux regressaram ao palco, para interpretarem a derradeira “Lithonia” (também de Overdue), que Haley apresentou como uma canção “sobre o desespero de um(a) pobre jovem sonhador(a) a quem o vento sempre forte de Chicago levou um bilhete de lotaria onde jazia uma esperança imensa”. Foi a interpretação mais fiel à versão de estúdio, na fineza da sobriedade cinemática dos acordes de violino, para um eventual biopic sobre a própria juventude de Fohr, cuja evolução já a elevou a uma maturidade que faz prever mais concertos (e discos) grandiosos, como aquele de Circuit Des Yeux na passada quinta-feira.

Um génio português

Todavia, é inevitável fazer uma analepse, de recuo ao concerto que iniciou espectáculo, para comunicar a mestria de Manuel Mota. Guitarrista a solo e num estilo experimental muito alternativo, cujos intérpretes mais conhecidos talvez sejam John Russell, Elliott Sharp e Fred Frith, Mota disparou um dilúvio sonoro dividido em dois actos, nos quais submeteu toda a tecnologia de efeitos à sua engenhosa técnica, para compor complexos cenários musicados. No primeiro acto, começou por criar efeitos de eco como em túneis e recintos industriais, que transitaram para uma arrepiante estridência, sentida como uma longuíssima queda livre sob o peso da Gravidade, num fosso metálico com quilómetros de profundidade e diâmetros variáveis identificados pelas diferentes reverberações; foi talvez como tentar conceber o oco núcleo de um planeta, naquela simbiose trilateral entre o Artista músico, a guitarra eléctrica e a tecnologia de efeitos de som – minutos inesquecíveis!

O segundo acto, mais curto, foi a antítese do primeiro: mais melódico, bucólico, quase etéreo, como se libertado do peso gravítico do anterior, mas ainda muito magnetizado, com as cordas delicadamente roçadas pelo dedal em alguns períodos. Valeu a pena o risco de expor os ouvidos a algo desconhecido e imprevisível, raramente divulgado. E falando sobre correr riscos, um franco “Bem haja(m)!” para quem planeia a programação da Zé dos Bois, por ter feito o audaz serviço Público de oferecer o próprio palco a um músico nacional tão alternativo, que raramente deve ter acesso a palcos Públicos, estatais ou autárquicos.

Manuel Mota